Bodas de Ouro em dose dupla

Para Chica Xavier, 2006 é o ano dos cinqüentenários: no último 7 de julho, ela comemorou, com festa na casa de Sepetiba, suas Bodas de Ouro com o ator Clementino Kelé, uma linda história de amor da qual brotaram frutos de alta qualidade: os filhos Christina, Izabela e Clementino Júnior e os netos Ernesto, Luana e Oranyan. Na cerimônia de confirmação dos votos, o casal, que esperava 280 convidados, recebeu 400, gente de todas as áreas, de artistas como Pepita Rodrigues, Antonio Pitanga, Tamara Taxmann, Isabel Fillardis e Bete Mendes a nomes da política como Cidinha Campos, do cinema, como o produtor Leonardo Monteiro de Barros, e do candomblé, como a yalorixá Mãe Neyde Oyá d'Oxum, que veio de Alagoas especialmente para a festa.

Chica Xavier em Orfeu da Conceição
Em "Orfeu da Conceição", Chica Xavier
é a Morte, Haroldo Costa (ao violão) faz
o personagem-título e Clementino Kelé
encarna Cérbero, o cão de guarda
do Inferno

Agora Chica celebra os 50 anos de carreira: no dia 25 de setembro de 1956, trajando um longo vestido plissado, com as mangas em forma de asas de morcego, e interpretando nada menos do que a "Morte", ela estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro pelas mãos de Vinicius de Moraes na peça "Orfeu da Conceição", que tinha Tom Jobim na co-autoria da trilha musical, nos arranjos e ao piano, Luis Bonfá ao violão e Oscar Niemeyer assinando os cenários (saiba mais).

Chica também fez cinema — de "Assalto ao trem pagador" (1962), dirigido por Roberto Farias, a "A partilha" (2001) de Daniel Filho, passando por "Inocência" (1983), de Walter Lima Jr. — mas ficou famosa mesmo é na TV, onde o público se emociona com suas personagens fortes e sofridas desde 1969, quando estreou na novela "A cabana do pai Tomás". De lá pra cá foram mais de 50 personagens só em televisão, e por isso mesmo a data ganhou bela homenagem no programa "Videoshow", da Rede Globo, que catou no baú as cenas mais interessantes destes 50 anos de carreira da atriz.

 

Chica Xavier em Sinhá Moça
Com Lucélia Santos, protagonista da
"Sinhá Moça" de 1986

Quem não se lembra da sensível Bá da primeira versão de "Sinhá Moça" (1986), da Magé Bassã de "Tenda dos Milagres", da Inácia de "Renascer" ou da Rosália de "Força de um desejo"? Pois todas carregavam qualidades e sentimentos maravilhosos que só alguém tão grande atriz quanto ser humano é capaz de passar para o telespectador.

O programa de TV preferido da família nos últimos meses é a nova versão da novela "Sinhá Moça": embora desta vez Chica não esteja no elenco — a personagem Virgínia, ama-de-leite da protagonista que ela interpretou há 20 anos, ganhou a pele de Zezé Motta — , o patriarca Clementino Kelé faz bonito na pele de Pai Tobias, chefe do quilombo. Para o neto mais novo, Oranyan, de quatro anos, vem sendo uma experiência ótima: como Kelé estava afastado das novelas há tempos, só agora o menino tem a chance de admirar o trabalho televisivo do avô — que estreou na carreira um ano antes da mulher, na comédia musical "Cupido nas Furnas" (1955), dirigida pelo português Chianca de Garcia.

Depois disso, Kelé fez dezenas de trabalhos no cinema "O rei Pelé" (62), "Assalto ao trem pagador" (62), "A vida provisória" (68), "Anjos e demônios" (70), "O esquadrão da morte" (75), "A deusa negra" (78) e muitos mais na televisão, como as novelas "Água viva" (80), "Coração alado" (80), "Sétimo sentido"S (82), "Louco amor" (83), "Corpo a corpo" (84), "Pátria minha" (94), a série "Memorial de Maria Moura" (94) e participação no programa "Você decide" (2000), entre vários outros.

Uma baiana cheia de luz

Chica Xavier
A magrinha Chica no início da
carreira de atriz

Aquariana de 21 de janeiro, Chica Xavier nasceu em Salvador, nas Quintas da Barra, hoje Barra Avenida. Como contou numa entrevista à "Folha Universitária", ano passado, ela começou a trabalhar com apenas 14 anos, na Imprensa Oficial do Estado da Bahia, como aprendiz de encadernadora. Em 1953 mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital da República, começou a estudar teatro e, três anos mais tarde, teve a sorte de estrear nos palcos pelas mãos de Vinicius de Moraes. Mas ela confessa que só passou a se dedicar seriamente à carreira artística depois que se aposentou do Ministério da Educação, em 1975.

