| Caetano Veloso lança "Cê",
o quadragésimo
Avô
desde o dia 12 de janeiro de 2006, quando nasceu Rosa,
filha de Moreno e Clara Mariani Flacksman, o cantor
e compositor Caetano Veloso, 64 anos, acaba de botar
no mercado seu quadragésimo disco, com um diferencial:
pela primeira vez, todas as faixas são exclusivamente
de sua autoria. O último CD de canções
inéditas, "Noites do Norte", lançado
há seis anos, se inspirou no livro Minha
Formação, de Joaquim Nabuco, que
— como ele mesmo revelou em entrevistas a jornais
e ao programa de Jô Soares, na TV Globo —
desconhecia, e pelo qual se encantou ao ganhá-lo
de presente do editor José Mario Pereira, da
Topbooks, responsável pela reedição
da obra após longo tempo fora das livrarias.
Neste trabalho, a letra da música-título
é um trecho do livro de Nabuco.
Depois disso, Caetano lançou
em 2001 o "Noites do Norte ao vivo", um CD
com Jorge Mautner intitulado "Eu não peço
desculpas" (2002), outro com standards anglo-americanos,
"A foreign sound" (2004), e a trilha sonora
do balé "Onqotô" (2005), coreografia
do Grupo Corpo, composta em parceria com José
Miguel Wisnik. Dá para entender, portanto, o
frisson da imprensa em torno de "Cê",
após um período de seis anos em que o
polêmico compositor pouco agitou o mercado fonográfico
com sua sempre eletrizante oficina de idéias:
os jornalistas estavam sedentos por novidades, e loucos
para ouvir de Caetano aquelas frases fortes que ele
não hesita em disparar, especialmente às
vésperas de uma eleição majoritária.
E não deu outra: logo na primeira
entrevista para falar de "Cê" —
corruptela de "você" que nomeia o novo
disco — seu autor soltou uma frase que mereceu
dezenas de cartas de leitores irados. Depois de afirmar
que estamos vivendo um retrocesso político —
"Há uma certa regressão no país
- que fez o impeachment de Collor - quando se passa
uma esponja no escândalo do mensalão. Lula
e o PT afastaram os acusados, Lula se disse traído,
mas a cada solenidade de despedida dos que cometeram
delitos levantou a voz para dizer loas morais a essas
figuras. E pôs a culpa num possível complô
das elites através da mídia, o que eu
acho completamente incongruente" — , Caetano
completou: "Eu não sou burro, nem maluco,
então não vou votar nele". Os simpatizantes
da reeleição se sentiram ofendidos e inundaram
de cartas as redações dos jornais: "Quer
dizer que quem vota no Lula é burro ou maluco?
Eu não sou!", esbravejaram (veja aqui a
entrevista completa na Folha
de S. Paulo).
O
novo disco, "Cê", é do tipo "ame
ou deteste" — está cheio de dissonâncias
e estranhamentos, ou mesmo de trechos em que a letra
parece ter ficado maior do que a frase musical, como
é o caso da intimista "Minhas lágrimas":
ao ouvi-la, a primeira coisa que me ocorreu foi que
nenhum outro cantor (ou cantora) poderia jamais gravar
tal música. Ou seja, foi feita especialmente
para ser interpretada pelo autor. Quem é fã
incondicional vai descobrir mensagens ocultas, sinuosidades
de linguagem e inventivas sonoras que aos ouvidos de
não-iniciados merecerão apenas o rótulo
de "coisa muito chata". Mas é assim
mesmo, não estamos falando de uma unanimidade
como Chico Buarque (e ainda bem; já dizia Nelson
Rodrigues que toda unanimidade é burra...).
Acompanhado apenas por um trio básico
de rock, Caetano contou com a produção
de dois músicos muito próximos: seu filho
Moreno e o companheiro de trabalho de longa data Pedro
Sá, que toca baixo e guitarra, ao lado de Ricardo
Dias (piano Rhodes e baixo) e Marcelo Callado (bateria).
