| O melhor 'matador'
da Espanha
Fotos publicadas no jornal
EL PAIS / Espanha

INCRÍVEL SEMELHANÇA
O ator Adrien Brody em uma cena do filme O pianista
e,
à direita, o toureiro Manolete em foto de arquivo.
Nascido no Queens, subúrbio
de Nova York, Adrien Brody tem 33 anos, três a
mais do que a idade com que morreu, em 1947, Manuel
Rodríguez Sánchez, o legendário
Manolete. Ganhador do Oscar de melhor ator por sua interpretação
em "O pianista", Adrien é um americano
típico, sem qualquer intimidade com touros e
touradas, o que levou alguns críticos espanhóis
mais radicais (e patriotas) a escreverem contra a escolha
do ator. No entanto, sua semelhança física
com o biografado é tão grande que fica
difícil não concordar com a decisão
do diretor holandês Menno Meyjes, um obcecado
que há quase 20 anos persegue a idéia
de filmar a história dramática de um dos
toureiros mais famosos de todos os tempos.
Para não fazer feio, o nova-iorquino
passou o mês de março em Sevilha praticando
com um profissional, o toureiro Juan Antonio Ruiz, conhecido
como Espartaco. No início de abril, na locação
onde se encontrava a equipe de filmagem, em Salamanca,
o jornal espanhol "El País" surpreendeu
Adrien Brody treinando atrás do trailer, com
Espartaco a lhe orientar os passos e meneios enquanto
seu irmão, Francisco Ruiz, fazia o papel de touro.
Os três brincavam e riam, e o toureiro comentou
que o fato de não falarem inglês e o ator
não saber espanhol não atrapalhava nada,
pois se entendiam perfeitamente por gestos.
"Ninguém poderia ensiná-lo
a ser um toureiro, mas podemos prepará-lo para
representar um", comentou Espartaco. "Estamos
tentando fazer com que ele tenha uma convivência
com o mundo das touradas, que entenda como vivemos,
como é o nosso entorno, nossa vida familiar,
nossas preocupações e nosso medo. O medo
é muito importante; e ele compreendeu essa expressão
da verdade, do que realmente sente um toureiro",
acrescentou Espartaco na entrevista dada a Elsa Fernández-Santos,
do "El País", em 8 de abril último.
A seu ver, a característica principal do biografado,
conhecido como homem sóbrio e discreto, era o
pudor: "Isso foi fundamental para Manolete. Ele
deu sua vida por algo", completou.
Além de ter passado um tempo
no campo, junto a vacas e bois, e treinando com toureiros,
o ator também pesquisou na internet, em livros
e fotografias, assistiu a muitos vídeos e escutou
centenas de histórias e anedotas sobre o tema,
com o fim de ganhar mais segurança para interpretar
Manuel Rodríguez Sánchez. Apelidado de
Manolete, diminutivo de Manuel, este nasceu em Córdoba
em 1917 e morreu em Linares, na madrugada de 29 de agosto
de 1947, horas após ser derrubado na arena por
uma chifrada na coxa direita, dada pelo quinto touro
daquela 'corrida', que tinha o nome de "Islero".

Penélope Cruz será Lupe Sino,
a namorada de Manolete,
definida como "um terço Ava
Gardner, um terço 'Carmen' e
um terço problema".
(foto: Reuters)
Um drama em flashback
O filme, que mostra os últimos
sete anos de vida do mito espanhol, começa pelo
final, em 1947, com o protagonista viajando de Sevilha
para Linares, onde morreu. Nesse trajeto — em
que faz uma parada em Córdoba, sua cidade natal,
para ver a mãe, Dona Angustias — ele recorda
sua vida, especialmente a relação apaixonada
e conflituosa com a bela atriz Lupe Sino, morena clara
de olhos verdes, que será interpretada por Penélope
Cruz. Republicana perseguida pela polícia do
general Franco, Lupe, segundo os cronistas da época,
já havia se relacionado com outros toureiros,
e a mãe de Manolete se opunha ferozmente ao romance
dos dois. A tal ponto que, embora ela estivesse na arena
onde seu amante foi ferido de morte, não permitiram
que a moça se aproximasse dele em seus últimos
momentos, para evitar que se casassem.
"Era uma mulher repudiada
pelo entorno do toureiro, sobretudo por sua mãe,
e não lhe perdoavam ser de família republicana
e ter aspirações a atriz", destaca
Andrés Vicente Gómez, responsável
pela produção. A perseguição
a Lupe foi tamanha que a jovem teve de se exilar no
México após a morte do toureiro, seu protetor,
já que os franquistas tentaram prendê-la
em várias ocasiões. "Numa das vezes,
o próprio Manolete intercedera junto ao general
Franco para livrá-la da prisão",
contou Gómez, acrescentando que o filme será
uma história de amor, dramática como todas
as histórias de amor que terminam mal, mas também
"una película muy taurina", ou seja,
com todo o cuidado em acertar nos detalhes para não
decepcionar os milhões de fãs de touradas,
que consideram uma 'ousadia-quase-sacrilégio'
este filme estar sendo feito por um diretor holandês
com protagonista americano.

