| Como era gostoso o
meu bairro

Igreja N.S. do Perpétuo
Socorro
Sempre que morre um membro da Academia
Brasileira de Letras, seus pares o homenageiam, poucos
dias depois, numa cerimônia chamada Sessão
da Saudade, onde relembram seus feitos e suas qualidades.
Inspirada nisso, lanço aqui a Seção
— com Ç mesmo — da Saudade,
cujo objetivo é reeditar, com uma introdução
contextualizante, algumas das reportagens feitas entre
1973 e 1998 em vários jornais e revistas, como
Jornal do Brasil, ISTOÉ e O
Dia, entre outros.
"Flashback! Saudade não
tem idade", já dizia um antigo programa
de rádio. E confesso que é pra matar a
saudade dos bons velhos tempos que inauguro esta seção
com "História do Grajaú são
50 anos de lirismo", publicada em 11 de novembro
de 1973, um domingo, na página 28 do caderno
Cidade do JB. Porque foi no Grajaú que experimentei
as maiores emoções e descobertas da vida,
tanto as boas quanto as ruins, e para mim o bairro ficará
sempre entronizado num nicho especial da "parede
da memória", como canta Belchior.
Nascida e criada, na primeira infância,
entre uma casa pequena em Vila Isabel e um casarão
tombado pelo Patrimônio Histórico em Paquetá,
ambos pertencentes a meu avô paterno, aos sete
anos recebi de meus pais o melhor presente do mundo:
minha festa de aniversário aconteceu na casa
nova do Grajaú, nossa primeira casa própria,
que eles levaram cinco anos construindo — lentamente,
com grandes dificuldades, à medida que iam injetando
na obra o dinheiro das férias e do 13º salário.
A mudança se fez alguns dias antes, e já
em 18 de dezembro a família recebia amigos e
parentes para a dupla comemoração.
Uma semana depois era Natal, outra
semana mais tarde veio o Ano-Novo, e ainda me lembro
desses dias como entre os melhores de toda a minha vida:
estava de férias, era verão, e o tempo
se gastava em brincadeiras, com minha irmã três
anos mais nova, entre a piscina e o grande tabuleiro
de areia de Copacabana. Cumé quié?
Isso mesmo: pra agradar minha mãe, cujo sonho
era morar junto à praia, papai, um radical defensor
da idéia de que a Zona Sul era um antro de perdição,
mandou trazer uma enorme quantidade de areia e fez construir
na nova casa um tabuleiro retangular, em alvenaria e
com acabamento em pedra, onde brincávamos com
baldes, pás e forminhas em meio a conchas e caramujos
copacabanenses. Mantinha-se assim a paz familiar, no
bairro que ele julgava — entre outros motivos,
por sua localização na Zona Norte —
saber preservar a moral e os bons costumes.

Praça Nobel com o Pico
do Papagaio ao fundo
Era realmente lindo aquele lugar, na
parte mais alta de uma ladeira enorme, a Comendador
Martinelli, onde então só havia meia dúzia
de casas. Não tínhamos vizinhos: do lado
esquerdo e do lado direito era tudo terreno baldio,
com muitos pés de amora silvestre; atrás
nos cercava a abundante vegetação do morro
e a antiga Pedra do Andaraí, já então
rebatizada de Pico do Papagaio; e à frente enxergávamos
a cidade inteira, até muito além do relógio
da Central, pois o Grajaú era povoado de casas
com dois ou três andares, e da varanda se podia
descortinar a vista mais ampla — e mais bonita
— do mundo.
A casa fora construída sobre
uma pedreira, e por isso tinha vários níveis,
todos eles pontuados por jardins maravilhosos. O primeiro
lance de escadas levava a um terraço ao ar livre,
sobre a garagem, onde ficava o tabuleiro de areia, e
o segundo terminava numa ponte de pedra que passava
sobre a piscina e nos introduzia a uma imensa varanda;
junto a uma das paredes, em que um grande painel pintado
por artista plástico retratava três dançarinos
de frevo, um bar preto de pés palito, com três
banquinhos altos, mantinha garrafas de bebidas de todo
tipo; espalhados pelo amplo espaço estavam mais
oito cadeiras e um balanço de ferro com almofadões,
além de duas redes nordestinas. Estas ficavam
penduradas em ganchos nos pilotis centrais, em forma
de V, que sustentavam o andar superior, ao qual se podia
chegar por duas escadas: uma social, por dentro da varanda,
levando direto à sala principal, e outra de serviço,
a céu aberto, que desembocava na cozinha e na
área dos fundos, onde havia ainda quarto e banheiro
de empregada, casinha de cachorro e, num andar acima,
após um lance comprido de escadas que escalavam
a pedreira úmida, a lavanderia.
Era um parque de diversões aquela
casa! O quarto que eu dividia com minha irmã
tinha uma parede inteira pintada com uma cena do livro
"Ric-Roc, o ratinho sonhador" — na qual
o personagem, cercado por vários outros bichos,
subia por uma escadinha rumo à chaminé
de uma casa para tentar alcançar a lua, que julgava
ser um queijo. Noutro painel, na sala de jantar, mamãe
mandara pintar uma cena noturna de rua em Paris, e o
poste que o artista desenhara na calçada era
encimado por uma luminária antiga de verdade,
que acendia a cena e nossa imaginação.
O banheiro principal, em preto e branco,
tinha uma porta deslizante em vidro fosco com dupla
função: puxava-se para um lado e ela fechava
a parte onde estavam a privada e o bidê; na hora
de tomar banho, puxava-se para o outro e ela fechava
o box. A banheira era coberta por tampo de madeira leve,
estofado, transformando-se num sofá cheio de
almofadas, e no fundo negro, por trás das torneiras,
havia uma estátua branca em gesso de uma mulher
desnuda, uma Vênus de inspiração
botticelliana.
Na parede que separava a sala de jantar
da cozinha havia um painel móvel, de madeira,
que chamávamos de passa-pratos porque tinha exatamente
essa função: fazer passar as tigelas,
talheres e louças de um lado pro outro sem precisar
abrir a porta. Uma outra sala, toda branca, com piso
de mármore e grande sofá branco, tinha
uma porta de correr de vidro que dava para um jardim
de inverno, cheio de vasos de plantas, e em cujo parapeito,
formado por cobogós, a gente se apoiava pra olhar
quem estava tocando a campainha lá embaixo. A
sala ao lado, com o dobro do tamanho, exibia estantes
de livros do chão até o teto, aparelho
de som e televisor, dois sofás grandes e várias
poltronas, e era a mais confortável, com seu
janelão de vidro onde passávamos horas
de binóculo, perscrutando a mais clara, ampla
e despoluída vista do Rio de Janeiro.
O ano de 1973 foi o último que
passei morando nessa casa. Eu estudava jornalismo na
PUC, na Gávea, tinha feito um estágio
de cinco meses no hoje extinto "Diário de
Notícias" e em agosto fora chamada para
estagiar no "Jornal do Brasil", onde assinaram
minha carteira de trabalho em novembro. Significa dizer
que esta reportagem sobre o Grajaú, publicada
em 11 de novembro daquele ano, foi a primeira que eu
assinei depois de efetivada no cargo de repórter
nível "E", o mais baixo de uma série
que mais tarde me levaria a repórter "A",
repórter especial e editora. Eu começava
a ganhar um salário bom, que me permitia morar
sozinha na Zona Sul, mais perto da faculdade, onde ainda
tinha um ano inteiro de estudos pela frente, e agora,
analisando com distanciamento brechtiano, sinto que
já estava firmemente decidida a abandonar o Grajaú
quando fui fazer a reportagem sobre os 50 anos do bairro.

