A casa da árvore

Rua Bambina 40No número 40 da Rua Bambina, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, existe uma casa bicentenária, com três janelas altas, que tem na fachada, a sustentá-la, uma árvore presa ao reboco. A construção agora está em ruínas, mas antes de começar a ruir já tinha, brotada no ventre, esta planta que se entrelaçou ao cimento de tal forma que as duas, casa e árvore, viraram uma coisa só. São hoje como irmãs siamesas que não se pode separar: se arrancarem a árvore, a casa desmorona; se demolirem a casa, a árvore fenece.

Duas vezes por ano, desde 1995, visito essa imagem de casa e árvore abraçadas. Como meu médico fica a menos de 50 metros, já se tornou um ritual sair da clínica, no número 52, caminhar até o 40, e ali parar, estática, diante desta fachada rara que uma árvore escolheu para brotar e florescer. As pessoas que passam estranham meu olhar encantado, meu sorriso idiota, não entendem o que leva uma pessoa aparentemente normal a ficar feito boba, de pé, admirando uma construção muito velha que um amontoado de troncos e raízes — subindo entre a segunda e a terceira janelas para explodir em ramos e folhas no telhado — transformou em coisa úmida e insalubre.

Acontece que os vidros quebrados são belgas, com belíssimos desenhos de flores. As grades sujas das janelas testemunham que o Brasil já abrigou alguns dos melhores artistas em ferro fundido. As esburacadas colunas frontais seguem um traçado clássico, com bordados geométricos, e o porão revestido em pedra exibe lindos respiradouros quadrados em ferro. Fosse este um governo sério, há muito a antiga residência estaria tombada pelo Patrimônio Histórico e transformada em centro cultural — e não por ter pertencido ao líder comunista Luiz Carlos Prestes, ou por nela ter passado sua primeira infância o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas por sua importância como raro exemplar arquitetônico do estilo eclético de fins do século 18.

Como isso não aconteceu, tentaram derrubar a casa, certamente para dar lugar a um edifício alto como na canção "Saudosa Maloca", carro-chefe do repertório de Adoniran Barbosa. Alguém denunciou o crime e suspendeu-se a demolição, de forma que hoje, diante do portão de ferro amarrado com grossa corrente, o que se vê são buracos nos vidros, pedaços de reboco pelo chão, muito mato e sujeira no quintal, e uma pequena placa onde se lê: OBRA EMBARGADA.

Há três anos fiz fotos da "casa da árvore" com minha câmera-porcaria, tão porcaria que, pela ausência de uma lente grande angular, tive de bater várias chapas para dar uma idéia de altura e largura, e tentar mostrar toda a intensidade deste abraço entre cimento e vegetal — fotos que vocês podem ver clicando aqui. Já pensava em escrever sobre isso, e precisava ilustrar o texto. No dia 7 de março deste ano de 2006, depois de oito meses sem vê-la, repeti o velho rito: ao sair do médico, andei até a casa para me certificar de que ela ainda estava lá, agarrada à árvore. E estava; mas, apesar da placa informando o embargo da obra, as raízes da planta haviam sido cortadas a uma altura de mais ou menos dois metros do solo, como se pode ver na fotografia publicada em novembro de 2005 no blog do jornalista Josias de Souza, da Folha On Line, e que reproduzo adiante.

Tive a sensação de que alguém tentara resolver o problema de outra forma: cortando a raiz, a planta secaria, se soltaria da fachada, rompendo os laços com a casa decrépita que ajuda a sustentar há mais de uma década. Mas isso não aconteceu: a árvore — um fícus ordinário — se mostra agora mais frondosa do que nunca, e sua copa verdejante, por conta desse verão de muita chuva, parece zombar da tolice dos homens, que se acham sempre mais espertos, capazes de driblar a natureza. Com o corte criminoso das raízes, ela deixou de apoiar a casa, mas esta se recusou a abandoná-la, e as duas prosseguem em sua vida frágil e solidária.

Coincidentemente, neste 7 de março em que fiz minha última visita à "casa da árvore", meu pai, se vivo, completaria 80 anos; desta vez, pensando nele diante daquelas ruínas tão queridas, decidi que chegara a hora de escrever sobre o assunto. Papai era louco por casas — foi criado numa mansão gigantesca em Vila Isabel, passou as férias em Paquetá num casarão tombado pelo IPHAN, levou cinco anos construindo uma casa de quatro andares no Grajaú para a família — e eu herdei essa mania: desde pequena, por onde vá, mundo afora, sempre me detenho para olhar e perscrutar casas, pequenas ou grandes, feias ou bonitas, ricas ou humildes. E confesso que muitas vezes, quando tenho chances, não resisto a "brechar" uma casa, verbo que (aprendi com meu marido cearense) significa espiar, espionar — mais exatamente olhar através de uma brecha de janela ou porta para ver como vivem os proprietários.