Manolete e Lupe Sino, com
o retrato de Dona Angustias
ao fundo, no traço dos
cartunistas Idígoras e Pachi
Co-produção da Espanha
e Reino Unido, orçado em cerca de 20 milhões
de euros e com uma equipe técnica de mais de
120 pessoas, segundo a empresa Lola Films, "Manolete"
é, para seu produtor, a tentativa de "tornar
mais conhecido, em especial para as novas gerações,
este grande mito que não só foi o maior
toureiro da história como um homem de personalidade
tão especial que se teria destacado igualmente
em qualquer outra atividade que empreendesse".
O produtor espanhol recordou como Orson Welles um dia
lhe revelara que, quando levou Manolete a Hollywood,
as pessoas, sem saber quem ele era, viraram a cabeça
à sua passagem. "Olhavam muito mais para
ele do que para mim", afirmou Welles, segundo revelou
Gómez em entrevista recente na Espanha.
Foi em 1989, durante a filmagem de
"O sonho do macaco louco", do cineasta Fernando
Trueba (com Jeff Goldblum e Miranda Richardson), que
o então roteirista Menno Meyjes passou a se interessar
pela figura de Manolete, e começou a pesquisar
sobre ele. Nascido na Holanda mas radicado nos Estados
Unidos, onde assinou os roteiros de "A cor púrpura",
de Steven Spielberg, e de "Os caçadores
da arca perdida", de George Lucas, entre outros,
ele finalmente realiza seu alentado projeto como
roteirista e diretor de "Manolete". Não
se trata, porém, de sua estréia como cineasta.
Meyjes já tem no currículo dois filmes
em que assina a direção além dos
roteiros: "Max" e "Martin child",
ambos protagonizados por John Cusack.
A tarde de 28
de agosto de 1947

