| Eu não
sou maluco para reeleger Lula
"Não sou burro nem maluco",
disse Caetano Veloso à Folha
ao justificar sua decisão de não votar
em Lula - o que já não faria, segundo
ele, por ser contra a reeleição. "Mas,
mesmo se fosse a favor, não votaria. O escândalo
do mensalão foi vergonhoso". Em "Cê",
no entanto, o novo CD de Caetano, a questão política
mais explícita está em "O Herói",
que perfaz o caminho de um militante negro, do ódio
à democracia racial. Depois de um álbum
inteiro de canções em inglês, com
23 faixas e orquestra, "Cê" traz 12
canções de autoria do compositor, todas
executadas por ele e por um trio básico de rock,
formado por Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo
Dias Gomes.
MARCOS AUGUSTO GONÇALVES / EDITOR
DA ILUSTRADA
Na música "O Herói"
quem fala é um militante que quer semear o ódio
racial, mas descobre no final que é o homem cordial.
Como você concebeu essa letra?
CAETANO VELOSO - É como se fosse a trajetória
de um ativista do movimento negro que, depois de se
opor a todas as ilusões da harmonia racial brasileira,
termina reafirmando-se como o homem cordial e instaurador
da democracia racial. É como se ele atravessasse
o processo inteiro e no fim chegasse a uma coisa a que
só um brasileiro poderia chegar. Eu acho que
temos que passar por esses estágios. Quando eu
era menino, vi uma menina preta, filha de dona Morena,
que morava perto de nossa casa, em Santo Amaro, saindo
do banho com o cabelo sem estar esticado. Achei lindo.
Quando, nos anos 60, veio a aparecer o cabelo "black
power", eu achei que era uma realização
dos meus sonhos. Naquela época eu torcia para
que as coisas ficassem mais acirradas e visíveis.
E vi pessoas negras e de grande talento irem muito fundo
nessas questões, que eu incentivava. Porém,
nunca abandonei a perspectiva da cegueira para as cores
tradicionais no Brasil, embora tenha servido para a
manutenção da opressão. Mas não
era só a isso que ela servia -e essa é
a história.
Eu acho que, no fim das contas, esse movimento, quando
chegar à sua plenitude, se não houver
um desvio alienante, vai reencontrar esses conteúdos
brasileiros, por causa de nossa muito profunda miscigenação
e da tradição de não manifestar
o ódio racial.
FOLHA - Você já
falou contra a institucionalização do
racismo no Brasil à moda dos EUA.
CAETANO - Há muitas vezes uma vontade,
uma necessidade quase irracional de imitar os americanos.
Por isso eu disse "e hoje olha os mano" na
letra de "Rock'n'Raul", que é uma grande
canção subestimada.
FOLHA - Você tem uma
posição clara sobre a proposta de cotas
raciais?
CAETANO - Não é 100% clara...
FOLHA - Nem 100% negra... (risos)
CAETANO - Assinei um manifesto para retardar
uma possível aprovação apressada
do projeto do Estatuto da Igualdade Racial, que torna
a proposta das cotas mais recusável. Eu acho
que definir os cidadãos brasileiros pela raça
em lei não é uma boa idéia. Quanto
às cotas, não sou muito favorável,
mas acho que algum movimento de ação afirmativa
deve ser feito.
Me parece evidente demais que, uma
vez que os pobres são majoritariamente negros,
se você fizer um programa de educação
e de emprego com vistas a uma reparação
da enorme distorção produzida pela má
distribuição de renda no Brasil, os negros
estarão automaticamente sendo beneficiados, sem
que haja critério racial e discriminação
dos não-negros.
FOLHA - O que você achou
do livro "Não Somos Racistas", do Ali
Kamel?
CAETANO - Achei de grande importância,
embora negligenciado por alguns. Você sabe como
é: a esquerda tem o velho hábito de só
ler aqueles livros que já concordam com as idéias
que ela tem. Aquelas pessoas que supostamente são
progressistas e que querem a Justiça já
se põem como inimigas do livro, o que é
uma pena. O livro é para verdadeiramente fazer
a discussão caminhar. Pela primeira vez responde-se
com rigor estatístico a exigências que
nasceram por causa da atenção às
estatísticas. A idéia da democracia racial
brasileira parecia um sonho romântico que as estatísticas
negavam. E nunca se respondia com estatísticas,
mas com retórica. O livro pega a linguagem dos
opositores e traz uma resposta de muita substância.
Descartá-lo demonstra falta de saúde social.
FOLHA - Ao contrário
de Chico Buarque, você já disse que não
votará em Lula. Por quê?
CAETANO - Não vou. Não me arrependo
de ter votado nele, mas sou contra a reeleição.
Não votei pela reeleição de Fernando
Henrique, que nos deu de presente oito anos de esquerda
marxista da USP. E como eu já estou com 64 anos
e ele e Lula são a mesma coisa, eu acho que seria
demais 16 anos com essa turma.
FOLHA - O sociólogo
Gilberto Vasconcellos se referia a "essa turma",
que veio a se dividir entre PT e PSDB, como a coalizão
CUT-USP-Fiesp...
CAETANO - Eu acho
essa expressão dele totalmente certa.
FOLHA - Em quem você
vota?
CAETANO - Não sei em quem vou votar.
Não gosto de votar nulo. Eu preferiria que Lula
pelo menos não fosse eleito no primeiro turno.
FOLHA - Como você vê
o escândalo do mensalão?
CAETANO - Eu acho que foi realmente vergonhoso
e ruim. Há uma certa regressão no país
-que fez o impeachment de Collor- quando se passa uma
esponja no escândalo do mensalão. Lula
e o PT afastaram os acusados, Lula se disse traído,
mas a cada solenidade de despedida dos que cometeram
delitos levantou a voz para dizer loas morais a essas
figuras. E pôs a culpa num possível complô
das elites através da mídia, o que eu
acho completamente incongruente. Eu não sou burro,
nem maluco, então não vou votar nele.
Votei em Lula contra Collor no segundo turno, mas meu
candidato não era ele. Era o Brizola. E continua
sendo (risos). Na última eleição,
eu achei que era a hora de um operário chegar
ao poder, de o PT enfrentar a realidade e de se desmistificar
tudo isso. Se o Serra tivesse ganhado, ele, que é
um excelente candidato, seria massacrado por essa mitologia
do Lula, da esquerda e do PT. Quando justifiquei meu
voto em Lula, disse que esperava que ele fosse empossado,
que governasse e que passasse a faixa para outro. Continuo
pensando da mesma maneira.
FOLHA - É como naquela
canção: "Mamãe eu quero ir
a Cuba e quero voltar"?
CAETANO - Exatamente. E eu cantei isso em Cuba.
FOLHA - Por que há essa
leniência em relação ao escândalo?
CAETANO - Eu acho que é por causa da
esquerda. A esquerda é como torcida de futebol.
As pessoas ficam cegas. Eu sou um simpatizante da esquerda
por sede de harmonia, de dignidade e de Justiça.
Mas vejo freqüentemente que a esquerda é
quem mais ameaça essas coisas que me levaram
a me aproximar dela.
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