Dylan em biografia definitiva

Podem até tentar, mas dificilmente alguém conseguirá fazer um filme sobre Bob Dylan melhor do que fez Martin Scorsese em "No direction home". Com quase três horas e meia de duração, o documentário enfoca os cinco anos cruciais da vida e carreira do astro, entre 1961 e 1966, ou seja: do momento em que ele chega a Nova York aos 20 anos — quando muda de nome, passa da folk-music ao rock 'n' roll e se torna o ídolo de toda uma geração — até pouco antes do acidente de moto que o afastou dos shows por três anos.

Martin ScorseseScorsese (ao lado na foto), que já tinha dirigido "Feel Like Going Home", episódio sobre as raízes africanas do blues, dentro da série "The Blues" (2003) produzida para a televisão americana, mostra que é um mestre na sua arte: não só faz um resumo perfeito da trajetória de Bob — das origens em Minnesota até o estrelato, passando pelos primeiros shows no Greenwich Village, bairro boêmio de Nova York — como contextualiza a carreira do cantor-compositor iluminando também aquela década de caça às bruxas, comunistas, guerra fria, discurso de Martin Luther King ("I had a dream"), assassinato de John Kennedy, protestos contra aGuerra do Vietnã. Além de uma longa entrevista com o biografado, personalidades como Allen Ginsberg, Joan Baez, Suze Rotolo, Dave von Ronk e Pete Seeger, entre muitos, dão seus depoimentos, enquanto outros que influenciaram Dylan — tais como Johnny Cash (biografado no filme "Johnny e June"), Woody Guthrie e a maravilhosa cantora gospel Odetta — aparecem em shows.

Na seção de bônus do DVD duplo há cenas raras de apresentações de Bob Dylan, como "Blowin' in the Wind" (1963) e "Man on Constant Sorrow" (64), ambas na TV, ao vivo; "Mr. Tambourine Man" no Newport Folk Festival (64), e três cenas de shows na Inglaterra: "Love Minus Zero/No Limit" em Londres (65), "Like a Rolling Stone" em Newcastle (66) e "One Too Many Mornings" em Liverpool (66), além de uma inédita — "Girl of the North Country", feita para a TV canadense em fevereiro de1964 e nunca exibida. Material também especialíssimo, pois jamais divulgado, é o spot promocional da canção "Positively 4th Street", de 1965.

No período de apenas seis anos retratado neste documentário Dylan lançou sete discos: ao primeiro, de 1962, intitulado simplesmente "Bob Dylan", seguiram-se "The Freewheelin' Bob Dylan" (63), "The Times They Are A-Changin'" (64), "Another Side of Bob Dylan" (64), "Bringing It All Back Home" (65), "Highway 61 Revisited" (65) e "Blonde on Blonde" (66) — e são as maravilhosas canções destes álbuns, importantíssimas na vida de quem tenha hoje mais de 50 anos, que impregnam de magia (e nostalgia) o filme de Scorsese. Pra completar o quadro, entre os bônus do DVD o artista aparece num quarto de hotel em Glasgow, Escócia, em maio de 1966, compondo "I Can't Leave Her Behind".

Bob DylanAlém da parte musical, "No direction home" mostra um Bob Dylan muito engraçado, capaz de responder com um humor ferino e irônico a perguntas de jornalistas que insistiam sempre nas mesmas teclas. "Por que você não faz mais músicas de protesto?" era uma das questões repetidas ad nauseam. "E quem te contou isso? Tudo o que eu faço é música de protesto", respondia ele, rindo. Como jornalista da área cultural, sei do que é capaz um monte de repórteres reunidos numa sala em entrevista coletiva com alguma estrela das artes em geral: as maiores cretinices saem da boca de gente supostamente culta num momento de competição com concorrentes, todos no afã de fazer a pergunta mais inusitada e obter aquela "resposta-bomba". E é bom descobrir que jornalistas americanos podem se comportar de forma ainda mais idiota do que os "coleguinhas" brasileiros.

Uma das cenas mais divertidas do documentário se passa, exatamente, numa entrevista em San Francisco, dezembro de 1965. Um barbudo pergunta a Dylan qual o simbolismo da capa do disco: por que ele foi fotografado vestindo uma camiseta da Triumph? Ele começa a rir, diz que não tem a menor idéia, "foi um dia em que eu estava sentado nuns degraus, e me fotografaram" — nem se lembra da tal camiseta. Risada geral. Então uma garota pequena e gorducha, de franjinha, pergunta se ele prefere canções com mensagem óbvia ou mensagem sutil. "O quê?", rebate ele, espantado. Ela repete: mensagem óbvia ou sutil? Ele continua sem entender: "De que música você está falando?" E ela: "Como "Eve of Destruction", coisas assim". "Prefiro isso ao quê mesmo?", indaga Dylan. Todos na sala estão rindo baixinho. O diálogo continua:

Repórter: Não sei, mas suas canções deveriam ter uma mensagem sutil.
Dylan: Mensagem sutil?!?!
Repórter: Bem, supostamente deveriam ter.
Dylan: Onde você leu isso?
Repórter: Numa revista de cinema.
Dylan: Minha nossa!!!