Manolete
Segundo o Portal Taurino, site
da internet que traz todas as informações
sobre touros, toureiros e touradas, além de Manolete
participaram daquela 'corrida' fatídica Rafael
Vega de los Reyes, o "Gitanillo de Triana",
e Luis Miguel Dominguín. Os três se alternaram
na arena, e diz também o Portal — e eu
traduzo aqui para o português — que, quando
Manolete voltou, Gitanillo e Dominguín já
tinham cortado uma orelha cada um. Isso significa que
haviam toureado melhor do que Manolete, que na primeira
exibição não agradou ao público.
Quando ele retorna à arena para enfrentar o touro
miúra "Islero", o quinto da tarde,
se esforça por dar o melhor de si e apagar a
má impressão anterior. Após uma
atuação à altura de seu prestígio,
começa a matar bem devagar o touro, com a muleta
(pau que encobre a capa) junto à cintura, e então
o touro lhe enfia o chifre na coxa direita. O toureiro
começa a sangrar violentamente.
Os assistentes levantam Manolete e
erram o caminho para a enfermaria, levando-o em direção
ao pátio de cavalos. O ferido chega à
enfermaria sete minutos depois da chifrada. O médico
da Plaza de Toros, Fernando Garrido Arboledas, declara
Manolete vítima de uma "ferida de chifre
de touro situada no Triângulo de Scarpa, com 20
centímetros de comprimento de baixo para cima
e de dentro para fora (...) com ruptura da veia safena,
e contornando a região muscular da artéria
femoral".
O toureiro diz que não sente
a perna, enquanto fuma um cigarro. Às 23h, ele
é trasladado ao Hospital de Linares, e o médico
de Las Ventas, Luis Giménez Guinea, chega de
Madri e autoriza a transfusão de um soro de plasma
com o objetivo de regenerar o sangue do ferido. Às
5h07 de 29 de agosto, Manolete pronuncia suas últimas
palavras diante do Dr. Luiz Giménez Guinea: "Que
desgosto vou dar à minha mãe! Don Luiz,
eu não vejo, não vejo nada".
O Portal Taurino informa ainda que
o ensangüentado "traje de luces" de Manolete
foi levado para exibição no Museu Taurino
de Madri, e a cabeça do touro "Islero"
colocada no Museu Taurino de Sevilha.
Um tema para poetas
Muitos foram os poetas espanhóis,
especialmente os da Andaluzia, que se inspiraram nas
'corridas de toros'. O mais famoso dentre eles é
o granadense Federico García Lorca (1898-1936),
que em 1935 homenageou um toureiro tragicamente morto
com seu longo e comovente 'Llanto por Ignacio Sánchez
Mejías', mais tarde musicado. Muito antes, o
cordobês Luis de Góngora (1561-1627) escrevera
'De unas fiestas en Valladolid', enaltecendo a 'plaza',
os touros e os toureiros, o que também fez Francisco
de Quevedo (1580-1645) em seu poema 'A la fiesta de
toros y cañas del Buen Retiro, en día
de grande nieve'. José Perez de Montoro (1627-1694)
escreveu 'Definición de un toro herido', e Nicolás
Fernandez de Moratín (1737-1780) 'Fiesta antigua
de toros en Madrid'. José Zorrilla (1817-1893)
prestou homenagem a 'El Picador', o toureiro a cavalo
que, logo no início da 'faena', pica o touro
com uma garrocha (haste de madeira com ponta de ferro
farpeada). Até mesmo o tcheco Rainer Maria Rilke
(1875-1926) poetizou a 'Corrida', verso escrito em Paris
em 3 de agosto de 1907.
Dentre os brasileiros, quem se inscreveu
belamente nesta tradição foi o pernambucano
João Cabral de Melo Neto (1920-1999), um dos
maiores poetas de todos os tempos, que viveu na Espanha,
inicialmente como vice-cônsul do Brasil em Barcelona,
e era um apaixonado por touradas. Os qualificativos
de discreto e sóbrio, atribuídos a Manolete,
podem perfeitamente se aplicar ao brasileiro, que em
27 de outubro de 1987, numa entrevista ao jornal "A
Tarde", de Salvador (BA), falou com emoção
sobre o famoso toureiro, como se pode ler a seguir:
"É, realmente a corrida
de touros é uma coisa extraordinária.
Eu cheguei a Barcelona em 1947, e vi Manolete tourear
duas vezes. Nesse ano, ele toureou em Barcelona duas
vezes [antes de morrer] (...) e ele ainda ia tourear
em Barcelona naquele ano, e nós tínhamos
um amigo em comum que me ia apresentar a ele. Eu não
conheci Manolete pessoalmente. Essa pessoa dizia que
foi uma pena eu não o ter conhecido porque era
um sujeito com quem eu ia me entender muito bem. Esse
amigo me dizia que eu tinha deixado de conhecer uma
pessoa de quem seria, certamente, um grande amigo, por
causa do temperamento dele (...) retraído, calado".
E prosseguiu nosso poeta: "Era
um homem de origem humilde, o pai dele foi um toureiro,
de forma que Manolete começou carregando pedra
numa estrada. Agora, ele era de uma curiosidade intelectual
enorme. Dizem que quando ele se encontrava com dois
escritores, por exemplo, ou qualquer sujeito que estava
falando de um assunto de que ele não entendia,
ele não dava uma palavra. Ficava curioso, ouvindo
tudo, e não dizia besteiras. Ele procurava suprir
aquela falha de cultura — que ele não teve,
coitado, porque foi obrigado a trabalhar — por
essa curiosidade intelectual. Era um homem extraordinário".
Mais tarde, o embaixador João
Cabral de Melo Neto morou em Sevilha, cidade que amava
profundamente. Em seu livro "Poemas Sevilhanos",
publicado pela Nova Fronteira em 1992, ele escreveu
alguns poemas sobre touradas, como 'Touro andaluz' ou
'A Praça de Touros de Sevilha', e dedicou outros
a 'matadores' famosos, tais como Belmonte, Galitto,
Manolo Gonzáles e Litri. Mas logo no primeiro
poema do livro, dedicado ao amigo Antônio Houaiss,
Cabral analisa as diferentes formas de tourear dos mais
renomados toureiros, e conclui que o melhor deles era
Manolete, apelidado entre os espanhóis de "El
Monstruo" pela maneira seca, sem firulas, com que
enfrentava o touro:
Alguns toureiros
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madri, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra,
o de figura de lenha,
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu
número,
à vertigem, geometria,
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.
Tempos depois, João Cabral revelou
em entrevista ao jornal "Folha de S. Paulo",
publicada em 22 de maio de 1994, que a arte de Manolete
lhe ensinara a eliminar da poesia todos os excessos,
como se lê a seguir: "Naquele poema 'Alguns
toureiros' eu digo que aprendi com Manolete a não
poetizar o poema. Porque esse é o problema de
muito poeta: é que ele faz um poema poético.
Quer dizer, faz um poema a partir de elementos já
convencionalmente poéticos. Ele perfuma a flor.
É como você plantar uma rosa e depois achar
que a rosa não está cheirando o suficiente
e aí pôr, em cima da rosa, perfume de rosas
para ela cheirar mais — ou seja, perfuma o poema".
E encerro minha reportagem sobre cinema,
touradas e poesia com mais uma amostra da arte essencial
deste pernambucano incomparável, dedicada ao
personagem principal do texto:

Manolete
Lembrando Manolete
Tourear, ou viver como expor-se;
expor a vida à louca foice
que se faz roçar pela faixa
estreita de vida, ofertada
ao touro; essa estreita cintura
que é onde o matador a sua
expõe ao touro, reduzindo
todo o seu corpo ao que é seu cinto,
e nesse cinto toda a vida
que expõe ao touro, oferecida
para que a rompa; com o frio
ar de quem não está sobre um fio.
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