"Eu tinha um igualzinho!"

Feira da Praça XVA frase acima é a que a gente mais escuta ao passar entre as barracas da deliciosa feira que se espalha por toda a área sob o viaduto da Praça 15. E sempre é dita em voz alta e acalorada por um ser humano acima dos 40 anos que, invariavelmente, tem o dedo apontado para um brinquedo movido a corda, ou uma coleção de garrafinhas de Coca-Cola com rótulos do mundo inteiro, outras vezes uma miniatura em borracha colorida do Mickey, Pato Donald e turma, ou ainda um álbum de figurinhas do filme "El Cid".

Estão lá todas as bonecas dos anos 60 e 70, de Amiguinha a Beijoca e Suzy, assim como broches, pulseiras, brincos, colares e anéis que nossas avós usavam no início do século 20, e as máquinas de costura onde nossas mães e tias confeccionavam as fantasias de escrava, índio, cigana ou pirata para os carnavais de nossa adolescência.  Aliás, até as fantasias podem ser achadas por lá: são muitas as barracas que vendem roupas usadas — exóticas, na maioria. Pulseiras de galalite, multicoloridas, fazem a alegria de colecionadores (que não são poucos), assim como selos, medalhas de bronze e prata, moedas antigas e notas de dinheiro dos mais longínquos e menos conhecidos países do mundo encantam por seu design.

Feira da Praça XVA Feira da Praça 15, ou Feira do Troca, existe há nove anos, e me incluo entre seus freqüentadores assíduos. É bem verdade que fujo ao padrão "fã-de-carteirinha", aquele que chega às 6h da manhã para arrematar as peças mais raras e valiosas. Prefiro sair de casa, no Flamengo, com meu marido, após o café da manhã, caminhar pelas sendas do Parque ajardinado por Burle Marx até o Museu de Arte Moderna, atravessar pela passarela de pedestres, seguir a Avenida Antonio Carlos até o Paço Imperial, e dali desembocar diante de uma de minhas barracas favoritas: a que vende anúncios publicitários — sobretudo de automóveis — recortados de revistas antigas, entre elas as Seleções de Reader's Digest.

Nessa barraca comprei folhas de papel que merecem moldura e vidro anti-reflexo. Uma delas traz lindo anúncio de um dos primeiros carros de meu pai, de que me recordo com a maior ternura: o DKW-Vemag; outra mostra um Gordini, o carro onde aprendi a dirigir; e numa terceira está a publicidade do Rural Willys velho-de-guerra em que, durante 11 anos, sacolejei em missões urgentíssimas como repórter do "Jornal do Brasil". Com um detalhe: atrás da página há um anúncio espetacular do cigarro Minister, exatamente a marca que eu fumava naquele tempo.

Feira da Praça XVO Crush, refrigerante que eu adorava na adolescência, está lá também, assim como o Biotônico Fontoura, além de um anúncio de escova de dentes que hoje seria rejeitado por todas as agências de publicidade como "politicamente incorreto" (veja ao lado). Hebe Camargo aparece divulgando produtos da marca Trol, assim como Ronald Golias, encarnando o Bronco (Carlo Bronco Dinossauro), faz propaganda das sandálias Havaianas em contraponto com seu cunhado, o italiano Pepino Trapo, personagem de Otelo Zeloni na "Família Trapo", programa humorístico da antiga TV Record (veja alguns anúncios).

Dali costumo sair garimpando curiosidades. Bronze é algo de que tanto eu quanto meu marido gostamos muito, e já conseguimos algumas peças fantásticas, verdadeiras pechinchas, como um javali do início do século 20, de fundição austríaca, tão perfeito no desenho de seus músculos que parece estar respirando; um pavão de fins do século 19, ótimo exemplo de fundição francesa;  um buda indiano, deitado de lado, na posição em que desencarnou; um casal nu, africano, símbolo de fertilidade; e um guerreiro armado de facão, em posição de ataque, do Senegal.

Feira da Praça XVDescolamos também muitas medalhas de bronze lindíssimas, três delas com mensagens religiosas cunhadas no Estado de Israel, e outras com efígies de Camões (fundição portuguesa, dentre as melhores do mundo), Dante (italiana), Grotius (holandesa), Carlos V (espanhola), Napoleão e André Malraux (francesas). Em maio, arrematei por apenas cinco reais uma medalha de bronze alemã que traz, esculpido por artista de primeiro time, um atleta nu, de braços abertos, pulando, e no verso a informação de que tal medalha premiou o primeiro colocado numa competição de salto à distância, ocorrida em 2 de setembro de 1928 há 80 anos!!!