"Aos 45 anos, eu já estava me aposentando no serviço público, e aí pude pensar em exercer o papel de atriz", contou ela em 2005. "Eu me tornei atriz aqui no Rio de Janeiro, começando com o curso de teatro de estudante de Pascoal Carlos Magno, isso em final de ano de 1953. Fiz três anos de teatro, mas trabalhando como funcionária do Ministério da Educação. Dei a sorte de ter sido logo recebida nessa escola de teatro e comecei a trabalhar no Ministério da Educação porque o diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), o educador Anísio Teixeira, era meu padrinho. Foi a pessoa que me abriu as portas para tudo, e aí continuei minha luta, mas consciente de que não podia sobreviver como atriz".

Ao longo dos 50 anos de carreira, a maioria de seus papéis foi de escravas e empregadas domésticas, como acontece com a maior parte dos atores brasileiros negros. E Chica sempre soube dar uma dimensão fantástica a todos: Marlene, por exemplo, a serviçal de Alberico e Ester (Mário Lago e Lourdes Mayer) na novela "Dancin' Days" (1978), era um ser generoso, que entendia os problemas do patrão estróina e chegava a lhe emprestar dinheiro, enquanto Isolina, na minissérie "Um só coração" (2004), muito mais do que empregada, se tornou a confidente da protagonista Yolanda Penteado (Ana Paula Arósio).

Chica, porém, acha que falta mais respeito ao negro no Brasil. "Ainda está difícil, se fala de cotas como se fossem migalhas que dão aos negros, para poderem fazer um curso superior. Eu sou contra o sistema de cotas, eu acho que a gente devia ter oportunidades em termos de igualdades entre brancos e pretos, mas se os pretos não estão querendo se sentir pretos, se os negros estão se dizendo brancos, então merecem a cota. Eu não precisei de cota, nem meus filhos, nem meus netos", dispara.

Em 1999, Chica lançou um livro reunindo as cantigas e rezas que compôs, ao longo de 30 anos, para louvar seus santos de fé, e ganhou um emocionado prefácio do amigo e "filho do coração" Miguel Falabella (leia aqui). "Chica Xavier canta sua prosa" (Topbooks), inteiramente ilustrado por sua filha Izabela, a artista plástica bela d'Oxóssi (veja nota anterior), é composto de cânticos simples e bonitos, feitos para homenagear as almas, os pretos velhos, os caboclos, os exus, sua mãe Iansã, seu pai Omolu, e todas as entidades que povoam o universo religioso da autora — o universo sincrético de uma mãe-de-santo que é também irmã da católica Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, em Salvador e no Rio.  Esse livro, editado e revisado por mim, trazia ao final uma entrevista que fiz com Chica naquele ano de 1999 e que mostro agora aos leitores desta coluna para poderem conhecer melhor esta incrível atriz e pessoa humana, poderosa fonte de luz, capaz de espalhar energia positiva para todos à sua volta.

ENTREVISTA COM CHICA XAVIER: UMA ARTISTA E  SUA  RELIGIÃO”

Chica Xavier dispensa apresentações, sobretudo depois do prefácio de Miguel Falabella. Mas não custa lembrar que se trata de uma atriz que deixa sua marca — forte, vibrante, talentosa — em todos os papéis televisivos.  Da sensível Bá de Sinhá Moça à espiritualizada Rosália de Força de um desejo, da especialíssima Magé Bassã de Tenda dos milagres a personagens menores que sabe transformar em igualmente inesquecíveis — como aconteceu na minissérie As noivas de Copacabana, onde contracenava com o filho Falabella — é sempre com estilo próprio que ela assina cada trabalho, ganhando mais fãs dia a dia.

Chica fez cinema (Assalto ao trem pagador) e teatro (Orfeu da Conceição, Memórias de um sargento de milícias), mas é na TV — onde entrou pelas mãos de Fábio Sabag — que vem brindando o público com qualidades artísticas que o tempo só faz aprimorar. Em recente entrevista a um jornal carioca, explicou por que não incentivou os três filhos a seguir a carreira: É uma profissão muito difícil para o negro. Os personagens são poucos, ou se é escravo ou doméstica. Mesmo a Dinda de Cara ou Coroa, embora mais instruída, não passava de uma governanta de luxo. Mas reconheceu, também, que esse quadro começa a melhorar, o que a deixa mais otimista quanto ao futuro: Em Força de um desejo há vários e ótimos atores negros. Meus netos já estão tendo aulas de teatro, contou a avó-coruja.

