Nas curvas da trilha sonora

Caetano VelosoEm 2006, Caetano Veloso esteve na Itália, onde, além de participar de um trabalho do compositor italiano Ennio Morricone, autor de algumas das melhores e mais famosas trilhas sonoras de filmes, fez turnê de shows, sempre com casa lotada. Na cidade portuária de Ostia Antiga, por exemplo, foi preciso ampliar a capacidade do Teatro Romano, colocando assentos nas escadarias. Já em Londres o destaque foi outro: o jornal "The Guardian" organizou uma lista dos 50 melhores livros sobre música de todos os tempos e Caetano Veloso, com "Verdade Tropical", ganhou o 46º lugar (o vencedor foi Nick Tosches pela biografia do roqueiro Jerry Lee Lewis, e o segundo lugar ficou Bob Dylan, por sua autobiografia).

Nos últimos anos, o baiano voltou a fazer trilhas sonoras, e não se pode negar que ele faz isso muito bem. Assinou a direção musical de Tieta do Agreste e Orfeu, filmes de Cacá Diegues, de Lisbela e o prisioneiro, dirigido por Guel Arraes, e de Meu tio matou um cara, do premiado Jorge Furtado, e em seguida trabalhou com Milton Nascimento na trilha de O coronel e o lobisomem, adaptação do romance de José Cândido de Carvalho com roteiro e direção de Guel Arraes, outra produção da Natasha Enterprises, de Paula Lavigne. Mais tarde, assinou a trilha de mais um filme produzido pela ex-mulher, 2 filhos de Francisco, que estreou em agosto de 2005; e pouco antes de embarcar para uma série de shows em Tóquio, ano passado, gravou com Zezé di Camargo "Saudade brejeira", canção muito popular em Goiás, terra dos irmãos biografados no filme.

O compositor já deu várias provas de que adora participar como cantor em trilhas sonoras alheias. Em O milagre do Candeal, filme do cineasta espanhol Fernando Trueba, ele canta uma composição de Ary Barroso, como já fizera lindamente antes em outros do "oscarizado" Pedro Almodóvar: A flor do meu segredo encerra com Caetano interpretando a venezuelana "Tonada de luna llena", e no posterior Fale com ela o baiano aparece tocando e cantando o hit mexicano "Cucurucucu, Paloma".

Caetano VelosoA paixão por trilha sonora vem de longe. Nascido a 7 de agosto de 1942, em Santo Amaro da Purificação, pequena cidade do Recôncavo Baiano, Caetano Emanuel Viana Telles Veloso aos 18 anos se mudou com a família para Salvador. Nessa época, arranhava um violão e curtia cantar junto com a irmã, Maria Bethânia, nos bares da capital. Dois anos depois, aos 20, acabara de entrar para a Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia quando, a pedido do diretor teatral Álvaro Guimarães, começou a compor trilhas sonoras para peças do nível de Boca de ouro, de Nelson Rodrigues (na qual também trabalhou como ator) e A exceção e a regra, de Bertolt Brecht - tudo assim meio que por acaso, pois a música não era então uma meta de vida. Mas então ele já tinha assistido ao belíssimo La Strada, de Fellini, e estou certa de que a trilha sonora, do premiado Enio Moriconne, colaborou fortemente para deixá-lo tomado de emoção: ele me contou que chorou um dia inteiro.

Ainda assim, não era sua intenção tornar-se compositor. "Eu me sentia muito mais um desenhista, um artista visual, plástico, do que literário ou musical", me confessaria Caetano 26 anos depois, numa entrevista. Mais tarde, diria à revista Veja: "Se eu não tivesse sido preso em 1968 e exilado em Londres até 1972, teria deixado de fazer música. Com a prisão e o exílio, fui obrigado a viver de música, e acabei ficando preso a este trabalho". (E a gente aqui pensando que a ditadura militar não tinha feito bem nenhum ao país, vejam só...).

Seriedade Profissional

Após entrevistá-lo em 1989 - um texto que mereceu página inteira no jornal O Dia - eu, que já era amiga há muito anos de Gilda Mattoso, sua talentosa assessora de imprensa por décadas, acabei me aproximando mais de Caetano, e passei a marcar presença em todas as noites de estréia de seus shows, com direito a conversas longas depois, no camarim. E assim, além de fã de seu trabalho, com essa aproximação vim a me tornar admiradora também do sujeito extraordinário que se revela no contato pessoal.