Outras peças continuam me comovendo mesmo após tantos anos de adquiridas, como é o caso de uma faquinha de madrepérola de Jerusalém (cinco reais) e um terço oriental antigo, conhecido como masbaha (pronuncia-se masbarrá / saiba mais), todo em prata, por apenas 15 reais. Também adoro uma peça redonda de metal, do tamanho de uma moeda de cinco centavos, com quatro furos retangulares ao centro, usada há muitos anos como ticket de bonde, que tem as seguintes inscrições: de um lado, "uma passagem bondes" e do outro "Cia. Carris Porto Alegrense". Essa me custou 12 reais.

Feira da Praça XVJá no chamado "Shopping-Chão", a parte inicial da feira, em frente ao restaurante Albamar — em que não há barracas, e cerca de 500 vendedores espalham seus objetos sobre panos ou esteiras, donde serem  chamados pelos outros de "grupo dos sem-terra" — comprei por apenas 10 reais uma taça de vinho de cristal, com o pé em prata no qual esculpiram um homem e uma mulher nus, de costas um para o outro, com os braços erguidos, como a sustentar o bojo. E mais: em cima, vemos a figura de um homenzinho, também em prata, que está escalando o vidro e tem as mãos agarradas à borda do copo — simplesmente divino!

Há duas barracas com brinquedos antigos que são uma perdição, e delas eu fujo, até porque ali tudo é mais caro. São caixinhas de música, bichinhos movidos a corda, casa de bonecas, carrinhos antiqüíssimos, a maioria importados, pois de uma época em que a indústria brasileira de brinquedos era incipiente daí os preços mais salgados.  Um amigo francês arrematou dois telefones incríveis, um deles de manivela, do tempo em que se pedia à telefonista para fazer a ligação, e os levou para Paris. As luminárias e os ventiladores em estilo retrô também fazem o maior sucesso.

Feira da Praça XVNa minha última incursão, dia 10 de julho, encontrei exemplares antigos da revista "O Cruzeiro", muito bem conservados (10 reais a unidade, dois exemplares por 15 reais). O vendedor revelou que a maioria dos clientes interessados na revista é fã do "Amigo da Onça", charge desenhada pelo pernambucano Péricles: "Eles compram a revista por 10 reais, depois vendem o "Amigo da Onça" a 25 reais na internet", contou. O curioso é que, ao chegar em casa e folhear um exemplar de novembro de 1958, descobri um "Amigo da Onça" divertidíssimo, e totalmente conectado a este texto, onde o personagem principal da historinha diz para um outro, desesperado, que vendeu todos os exemplares antigos de "O Cruzeiro" que o pobre guardava numa gaveta.

As bijuterias antigas são um caso à parte: há broches, brincos, anéis, colares e pulseiras belíssimos, em todos os tipos de material, nos mais diversos preços, e não é à toa que as figurinistas de teatro, cinema e TV vivem por lá garimpando peças antigas para produções de época, juntamente com chapéus, guarda-chuvas, polainas, botas. Tem gente que corre atrás de objetos exóticos para enfeitar vitrines, como é o caso de Ana Landim e Rui Campos, donos da Livraria da Travessa, que ali descolaram grande parte da decoração de sua rede, e do arquiteto Bob Neri, responsável pelos projetos da livraria e da grife de roupas Richards. Bob contou ao "Jornal do Brasil" que, com a decisão do proprietário da Richards de iniciar uma linha para mulheres, ele passou a procurar também por máquinas de costura, rolos de esticar massa de pastel, e outras curiosidades femininas dos velhos tempos. Feira da Praça XV

Quem não se atreve a encarar o burburinho da Feira do Troca na Praça 15 pode experimentar as barracas de antiguidades do Shopping Cassino Atlântico, que funciona igualmente aos sábados, ou a feira da Praça Santos Dumont, na Gávea, aos domingos. Nesta última, podem ser encontrados não só alguns vendedores do Shopping Cassino Atlântico, com suas peças mais sofisticadas e caras, como também muitos barraqueiros da Feira da Praça 15, que vendem as mesmas mercadorias a preços mais altos, de acordo com o bolso do público da Zona Sul.



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