Nesta entrevista, Chica revela um pouco de sua infância, das influências religiosas que teve ao longo da vida e de como se transformou numa compositora de cânticos, rezas e louvações. E mostra também que é movida pelo amor — a Deus, aos santos e orixás, à família, aos filhos espirituais, aos amigos, à humanidade e a todas as forças da natureza.
           
Quando criança, você morou numa vila onde ouvia as mulheres cantando pontos de candomblé, alguns deles em nagô.  É possível que isso a tenha influenciado, levando-a a fazer versos, cantigas de roda e depois louvações e hinos religiosos?

Eu diria que a menina Francisquinha, hoje Chica Xavier, vivia embalada por diversos cânticos naquela vila.  Não só cantigas de candomblé, nagô, caboclos, como, também benditos católicos do mês de Maria, trezenas de Santo Antônio e cantigas de roda onde já tirava versos de improviso, sem nenhuma pretensão, só de brincadeira.  As cantigas de candomblé de caboclo na Bahia têm muito a ver com as cantigas de umbanda do Rio de Janeiro. É possível que a minha facilidade para criar cantigas de umbanda venha dos rituais domésticos da linha de caboclos praticados na própria vila Rocinha da Piedade, em festas de Cosme e Damião, caruru de Santa Bárbara, e ouvindo as lavadeiras cantarem enquanto estendiam roupas nos varais ao sol.

Sua mãe, quando estava grávida, escolheu ter a filha na Roça da Sabina, terreiro de candomblé de uma famosa mãe-de-santo, em Salvador. No entanto, você diz que, quando "bolou" no santo, aos 11 anos, a ekede Lourdes, que a levara ao centro, ficou preocupada porque sabia que sua mãe entendia pouco de candomblé. Como era a relação de sua mãe com a religião? Ela gostava do candomblé ou preferia que você seguisse o catolicismo?

Eu nasci na Roça da Sabina porque foi o lugar que uma amiga de minha mãe arranjou para ela morar quando descobriu que estava grávida e queria se isolar do mundo em que tinha vivido até então.  Coincidência ter sido uma roça de candomblé? Talvez. Minha mãe já sabia que era médium vidente mas nunca desenvolvera sua mediunidade. De candomblé ela pouco entendia, era católica, rezava muito e pouco ia à igreja por falta de tempo, mas acreditava no espiritismo. Quando soube que eu havia "bolado", não se surpreendeu, achou que era a vontade de Deus.

Magé Bassã, sua maravilhosa personagem na minissérie televisiva "Tenda dos Milagres", era uma mãe-de-santo que lutava pela liberdade de culto numa época em que a polícia invadia terreiros e quebrava imagens. Quando jovem, você presenciou algum tipo de intransigência religiosa?

— "Tenda dos Milagres" contava as perseguições da polícia aos candomblés na Bahia, e tive orgulho de interpretar uma personagem que lutou tanto pela liberdade de culto.  Mas eu só tomei conhecimento desse tipo de coisa através da literatura e de ouvir contar pelos mais velhos.

Na sua estréia como atriz, em 1956, em "Orfeu da Conceição", de Vinicius de Moraes, no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sua personagem dançava ao som de atabaques. De que modo sua vivência no candomblé e na umbanda ajuda na composição das personagens?

— "Orfeu da Conceição" era uma tragédia grega adaptada para os morros cariocas pelo  Vinicius.  Minha personagem, Dama Negra, simbolizava a Morte e se apresentava declamando versos do poeta e dançando ao som de atabaques, sem nenhuma coreografia especial. Acho que esse ritmo toma conta do meu corpo sem pedir licença desde a minha infância, antes mesmo de eu ter assistido a qualquer ritual afro.  Até os meus oito anos, eu vivia mais com minha madrinha, branca, católica praticante, que tinha pavor de candomblé — a tal ponto que, certa vez, eu estava brincando na porta de casa, na Gamboa  (Salvador), e o rádio do vizinho, Seu Fraterno, único aparelho de rádio da vizinhança, estava tocando uma música popular cuja letra era assim: Caboclo do mato / Pra que come folha?/ Dim...dim...dim.../ Aruanda. Francisquinha largou os brinquedos e começou a dançar como se estivesse incorporada.  Minha madrinha, dona Zezé, ficou desesperada e me fez parar, dizendo: Meu Deus! Se eu hei de ver essa menina vestida de mãe-de-santo, dançando num candomblé, prefiro vê-la morta, estirada num caixão!. Pois é, o ritmo nasce com a gente...