Fotógrafo: Alberto Jacob
Data: 08.11.73
Reler, hoje, esse texto me comove
não só pela paixão que deixo transparecer
em cada parágrafo, mas pela sensação
de que eu estava, ali, me despedindo de muita coisa:
não apenas do bairro onde vivera os 15 anos mais
importantes da vida de qualquer ser humano — dos
sete aos 22 — como também de muitos amigos,
dos meus cachorros e gatos, da vida em família,
com minha mãe, pai, irmã, avó,
e até da ex-babá, que fora pra lá
quando eu era criança e continuara trabalhando
e morando na casa. O fotógrafo que me acompanhou
no trabalho foi meu querido amigo Alberto Jacob. Numa
das duas fotos que ilustram a reportagem (a maior, bem
no alto da página de jornal, que você pode
ver ao lado), aparece um cavalo preso a uma charrete,
com três garotos, exatamente à porta da
minha casa, no número 560 da rua Comendador Martinelli.
E, encostadas ao janelão de vidro da sala principal,
estão minha antiga babá, a paraibana Lúcia
(de quem me tornei comadre, pois sou madrinha da filha
dela), e minha avó materna, a portuguesa Armanda,
ambas já falecidas.
Na reportagem feita há mais
de 30 anos, que você pode ler clicando
aqui, a ênfase está na tranqüilidade
do bairro, no bucolismo das ruas, no comportamento romântico
de seus moradores. É claro que isso não
existe mais: há poucos anos voltei lá
com duas amigas de infância, criadas na mesma
rua, e o que vimos foi trânsito nervoso, muito
barulho, menos casas e mais edifícios, menos
árvores e mais violência, como vem acontecendo
em todos os lugares do mundo. Depois de dois assaltos,
meus pais se mudaram, em meados dos anos 80, para um
apartamento na Tijuca (hoje, aliás, cenário
de tiroteios), e nossa querida casa, típico exemplar
da arquitetura americana dos anos 50 copiado por minha
mãe da revista House & Garden, foi
totalmente descaracterizada pelos novos proprietários,
que fecharam a varanda dos pilotis por questões
de segurança. Mas também foi bom ver que
a área florestal no entorno do Pico do Papagaio
(que se eleva a 444 metros acima do nível do
mar), atrás de nossa casa, onde eu costumava
brincar de Jim das Selvas nos fins de semana com meu
pai, mãe e irmã, se transformou no Parque
Estadual do Grajaú, uma reserva ambiental de
55 hectares que desde 1978 abriga e protege várias
espécies nativas, entre elas o mico-estrela e
o gavião-caçador. Este ano (2006) a administração
do parque retornou para a esfera do governo do estado,
através do Instituto Estadual de Florestas, que
ali desenvolve um projeto de revitalização.
Ou seja, várias coisas mudaram, algumas pra melhor,
muitas pra pior, mas no fundo do baú da memória,
no cantinho afetivo do cérebro, nos neurônios
que guardam os megabytes emocionais, o Grajaú
continua lindo, perfeito, imutável.
Recentemente, pesquisando meu próprio
nome no Google, descobri que esta velha reportagem está
citada numa tese sobre o bairro, intitulada "Grajaú,
memória e história: fronteiras fluidas
e passagens", de Márcia Pereira Leite (UERJ,
2000). Se seu interesse pelo assunto for mais amplo,
sugiro que dê uma olhada no belo trabalho da professora,
que pode ser localizado pelo título nos sites
de pesquisa.
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