A essa altura do campeonato a sala inteira está às gargalhadas, inclusive o entrevistado e a entrevistadora, que cobre o rosto com as duas mãos, envergonhada. Um outro quer saber se Dylan "pensa em si como um cantor ou como um poeta". E ele, rindo: "Penso em mim como um homem que canta e dança". Outro dispara: "Mr. Dylan, eu sei que o senhor não gosta de rótulos, mas para nós, que estamos bem acima dos 30 anos, será que poderia se rotular e nos dizer qual é o seu papel?". Bob, na flor dos 24 anos, responde, cheio de charme: "Eu me rotulo como bem abaixo dos 30. E o meu papel é ficar por aqui enquanto eu puder". Uma delícia!

Neste ponto do documentário entra o Bob Dylan sessentão, cabelos grisalhos, comentando, mui sabiamente, que "a imprensa achava que os artistas tinham respostas para todos os problemas da sociedade. (..) As pessoas tinham uma visão distorcida de mim, me atribuíam o papel de porta-voz de uma geração". Volta o filme para a entrevista em San Francisco e um repórter de TV, cercado de cameramen, comenta: "O senhor parece relutante em admitir que é um cantor popular, e que exerce grande influência sobre o público, como se tivesse vergonha de sua popularidade..." Dylan interrompe: "E o que você quer que eu faça? Que eu grite "Aleluia!", e quebre as câmeras, e saia pulando, ou faça algo estranho assim? Se quer me diga, que eu faço... ou arranjo alguém pra fazer". Hilário e brilhante.

O momento mais engraçado, porém, aconteceu uma semana depois, numa entrevista igualmente concorrida em Los Angeles. Um sujeito indagou: "Quantas pessoas trabalham na mesma seara em que o senhor labuta, ou seja, quantas pessoas usam as canções de protesto para comentar problemas sociais como a guerra, a violência?". A boca do entrevistado fez aquele leve esgar de ironia, já exibido anteriormente, e ele replicou, um tanto incrédulo com a pergunta: "Quantas são?" Sim, isso mesmo, confirmou o repórter. Então veio a tréplica: "Acho que são cerca de 136". O outro não entendeu o deboche e insistiu na besteira: "O senhor quer dizer "cerca" de 136 ou exatamente 136?" E o artista, mortal: "Ou são 136 ou 142". Melhor impossível.

Também são bons os momentos de entrevero com os fãs, da relação de amor e ódio que se complicou quando BD começou a usar guitarra elétrica, e foi acusado de estar traindo o verdadeiro espírito da folk music. O público aparece na saída dos shows em que ele acabara de tocar com sua The Band — a que os fãs se referem como "aquela banda comercial" — xingando Dylan de "vendido", "traidor", "Judas", ou ainda exclamando: "Acho que ele está se prostituindo". Numa cena, um rapaz pede para tocar na mão esquerda de Dylan, e ele responde: "Cara, eu não deixaria você sequer olhar a minha mão direita!" E o fã rebate, debochado: "Mas você não toca com a mão esquerda!". Em outro take, o cantor está dentro do carro quando um casal se aproxima, muito agitado, pedindo autógrafo, e ele reage: "Você não precisa do meu autógrafo, se precisasse eu daria".

Robert Allen Zimmerman nasceu numa família judia, a 24 de maio de 1941, na cidade de Duluth, Minnesota. Dizem algumas biografias que seu nome artístico é homenagem ao poeta americano Dylan Thomas (1924-1953), mas certa vez, perguntado sobre isso, riu e disse que era o contrário: Dylan Thomas é que escolhera o nome em homenagem a ele, Bob. Das mais de 500 músicas que formam seus 43 discos (47 se incluirmos as coletâneas), 237 — quase a metade — foram compostas entre 1962 e 1965. Ao Brasil ele veio duas vezes: em 1990, para o Hollywood Rock, e em 98 para o show de abertura da apresentação dos Rolling Stones, quando cantou sua obra-prima "Like a Rolling Stone" com Mick Jagger. Um ano antes ele esteve internado por problemas no coração, mas isso não o impediu de logo depois lançar "Time Out of Mind", com o qual ganhou três prêmios Grammy, entre eles o mais importante: Melhor Álbum do Ano.

Bob Dylan acaba de realizar uma turnê, com sua banda, por 27 cidades americanas, e, sempre solidário com as grandes causas, fez questão de se apresentar na versão 2006 do tradicional New Orleans Jazz & Heritage Festival, entre 28 de abril e 7 de maio, que este ano ganhou um outro objetivo, além do musical: o de angariar fundos para a recuperação arquitetônica e a revitalização cultural da cidade, destruída pelo furacão Katrina.

Veja o trailer do DVD clicando aqui.



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