| História
do Grajaú são 50 anos de lirismo*
Foto de Cíntia Segadas
Av. Engenheiro Richard
Bairro silencioso e tranqüilo,
um dos poucos preservados da desmedida exploração
imobiliária e dos males da poluição,
o Grajaú chega aos seus 50 anos de existência.
Pouca coisa mudou nesse pedaço do Rio que mais
parece uma pequena cidade do interior: as ruas arborizadas,
as praças de flor e chafariz e as casas plantadas
no verde conseguiram manter intacta uma paisagem que
se supunha perdida nos anos 20.
Desde os tempos do velho Largo da Viúva
(atual Praça Verdun), o Grajaú tem sua
crônica marcada pelo lirismo. Foi pelo amor de
uma mulher muito mais jovem, e para satisfazer suas
vaidades, que um rico fazendeiro, em 1923, vendeu toda
a sua propriedade ao engenheiro Eugênio Richard,
que a loteou e transformou em área residencial,
como é por amor que, ainda hoje, as pracinhas
se enchem à noite e as janelas de madeira acompanham,
apreensivas, os últimos resquícios do
namoro de portão.
Uma história controvertida
Ainda menino, o Sr. Lourival Vargas
foi morar na fazenda de Antônio Grande, limitada
pelas atuais ruas Ferreira Pontes e Borda do Mato.
— Ainda me lembro perfeitamente,
eu menino de oito anos, em cima de uma carroça,
ajudando a recolher as vítimas da gripe espanhola.
Nessa época, o Grajaú, conhecido por Andaraí
Grande e Andaraí Pequeno, era formado por duas
fazendas — a de Antônio Grande e a dos Cardosos
— onde se realizaram as maiores festas que já
vi até hoje, com pastorinhas que subiam a rua
Borda do Mato carregando lanternas e fogos de artifício.
Foto: Rafael Moraes
Pico do Papagaio
Até 1917, o gado pastava livre
pelas terras das fazendas, que depois passaram a ser
utilizadas para o plantio de capim, vendido ao Exército,
à Polícia Militar e a estábulos
particulares, naquele tempo muito numerosos. A rua Borda
do Mato, que começava no Largo da Viúva,
onde uma viúva — "muito disputada
pela rapaziada do local" — tinha casas comerciais,
era o limite entre o capinzal, a floresta e o caminho
que conduzia às duas caixas d'água que
abasteciam o bairro.
Em 1923, a fazenda dos Cardosos foi
comprada pela Companhia Brasileira de Imóveis
e Construções, que a loteou e transformou
em área residencial. Engenheiro, arquiteto e
paisagista, Eugênio Richard era brasileiro, filho
de pai francês, de quem herdou o idealismo e a
determinação que lhe possibilitaram fazer
do Grajaú um recanto à parte na cidade
em explosão. Selecionando os compradores e não
permitindo a instalação de casas de comércio
ou de cômodos, ele criou um bairro que tinha na
inabalável tranqüilidade da Pedra do Andaraí
— hoje conhecida como Pico do Papagaio —
o seu símbolo.
A todas as ruas deu nomes indígenas.
Numa delas — a rua Grajaú — a linha
de ônibus Monroe-Grajaú fazia ponto final.
Foi também lá que, em 1925, pela apreensão
dos pais, que não queriam ver seus filhos muito
longe de casa, e o entusiasmo dos jovens pelas peladas
se fundou a primeira sede do Grajaú Tênis
Clube, "assim chamado porque na época o
tênis era coisa de elite". E pelo nome da
rua, do clube e do ônibus o bairro passou a ser
conhecido.
Hoje, são muitas as controvérsias
sobre o verdadeiro nascimento do Grajaú. Uns
afirmam que a escritura de venda foi assinada em 1911
e custou à companhia 700 contos de réis.
Há quem tenha certeza de que até 1920
ainda existiam as duas fazendas, enquanto outros estão
convencidos de que muito antes já havia casas
no local. O certo mesmo é que o Grajaú
está completando 50 anos de "estrutura de
bairro", independente do Andaraí e Vila
Isabel. E continua a preservar muitas características
de fazenda do interior brasileiro.
