Ai que saudades que eu tenho...

Depois dos filmes sobre a Bossa Nova e Vinicius de Morais, e do livro "Quase Tudo", de Danuza Leão — detonadores de uma Sessão Nostalgia que nos últimos meses tem remexido "as paredes da memória" do carioca, trazendo de volta seu orgulho por ter nascido na Cidade Maravilhosa — reaparece nosso velho "O Pasquim", o mais bem-sucedido exemplo de imprensa nanica no Brasil.

Centro Cultural dos CorreiosNuma exposição no Centro Cultural dos Correios, dentro do XVII Salão Nacional do Humor, o cartunista Jaguar e o jornalista Sérgio Augusto, organizadores, conseguiram montar uma divertida antologia, com 30 das melhores capas do Pasquim, um vídeo, mais reproduções de textos de Chico Buarque e Caetano Veloso (correspondentes em Roma e Londres) e de entrevistas com Di Cavalcanti, Madame Satã e Leila Diniz. Infelizmente a mostra durou pouco mais de um mês, e terminou dia 23 de abril, mas quem perdeu pode recuperar isso tudo através do livro "O Pasquim – Antologia / Volume 1: 1969-1971", igualmente organizado por Jaguar e Sérgio Augusto, lançamento da editora Desiderata.

O livro, em formato 22,0 x 30,0 cm, com 352 páginas, traz textos, artigos, entrevistas, ilustrações, charges, cartuns, pôsters e algumas capas dos 150 primeiros números do jornalzinho que, através do humor inteligente, foi capaz de atemorizar os poderosos e incomodar a ditadura militar – tanto que a maioria de seus colaboradores levou cana. Dentre os que escolheram o traço pra fazer sua crítica, está lá o melhor de Fortuna, Henfil, Jaguar, Ziraldo, Millôr, Claudius, Caulos, Miguel Paiva e Luís Fernando Verissimo (que então escrevia pouco, mas divertia com sua tirinha 'As Cobras').

Há textos inesquecíveis de gente que já se foi deste planeta, como Tarso de Castro, Paulo Francis, Antonio Callado, Otto Maria Carpeaux, Glauber Rocha, Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Flávio Rangel, Daniel Más; um poema de Vinicius, autor também de perfis de Antonio Maria, Ciro Monteiro, Di Cavalcanti, Dorival Caymmi e Carlos Leão; além de entrevistas memoráveis com Ibrahim Sued (capa do número 1), Leila Diniz, Fernanda Montenegro, Dina Sfat, Madame Satã, Marques Rebêlo, Paulo Mendes Campos, Oscarito, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Natal da Portela, Billy Eckstine e Florinda Bulcão (hoje Bolkan), entre outros.

No texto de apresentação, Jaguar (Sérgio Jaguaribe) conta que o tablóide de saudosa memória começou a ser gestado em setembro de 1968, no dia em que morreu Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, então responsável por outro semanário de humor, intitulado "Carapuça". Interessada em continuar com o jornaleco, a editora convocou Tarso de Castro, que na época escrevia uma coluna de sucesso no jornal "Última Hora", e este quis saber a opinião de Jaguar. "Acho melhor fechar este e abrir outro", disse o cartunista. A editora concordou, e então os dois se encontraram com Sérgio Cabral, levado por Tarso, e mais Claudius e Carlos Prósperi, que Jaguar escalou para fazerem o projeto gráfico.

"A coisa quase desandou porque o nome do jornal não saía", prossegue Jaguar. "Durante longas semanas nos reunimos na casa do Magaldi, diretor da TV Globo [que fora sócio do Prósperi numa famosa agência publicitária de São Paulo]. Listas e listas de nomes eram descartadas. Aí me lembrei da "Tribuna da Imprensa", que tinha tiragem bem menor que os jornalões, e por isso era pejorativamente chamada de 'lanterninha da imprensa' – e deu a volta por cima adotando a lanterna como símbolo. 'Que tal Pasquim?, propus. Vão nos chamar de pasquim (jornal difamador, folheto injurioso), terão de inventar outros nomes para nos xingar'. A sugestão não suscitou muito entusiasmo, mas como ninguém agüentava mais tanta reunião, acabou sendo aprovada. Para alívio de Magaldi, que contabilizou grandes baixas em sua adega".

Ninguém acreditava que o jornalzinho viesse a fazer sucesso, e prova disso está no artigo de Millôr Fernandes no número de estréia, que acabava assim: "Não estou desanimando vocês não, mas uma coisa eu digo: se esta revista for mesmo independente, não dura nem três meses; se durar três meses, não é independente". Os prognósticos pessimistas não se concretizaram. Lançado em 26 de junho de 1969, cinco meses depois a turma estava dando festa para comemorar os 100 mil exemplares vendidos – e "O Pasquim" durou mais de 22 anos, ou seja, até o número 1.072, de 11 de novembro de 1991.

A ditadura militar e a censura à imprensa, que o transformaram num foco de resistência, há muito tinham passado, e com isso se esvaiu o principal combustível do tablóide. Como diz Jaguar num cartum, na página 8 do livro: "Um grupo de jornalistas e cartunistas se reuniu em pleno AI-5 para falar mal do governo. Só tem uma explicação: privação coletiva dos sentidos". Devemos a essa "privação dos sentidos" – que acometeu Jaguar, Sérgio Cabral, Paulo Francis, Tarso de Castro, Marta Alencar, Millôr, Ziraldo, Fortuna, Claudius, Luiz Carlos Maciel, Henfil, Ivan Lessa, Paulo Garcez e tantos outros – alguns dos melhores momentos de nossa imprensa. Um modo de demonstrar gratidão é botar este livro em lugar de destaque na biblioteca e esperar ansiosamente pelos próximos números, que já se encontram em fase de produção.



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