Só existe uma coisa que eu goste mais de admirar do que casas, e esta coisa se chama... árvore! Sou absolutamente louca por árvores, fotografo e abraço árvores, tento descobrir seus nomes, suas origens, se dão flores e frutos, se esses frutos são comestíveis ou não, e às vezes acho que minha alma habitou uma árvore em vida anterior. Daí o sentimento especial toda vez que me detenho diante do número 40 da Rua Bambina: ali não existe uma casa que tem no quintal uma árvore a lhe dar sombra, como é tão comum, e sim uma árvore enlaçada amorosamente a uma casa, apoiando-a como uma bengala a um corpo alquebrado. E isso me emociona tanto porque amalgama, numa única imagem, duas das minhas maiores paixões.

HISTÓRICO DE UMA AGONIA

Li nos jornais que o abandono começou em 2003, quando morreram seus proprietários, os irmãos Raimundo e Georges Alexis Geammal. Imagino que os herdeiros tenham decidido vender o terreno para uma construtora, dada a valorização atual do bairro de Botafogo. No dia 7 de janeiro de 2005, fiscais da Secretaria Municipal de Urbanismo embargaram a demolição ilegal; um mês depois, a Guarda Municipal, cuja sede fica exatamente em frente ao casarão, impediu que ele fosse invadido, e soube-se então, por fontes da Secretaria, que em 2004 uma estelionatária havia tentado se apossar do imóvel.

Em 15 de fevereiro de 2005, o secretário das Culturas, Ricardo Macieira, disse aos jornais que "este casarão tem importância histórica e afetiva para a cidade, e vamos tentar, de alguma maneira, evitar a destruição". Mas não foi o que se viu: a construção se arruína mais e mais a cada dia, e, embora a APAC (Área de Proteção Cultural) de Botafogo a tenha incluído entre seus bens protegidos, nada foi feito no sentido de restaurá-la ou de, pelo menos, evitar efetivamente que ela desabe.

Na época em que a APAC decidiu pela preservação da casa, o historiador Milton Teixeira explicou que, quando Fernando Henrique Cardoso lá morou, havia no quintal um galinheiro. Aos oito anos, seguindo seu pai, o oficial do Exército Leônidas Fernandes Cardoso, FHC mudou-se para São Paulo. Dizem ainda que, no século 19, o porão era a senzala, moradia dos escravos; e que, depois da família de FHC, viveu no imóvel Luiz Carlos Prestes.

Quanto ao nome da rua Bambina — endereço também da editora Nova Fronteira, do Hospital Samaritano, do supermercado Zona Sul, do Bar do Manolo e da novíssima Champanheria Ovelha Negra — descobri uma coisa interessante. Na década de 1850, quando a família proprietária do Copacabana Palace Hotel começou a construir casas e abrir vias de trânsito em Botafogo, como as ruas Eduardo Guinle e Guilhermina Guinle (bisavó da atriz Guilhermina Guinle), um outro clã, o dos Figueiredo, passou a fazer o mesmo. O desembargador José Bernardo de Figueiredo, ministro do Superior Tribunal de Justiça, comprou terras na área e rebatizou a Rua do Boi como Rua Bambina para homenagear sua neta, Luiza Bambina de Araújo Lima, filha de Pedro de Araújo Lima, o Marquês de Olinda — que nomeia outra rua bem próxima. E mais: na Itália, à época, era muito comum se batizar as filhas como Bambina para homenagear Nossa Senhora Menina (Maria Bambina, em italiano).

Tá vendo? Jornalismo também é cultura...

Rua Bambina 40



Desde novembro de 2005, a foto ao lado está no blog de Josias de Souza, na Folha on Line, ilustrando comentário sobre a casa onde viveu Fernando Henrique Cardoso, agora abandonada e sob risco de demolição. Diz o texto que a foto fora enviada "por um amigo do Rio", cujo nome o jornalista não declina. Josias termina afirmando que FHC criou em torno de si e da casa uma nova lenda: "A história do menino ruinoso. Aquele que transforma em ruínas tudo o que toca".

 



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