| Prefácio de Miguel
Falabella ao livro de Chica Xavier
Houve um dia, já lá se
vão mais de 15 anos, em que Oxalá, olhando
para as vastidões do cosmo, resolveu que precisava
de reforços nas falanges celestes. Daí
que recrutou, entre outras almas boas, aquela de minha
mãe, que vivia cá na terra, feliz entre
os seus. Mamãe se foi e, uma vez lá chegando,
pediu a Ele que olhasse por nós, principalmente
por mim, que andava, segundo ela, meio no descaminho,
com sonhos de artista de teatro. Oxalá chamou-a
num canto e deu-lhe uma reprimenda e desde quando ser
artista de teatro era coisa que não prestasse?
Mas, vendo a aflição da filha, sossegou:
— Eu tenho um anjo que mora lá
na terra, faz uns serviços pra mim, de vez em
quando. Fica tranqüila e trabalha em paz que teu
filho será cuidado.
Foi assim que Chica Xavier entrou na
minha vida, e meu coração sorriu, de pura
felicidade, desde o primeiro encontro.
Poucas vezes conheci um ser humano
com tamanha capacidade de dar e gerar amor à
sua volta, como quem vai por aí, ofertando flores
àqueles que sofrem. Já nos encontramos
várias vezes, na ficção, e suas
personagens acabam se rendendo ao amor que emana dela
como perfume, de modo que mesmo uma vilã contumaz,
interpretada por ela, trará no olhar a marca
do amor doído. Pois, como se isso já não
bastasse, eis que se descobre, logo cedo, no convívio,
que dessa mulher jorra a fonte da fé a fé
das grandes almas, ancestrais e misteriosas, como as
folhas do dendezeiro que ela me deu e que olha orgulhoso
para o céu da cidade, abençoado por meu
pai Oxóssi.
Chica faz parte de uma falange muito
especial: o povo que conhece os raios, as areias do
deserto, o vento livre do céu aberto, a linguagem
das plantas e suas preces curativas. Chica é
amor e o amor transborda dela através do seu
credo, que ela divide com a generosidade das almas que
receberam o sagrado dom da esperança. E, como
ela mesma afirma, em seu depoimento, que amor é
religião e vice-versa, ela toda é uma
afirmação do mistério, uma chama
que arde calma, atraindo para seu halo as mariposas
que amam e buscam a luz.
Agora ela nos presenteia com suas histórias
e suas cantigas, seus pontos de louvação,
palavras que ela foi colhendo aqui e ali, com sabedoria.
Junto à cantoria, dando corpo e cor aos orixás,
os desenhos de minha irmã, Bela d'Oxóssi.
As cantigas são simples, de
uma poesia cotidiana, porque Chica é mulher e
mãe e feminino, e refoga seus encantos no caldeirão
de boa fada. Suas mãos colhem palavras, assim
como preparam a moqueca de ovos que seu filho tanto
gosta. Tudo é mágico e tudo é um
só pulsar de corações. As cantigas
vão desfilando e a música se forma em
algum lugar da mente, a música dos astros e sortilégios,
a melodia emplumada que pousa leve na alma.
Viajar através das cantigas
de Chica é fazer um caminho de volta, é
buscar a fé de nossas raízes, mergulhar
de coração aberto no cadinho cultural
dessa nação. É puro encanto. Esse
filho de Oxóssi, agradecido e sempre admirado,
vem beijar as mãos desta filha de Iansã,
sua mãe das estrelas, a borboleta de ouro que
voa no meio dos raios.
Eparrei, Iansã! Okê! Okê
arô, meu pai Oxóssi! Com a benção
de nosso pai Oxalá!
Seu filho Miguel Falabella
em 20 de setembro de 1999
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