As primeiras residências foram
feitas pelo construtor italiano Francisco Tricárico,
que ainda bem jovem chegou ao Brasil, em busca de seu
pai, e acabou ficando. Em 1909, Tricárico ingressou
na Companhia Brasileira de Imóveis e Construções
e foi o responsável pela primeira planta de casa
para o bairro. Sua filha, D. Minuça, hoje morando
na rua Itabaiana, acredita que sua família foi
a primeira a habitar o bairro.
Foto: André Karam
Detalhe da Capela
— Em 1914, papai terminou nossa
casa, um solar em estilo veneziano, na esquina das ruas
Barão de Bom Retiro e Grajaú, onde hoje
existe a Casa do Pintor. Depois, em 1918, fiel a uma
promessa que fizera na Itália quando estudante,
construiu a capela de N. S. da Imaculada Conceição
no quintal da casa. Lá se realizaram as maiores
festas do bairro e na década de 20 ela foi o
ponto de reunião dos moradores.
Forçado pela difícil
situação financeira, em 1929, Tricárico,
dono de quase toda a rua Grajaú, vendeu todos
os seus bens — com exceção da capelinha,
mantida até hoje por sua filha, que a restaurou
em 1966 com a ajuda do Lions Clube. Desde a construção
da igreja matriz de N. S. do Perpétuo Socorro,
em 1931, ela funciona apenas em caráter particular
e só é aberta ao público no dia
8 de dezembro, quando se homenageia Nossa Senhora da
Conceição.
Por trás de velhos papéis
e fotografias, D. Minuça relembra os bons tempos
vividos pela família: as primeiras crianças
a fazerem primeira-comunhão na capelinha, o time
de futebol agrupado na pequena clareira que servia de
campo, o carro alemão de seu pai, um Brenabor,
comprado em 1916, que ela afirma ter sido o primeiro
a surgir no bairro. Hoje, sua vida se restringe a cuidar
da mãe, já bastante idosa, e da capelinha,
"que tem relíquias valiosíssimas,
inclusive um crucifixo com mais de 200 anos, doado pelo
fazendeiro".
Antigos moradores do Grajaú,
os srs. Alberto Melleu, Silvio Perrone e Lourival Vargas
fazem parte da diretoria do Grajaú Tênis
Clube, que no ano seguinte a sua fundação
mudou-se para a avenida Engenheiro Richard, antiga rua
Maquiné. Na última quinta-feira à
noite, eles organizaram na sede do clube uma mesa-redonda,
onde os moradores mais velhos relembraram, com saudades,
"um tempo em que se podia correr pelo mato, pegar
biquinho-de-lacre e dançar de verdade".
— Todos os domingos, antes da
domingueira-dançante do clube, íamos para
a Praça Edmundo Rego. Lá as moças
andavam para um lado e os rapazes para o outro, fazendo
com que a gente sempre se encontrasse de frente. Era
assim que escolhíamos, antecipadamente, nossos
pares. E muitos casamentos começaram daí.
Rua Araxá
Lourival Vargas assistiu a abertura
das primeiras ruas e a construção das
primeiras casas. Falando das festas da fazenda, "que
duravam três dias", ele recorda também
a epidemia de 1918 e a tromba-d'água de 1919,
"que inundou todo o bairro e deixou, inclusive,
sua marca no sopé do Pico do Papagaio".
Os três discutem um pouco sobre os moradores mais
antigos e comentam sobre Joaquim Gomes Sousa, o construtor
responsável pela grande maioria das casas.
— Ainda antes de 1930, Vicente
Celestino veio morar aqui, logo depois de seu casamento.
O pintor Helius Seelinger também residiu muitos
anos no bairro e Dorival Caymmi tentou alugar a casa
de meu pai, no que eu fui contra porque se tratava de
um "homem de rádio" — diz Perrone.
Para eles, a poesia do bairro nunca
vai acabar, pois faz parte de sua própria formação.
Mesmo assim, sentem saudades da vidinha pacata que se
tinha ali no tempo dos bondes e carroças, dos
beijos furtivos e dos grandes bailes, "onde as
moças eram interrogadas seriamente pelas mães
quando dançavam mais de uma vez com o mesmo rapaz".