"Cê" tem 12 faixas, e a novidade é
que sairá também em vinil, com menos duas:
ficaram de fora "Por quê?" e "O
Herói", um rap em tom político onde
se refere à sua decepção com o
governo Lula — "depois do fim do medo e da
esperança" — e critica o sistema de
cotas na frase: "fomentar aqui o ódio racial
/ a separação nítida entre as raças"
(leia toda a letra).
Imagens corpóreas e sensuais
estão presentes em vários momentos, como
em "Deusa urbana", uma balada que fala em
"sexo heterodoxo, lapsos de desejo", ou ainda
em "Homem", em que ele grita que é
"hoooooooomem com pêlo grosso no nariz"
e afirma não invejar nas mulheres a maternidade
ou a lactação, nem a adiposidade ou a
menstruação, mas apenas "a longevidade
e os orgasmos múltiplos". Em "Outro",
brinca com o erotismo: "feliz e mau como um pau
duro/ acendendo-se no escuro". Já em "Por
quê?", embalado por um piano bossanovista,
repete insistentemente, e com sotaque lusitano, a expressão
"estou-me a vir", que é como os portugueses
avisam aos parceiros que o orgasmo se aproxima, enquanto
no samba "Musa híbrida" homenageia
uma heroína mestiça de "olho verde
e carapinha cúprica" (de cobre), "lábios
bundos" e "buço louro".
O autor só assume como autobiográficas
duas canções. Uma é a triste "Minhas
lágrimas", onde relembra um acontecimento
íntimo e marcante, e termina melancolicamente:
"nada serve de chão onde caiam minhas lágrimas".
Outra é a bob-dylaniana "Não
me arrependo", em que afirma: "Vejo essas
novas pessoas / que nós engendramos em nós..."
— clara evocação ao fim de seu casamento
de quase 20 anos com Paula Lavigne, ao longo do qual,
além de lhe dar dois filhos (Zeca, de 14 anos,
e Tom, de nove), ela foi importantíssima na organização
e administração da carreira de Caetano,
um artista naturalmente desorganizado que não
sabia cobrar por sua arte e pouco recebia de direitos
autorais. E na letra de "Não me arrependo"
fica evidente que a pessoa referida no título
do disco ("Cê" = você) é
a ex-mulher: "Eu não me arrependo de você/
Cê não me devia maldizer assim/ Vi você
crescer/ Fiz você crescer/ Vi cê me fazer
crescer também".
Embora esteja mais nítido nessas
duas canções auto-referentes, o sentimento
de separação parece perpassar todo o disco.
Um segundo trecho da faixa "Outro" —
"Eu já chorei muito por você/ Também
já fiz você chorar/ Agora olhe pra lá
porque/ Eu fui-me embora" — é exemplo
disso. E mesmo no rock "Odeio", quando fala
"só eu, velho, sou feio e ninguém"
e se vinga no refrão "odeio você /
odeio você / odeio", ainda que sem querer
ele nos remete a uma sensação de fim de
caso e solidão indesejada.
Há também uma bela homenagem
ao amigo Wally Salomão, poeta e letrista morto
em 2003, na qual Caetano o coloca "entre livros
e os tambores de Vigário Geral", subúrbio
onde nasceu o grupo Afro Reggae, apadrinhado por Wally.
O autor dedica a Zeca a agitada "Rocks", onde
se apropria da expressão "mor" (a maior),
muito usada pelo filho do meio: "Você foi
mor rata comigo". E enche de imagens oníricas
a faixa "Um sonho", de todas a mais parecida
com uma típica canção de Caetano
— ou seria melhor dizer "a menos dessemelhante"?
Enfim, trata-se de um disco cheio de
estranhezas, que não é para qualquer público.
Quem acompanha a carreira do artista, como é
o meu caso, diria que neste trabalho ele foi movido
muito mais por uma necessidade íntima de desabafar
sentimentos e emoções fortes que há
algum tempo lhe oprimiam o peito, e precisavam ser expostos.
Eu ousaria dizer que "Cê" é como
o caviar beluga: não agrada a todos os paladares,
mas é raro, especial, cada dia mais difícil
de encontrar. Pra completar, é o número
40 de sua carreira — um marco!
Leia também Nas
curvas da trilha sonora.
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