O que é ser irmã do Rosário? Como funciona essa irmandade baiana? É uma entidade católica que congrega também gente de umbanda e candomblé?

— Eu sou católica, espírita, candomblecista e umbandista. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito foi criada por meus ancestrais escravos, no século XVIII, sob orientação dos senhores, e mantida até hoje pela união de afrodescendentes.  Ser convidada a ingressar na Irmandade foi um dos momentos mais importantes da minha vida, pois ela está inteiramente de acordo com meu comportamento religioso. Ou seja, o único grupo sócio-religioso a que estou vinculada é a Irmandade a de Salvador, Bahia, e mais recentemente a do Rio de Janeiro. Como vê, eu sou uma pessoa sincrética. 

Você gosta muito de rio e fez um cântico para o rio Jucuruçu, que corta a cidade do Prado, no sul da Bahia, onde você construiu uma casa de veraneio. O rio Jucuruçu ganhou uma louvação, e a árvore umbaúba também. Plantas, folhas, rios, cachoeiras como é que essas forças da natureza interferem na sua natureza religiosa?

— Eu tenho paixão pelas águas dos rios, eles são sempre fonte de inspiração para mim.  Adorei a cidade do Prado pela beleza de suas praias e, principalmente, por causa do rio Jucuruçu e do carinho do povo de lá. A cantiga que fiz louvando este rio foi inspirada na magia do encontro de suas águas com as do mar, na barra do rio Jucuruçu.  Umbaúba, jurema, dendezeiro, mandacaru, rios, cachoeiras, ventos, raios, trovões e, sobretudo, as águas do mar são elementos da natureza que fazem parte do meu universo religioso.

 Se Iansã é sua mãe, quem é seu pai no candomblé e na umbanda?

— Graças a Deus eu tenho mãe e pai! Acho até que possuo mais características de meu pai, o velho Omolu, orixá da peste, da morte e do renascimento, médico do espaço, filho de Nanã, criado por Iemanjá, que o curou da varíola com flores e mel na folha da bananeira, escondido na loca de pedra. Tenho adoração por Omolu, por sua humildade, por encontrar no sofrimento o poder da cura. Tive ferimentos pelo corpo que me deixaram marcas, como sinais de lazarenta.  A umbanda considera Omolu o orixá do cemitério, seu dia de devoção é a Segunda-feira (dia das almas também), bem de acordo com o sincretismo com São Lázaro. Atô... tô... meu Pai! 

Suas cantigas, rezas e louvações são feitas na lei da umbanda. Quais são as diferenças entre candomblé e umbanda?

— Falar de umbanda e candomblé, pra mim, é como fazer uma pesquisa de minha vida. Candomblé é a minha raiz, que eu respeito, preservo, embora não conheça profundamente como gostaria. A minha umbanda é a junção de todas as correntes de fé de que eu necessito pra minha sobrevivência: o catolicismo é a religião em que fui criada adorando os santos e rezas, acompanhando sua liturgia, pedindo graças e perdão pelas faltas cometidas; e eu me coloco a serviço dos orixás que regem minha vida e de todas as entidades espirituais que trabalham na prestação de caridade.  Nessa linha de fé em que venho me conduzindo Chica Xavier
O casal em dois tempos:
a 7 de julho de 1956 e
50 anos depois
eu  me sinto em condições de divulgar o meu trabalho de devoção e de agradecimento com meus versos e minha prosa.  No meu culto às almas, faz parte mandar celebrar missa por elas. E não cultuamos só as almas dos cativos, mas também, com preces e missas, as almas de irmãos e amigos que já nos deixaram. E sempre, no início dos trabalhos, rezamos para os santos católicos que nos orientam e nos iluminam. Tudo isso, pra mim, é minha umbanda.

Você é mãe superprotetora, uma matriarca sempre preocupada com marido, filhos e netos, parentes, amigos e agregados. Compor versos para os filhos também faz parte da Chica poeta e compositora?

— Eu sou apenas mãe de muitos filhos, três de sangue e amor e outros só de amor, além dos netos muito queridos e dos muitos irmãos de fé que formam a minha grande família — minha única riqueza. Eu criei meus filhos sempre escrevendo versinhos pra eles, e eles escrevendo de volta também.  Sempre declaramos amor uns aos outros — eu, Kelé, Christina, Izabela, Clementino Jr., e depois os netos, Ernesto e Luana [o mais novo, Oranyan, filho de Izabela, tem apenas quatro anos e não era nascido na época desta entrevista]. O amor é nosso axé!

 

 



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