| Canais, tulipas,
moinhos e a melhor pintura do mundo
Quinze
dias são o suficiente para se conhecer a fundo
a Holanda, país do tamanho do estado de Sergipe.
Da belíssima Amsterdã - que com menos
de 1 milhão de habitantes recebe 2 milhões
de turistas por ano - pode-se alcançar rapidamente
outras cidades encantadoras, como Haarlem, Leiden, Haia,
Delft, Roterdã e Utrecht, de carro, ônibus,
trem ou mesmo, para pequenos trajetos, a bicicleta,
meio de transporte preferido dos holandeses.
Voltei de lá absolutamente apaixonada
por tudo: os canais com suas lindas casas flutuantes,
bem cuidadas e floridas; os cafés charmosos -
na beira dos canais ou longe deles; as pontes antigas,
a arquitetura fantástica, os bondes confortáveis
e os melhores museus, onde se pode saborear a arte de
gênios como Rembrandt, Vermeer, Vincent van Gogh,
Frans Hals, Ruisdael, Jan Steen, Jan van Goyen, Gerard
ter Borch, e muitos outros tão bons quanto.
Como 2003 é o Ano Van Gogh -
que teria completado 150 anos no dia 30 de março
- vale a pena visitar a Holanda até dezembro:
o país preparou uma série de exposições
e homenagens ao grande artista, de que falei anteriormente
nesta coluna (veja nota Van Gogh
150). Mas se não der, tudo bem: o espetacular
Museu Van Gogh continuará no mesmo lugar, na
rua Paulus Potter (nome de outro importante pintor holandês),
com seu acervo de mais de 200 quadros, 500 desenhos
e 850 cartas (ilustradas) de Vincent para seu irmão
Theo, além de obras de amigos e outros artistas
do século XIX.
O
mesmo posso dizer do monumental Rijksmuseum, que abre
diariamente das 10h às 17h e só fecha
no dia 1º de janeiro. É tão grande
que fica impossível conhecer tudo numa só
visita (três seriam o ideal) e possui o maior
acervo de arte holandesa do mundo, de arte religiosa
a obras-primas da chamada Idade de Ouro da Holanda (século
XVII).
Lá se pode ver muitos
quadros de Rembrandt, entre eles a famosa "Ronda
Noturna", que retrata um grupo de milicianos de
Amsterdã, além de galerias de história
holandesa, pintura antiga e estrangeira, Escola de Haia
e impressionistas, pintura dos séculos XVIII
e XIX, escultura e arte aplicada, arte asiática,
gravuras e desenhos.
Outro
lugar imperdível é a Rembrandthuis, a
Casa-Museu de Rembrandt van Rijn, onde o artista viveu,
trabalhou e lecionou por mais de 20 anos. O prédio,
de três andares, foi construído entre 1606
e 1607, remodelado em 1627 e comprado por Rembrandt
em 1639. Ali sua primeira mulher, Saskia - modelo de
várias pinturas famosas -, morreu em 1642, deixando
o pintor com um filho pequeno, Titus (que também
retratou, magnificamente); em 1660, falido, ele teve
de entregar a casa aos credores. Hoje o museu conta
detalhes da vida de Rembrandt e exibe uma ótima
coleção de gravuras e desenhos, entre
eles uma série de auto-retratos.
Em Amsterdã há muitos
outros museus que recomendo, como o Stedelijk, de arte
moderna (com obras de Picasso,Cézanne, Matisse,
Mondrian, Monet, Kandinsky) ou o museu histórico
da cidade. Fiquei vidrada nas casas de beira de canal
- todas antigas, lindas, com vários tipos de
frontão (estilo armazém, renascentista,
de pescoço, de sino, triangular etc.) - especialmente
algumas transformadas em museus, como é o caso
do Museu da Bíblia, no Herengracht (canal dos
cavaleiros), onde está também o Museu
Willet-Holthuysen, linda casa construída em 1685,
que nos permite ver como eram por dentro essas maravilhas
da arquitetura do século XVIII.
A
mais interessante dentre as chamadas Canalmuseums é
a que abriga o Museu Amstelkring, mais conhecida como
"Nosso Senhor no Sótão". Esta
igreja clandestina foi construída em 1663, após
a Alteração (ou Reforma), de 1578, quando
a cidade tornou-se oficialmente protestante e o catolicismo
ficou proibido. Trata-se da junção de
três casas compradas em 1661 pelo rico comerciante
Jan Hartman - a maior de frente para o canal, as outras
duas imediatamente atrás - que montou nos três
últimos andares (de um total de sete) uma igreja
completa, com belíssimo altar, cadeiras para
os fiéis, quadros e esculturas de santos, um
pequeno quarto para o padre-residente, escondido embaixo
da escada, e um confessionário camuflado. Essa
manifestação de fé capaz de sobreviver
a todos os obstáculos tem o poder de emocionar
até o mais ateu dos visitantes.
Para não me alongar muito, recomendo
aos interessados em visitar a Holanda que comprem um
bom guia e comecem a lê-lo um mês antes
da viagem. É fundamental conhecer a história
do país, se familiarizar com a respeitadíssima
arte holandesa e traçar o roteiro, definindo
as cidades a serem visitadas, antes de pegar o avião.
Sugiro que os turistas fiquem baseados em Amsterdã
e visitem as outras cidades de trem, não só
pela alta qualidade do sistema ferroviário como
pelas paisagens deslumbrantes - em especial os moinhos
de vento e os campos de cultivo de flores - que se pode
apreciar durante o passeio. Leva-se apenas 15 minutos
da capital até Haarlem, oitava maior cidade do
país e principal centro de cultivo de flores,
e que abriga também excelentes museus, como o
Frans Hals. De Haarlem a Leiden há uma faixa
de 30 quilômetros de plantações
de açafrões, tulipas, narcisos, jacintos
e lírios, de todas as cores possíveis
e imagináveis, e a melhor forma de se conhecer
esse paraíso é pedalando: pode-se alugar
a bicicleta em Haarlem e devolvê-la em Leiden.
Tudo
é muito perto, devido ao tamanho do país:
Leiden, a cidade universitária, fica a 35km de
Amsterdã; Delft, famosa por sua louça
azul e branca, está a 50km de distância;
Haia, a capital política, onde se localizam o
Parlamento, a Corte Internacional de Justiça
e o espetacular Mauritshuis - a casa-museu de Maurício
de Nassau, com uma coleção de arte que
inclui nove Rembrandts e a famosa "Vista de Delft"
de Vermeer - a apenas 56km, ou meia hora de trem; Utrecht,
fundada pelos romanos no ano 47 e cheia de igrejas medievais
e monastérios, a 57 km; e Roterdã, com
seu velho e imenso porto, encontra-se a somente 65km
de Amsterdã. Vale a pena reservar um dia inteiro
para cada uma dessas cidades; se sobrar tempo, não
deixe de conhecer outros pontos turísticos, como
a comunidade pesqueira de Marken (a 16km de Amsterdã),
o porto de Volendam (a 18km) e o Paleis Het Loo, o deslumbrante
palácio construído em 1692 por Guilherme
III para ser sua casa de caça, considerado o
Versalhes da Holanda.
Boa viagem!!!
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