Pelos idos de 1920, era comum ver-se
passar pela atual rua Borda do Mato as carroças
carregadas de capim. Hoje ainda, a charrete do seu Adail
carrega adubos e terra estrumada, que é vendida
"pra jardim de madame". Natural do estado
do Rio, Adail Meireles chegou ao Grajaú em 1939
e se estabeleceu, com sua mulher e três filhos,
num barraco que construiu na parte mais alta da rua
Comendador Martinelli. Atualmente, tem 28 cabeças
de gado, 15 cabras e cerca de 30 porcos, além
dos seis cavalos que utiliza em seu trabalho.
Praça Edmundo Rego
— Comecei a ganhar minha vida
aqui, alugando cavalos na Praça Edmundo Rego.
Naquela época eu tinha 17 anos, era forte, cheio
de esperanças, e me apaixonei por esse lugar,
onde as pessoas se gostam de verdade. Agora, tenho tido
alguns problemas com vizinhos, pois acham que não
posso continuar mantendo esta vida aqui. Eu não
quero briga com ninguém, mas também não
vou abandonar o meu mundo.
Quando Adail chegou ao local, tudo
era apenas mato lá em cima, e a rua que existe
hoje não passava de uma grande pedreira. Mas
o panorama privilegiado, de que só ele era dono,
agora pertence a muitos: o bairro cresceu, foi ao seu
encontro e se transformou em ameaça de extinção
da talvez única reminiscência do tempo
das fazendas no Rio de Janeiro.
As charretes continuam, porém, a passear com
as crianças que acompanham seus pais à
missa de domingo, como continuam os piqueniques nas
clareiras, os banhos de riacho e as escaladas do Pico
do Papagaio. O padeiro leva em casa o pão fresco
para o café e seu Zé, o baleiro, que há
mais de seis anos fez da pracinha o seu ponto, viu "essa
gente pequenininha, e agora já tá
tudo moça e rapaz".
Na longa escadaria da rua Engenheiro
Morsing, o namoro ainda se faz no portão, agora
um pouco menos por repressões familiares e mais
pela redescoberta de um lirismo que o progresso quase
sufocara de todo. Apesar do relativo abandono em que
se encontra, a Praça Nobel mantém o romance
sob seus lampiões quebrados, as crianças
continuam correndo na grama maltratada e o secular protesto
dos mais velhos ainda não consegue impedir seus
banhos rápidos no velho chafariz.
Foto: Rafael Moraes
Pôr-do-sol no Grajaú
Atualmente, são quatro as linhas
de ônibus que servem ao bairro e nenhuma delas
passa mais pela rua Grajaú, transformada em local
de peladas e ponto de encontro da geração-motocicleta.
Mas da antiga casa da fazenda, no final da rua Marianópolis,
restam vestígios das senzalas, inclusive com
as argolas onde os escravos eram presos e castigados.
Não se passeia mais ao redor das praças,
mulheres para um lado e homens para o outro, mas todos
se conhecem, como antigamente, e dão conselhos,
e se preocupam, e tomam conta do namoro "da filha
do Mário com o que foi noivo da Clarinha",
e pedem aos seus meninos para não correr muito
com a motocicleta. As moças já não
são interrogadas sobre seus parceiros de dança,
mas as mais novas ainda vão às festas
do clube acompanhadas das mães, que agora já
sabem fingir melhor que não estão vendo
nada.
Tanto na sede do Grajaú Country
Clube como na do Tênis, os bailes de orquestra
e casaca deram lugar ao som agitado de Big Boy, e as
piscinas já não se chocam mais com os
biquínis comprados em Ipanema. Os recantos mais
calmos, onde a urbanização ainda não
chegou, agora são pontos de encontro dos casais
motorizados; os cavalos se tornaram privilégio
do velho Adail e da Polícia Militar, que todas
as noites circula pelo bairro para manter uma paz até
então intocada. São 10 horas de uma noite
de sábado. De qualquer ponto do Grajaú
pode-se ouvir a música que toca na festa do clube,
porque não há buzinas soando nas ruas,
não há freadas em nenhuma esquina,
não há carros acelerando nos sinais. E
as pessoas que passam nas calçadas estão
pisando em folhas amarelas, caídas de amendoeiras.
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