Caetano VelosoEm 1992, passava férias em Nova York e descobri, lendo o Village Voice, que Caetano se apresentaria naquele dia. Era 5 de setembro, um sábado com horário de verão, e o sol ainda brilhava quando, às 7 da noite - faltando apenas uma hora para a estréia de seu show "Circuladô" - vi-o deixar esbaforido o Town Hall, na rua 43, e embarcar numa limusine preta rumo ao hotel, onde tomaria um banho rapidíssimo pra poder estar de volta correndo. Ele, a banda, toda a equipe de apoio e mais Paula Lavigne tinham investido a tarde inteira em passar e repassar o som, sem chegar a um resultado satisfatório. Por conta dessa busca de perfeição, o artista atrasou em 15 minutos o início do espetáculo naquela noite, e ao final de duas horas e meia de palco, em que levou a platéia da nostalgia ao delírio, continuava reclamando: "Não dá pra acreditar numa coisa dessas!", esbravejava, inconsolável. "Em Nova York, numa casa assim famosa, o som é pior do que no interior do Brasil".

Essa historinha entra aqui só para ilustrar a responsabilidade, o profissionalismo, o extremo cuidado que esse grande músico-poeta-compositor-cantor dispensa a seu trabalho e a seu público, coisas transmitidas pelo pai, Seu Zeca, um funcionário dos Correios que jamais tirou férias para não desapontar seus conterrâneos, acostumados a vê-lo sempre como um exemplo de atividade. "Meu pai era uma pessoa que não decepcionava", me disse Caetano uma vez. O mesmo se pode afirmar hoje do herdeiro mais famoso de Seu Zeca e Dona Canô, que completou 64 anos no dia 7 de agosto com uma discografia impecável, um filho de 34, Moreno, também músico (com a baiana Dedé Gadelha, sua primeira mulher), que já lhe deu a primeira neta; mais dois com a carioca Paula Lavigne: Zeca e Tom; e uma multidão de fãs, no Brasil e no mundo, a quem ele não decepciona.

Debaixo dos Caracóis

No dia da estréia de "Circuladô" no Canecão, em 11 de março de 1992, teve gente chorando na platéia quando Caetano, relembrando o duro período do exílio em Londres, contou das manifestações de solidariedade que recebia do Brasil - entre elas a canção feita para ele por Roberto Carlos. Na estréia do mesmo show em Nova York, seis meses mais tarde, Caetano repetiu a história em inglês, e quando emendou cantando "um dia a areia branca/ seus pés irão tocar...", tinha gente chorando também entre as poltronas primeiro-mundistas do Town Hall. A maioria do público, apesar de brasileira, não sabia que a famosíssima "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos" era um tributo de saudade do rei Roberto Carlos ao amigo Cae.

Caetano VelosoMuitos deles radicados em Nova York desde os anos de chumbo - e exatamente por causa da ditadura militar - estes patrícios se emocionaram mais por serem, de algum modo, ainda um pouco exilados; e traduziram toda essa emoção numa onda de aplausos e gritos que obrigou Caetano Veloso a voltar várias vezes ao palco, em muitos e muitos bis. Mesmo os americanos que não entendiam as letras das canções entraram no clima fantástico daquela noite, inebriados pela relação amorosa entre artista e platéia. "Não vou ao Brasil há mais de cinco anos e não pensava fazer isso tão cedo", revelou uma capixaba sentada a meu lado na fila E. "Mas, depois deste espetáculo, estou com um sentimento de brasilidade que nem sabia que eu tinha. Me deu vontade de voltar, um orgulho danado de ser brasileira".

Quando regressei das férias em NY, escrevi para o jornal de cultura (já extinto) Rio Capital, que então estava estreando, um texto contando essa experiência emocionante na platéia do Town Hall, seguida pela entrevista que Caetano me dera em 1989, no jornal O Dia. Era 1992, Caetano acabara de completar 50 anos, Moreno, seu primogênito, ainda estava nos 20, e Zeca, o primeiro filho com Paula, era um bebê de seis meses. Como quase tudo que perguntei, e ele respondeu, era atemporal e continua valendo, segue aqui a reportagem-entrevista, para quem gosta desse artista especial e quer saber um pouco mais sobre ele.



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