| Prefácio
de Vinícius de Moraes a seu livro "Orfeu
da Conceição / Tragédia carioca"
As datas de saída deste livro
e da estréia, no Teatro Municipal desta cidade,
de "Orfeu da Conceição" são
propositadamente coincidentes. É uma espécie
de festa que me deu, pois não me foi fácil
escrever a peça, e muito menos encená-la.
Há 16 anos, uma certa noite em casa do arquiteto
Carlos Leão, a cavaleiro do Saco de São
Francisco, depois de ler numa velha mitologia o mito
grego de Orfeu, dava eu início aos versos do
primeiro ato, que terminei com a madrugada raiando sobre
quase toda a Guanabara, visível de minha janela.
Só em Los Angeles, seis anos depois, consegui
encontrar o segundo e terceiro atos, sendo que este
último perdi, só indo refazê-lo
em 1953 quando, a instâncias de meu amigo poeta
João Cabral de Mello Neto, resolvi concorrer
ao Concurso de Teatro do IV Centenário de São
Paulo.
É difícil prever o destino
de uma peça de teatro, sobretudo quando foi,
como esta, ensaiada em três meses apenas, por
contingências dos meus deveres de diplomata com
data certa para regressar ao posto. Três meses
realmente heróicos, em que uma equipe de seis
(o diretor Leo Jusi, o cenógrafo Oscar Niemeyer,
o compositor Antônio Carlos Jobim, a figurinista
Lila de Moraes, a coreógrafa Lina de Luca e o
pintor Carlos Scliar) criou condições
para um elenco de 45 figuras, com 10 atores principais,
pisar em cena, depois de um exaustivo trabalho em que
há que salientar primeiro a coragem e lealdade
dos atores e logo em seguida a capacidade de trabalho
e devotamento do diretor Leo Jusi. Mas a verdade é
que deram todos, cada qual no seu setor, o máximo.
São amigos meus, me merecem tudo - e eu lhes
sou devotadamente grato.
Dentro de uma semana, às 9 da
noite, no Teatro Municipal, cessarão todas as
nossas agonias. Depois da "ouverture" para
grande orquestra, escrita por Antônio Carlos Jobim
especialmente para a peça, o pano se abrirá
sobre cenário de Oscar Niemeyer: dois amigos
muito queridos; duas obras que vivem a partir daqui
perfeitamente integradas com a minha peça. Luiz
Bonfá estará executando, da orquestra,
o violão de Orfeu da Conceição,
interpretado por Haroldo Costa: outros dois amigos a
quem aprendi a querer muito. Os atores portarão
os figurinos feitos por uma estreante em teatro como
eu, como Oscar Niemeyer, como Antônio Carlos Jobim:
minha mulher Lila Moraes. E as gentis dançarinas
dançarão os bailes que lhes foram marcados
por uma outra estreante como coreógrafa de teatro:
minha amiga Lina de Luca. E em tudo haverá uma
cor, um desenho, um toque de Carlos Scliar: um cuja
amizade vem de longe.
Escravo de meus amigos, de quem tudo
recebo e a quem tudo dou, agora pergunto eu: que maior
alegria?
E uma última palavra: esta peça
é uma homenagem ao negro brasileiro, a quem,
de resto, a devo; e não apenas pela sua contribuição
tão orgânica à cultura deste país
- melhor, pelo seu apaixonante estilo de viver que me
permitiu, sem esforço, num simples relampejar
do pensamento, sentir no divino músico da Trácia
a natureza de um dos divinos músicos do morro
carioca.
Rio, 19-9-1956 - Vinicius de Moraes
Ficha técnica da peça:
A peça "Orfeu
da Conceição" estreou a 25 de
setembro de 1956 no Teatro Municipal carioca, onde foi
encenada por uma semana. Em seguida, ficou em cartaz
durante um mês no Teatro República, também
no Rio. Os cenários forem feitos pelo arquiteto
Oscar Niemeyer, e os pintores Djanira, Carlos Scliar,
Luis Ventura e Raimundo Nogueira criaram os cartazes
promocionais, sendo que Nogueira fez também a
pintura que ilustra a capa do LP com a trilha sonora
da peça. O elenco tinha Haroldo Costa (Orfeu),
Dirce Paiva (Eurídice), Léa Garcia (Mira),
Cyro Monteiro, Abdias Nascimento, Chica Xavier, Clementino
Kelé, Pérola Negra, Waldir Maia, Chico
Feitosa e o campeão olímpico Adhemar Ferreira
da Silva. A orquestra era conduzida por Leo Peracchi,
e a "Ouverture", que ganhou arranjo orquestral
de Tom Jobim, baseava-se na valsa "Eurídice"
(musica e letra de Vinicius de Moraes), também
apresentada na peça.
Trilha sonora de "Orfeu da
Conceição":
Orfeu da Conceição
1. Ouverture (Vinicius
de Moraes); 2.Um nome de mulher (Tom
Jobim-Vinicius de Moraes); 3. Se todos fossem
iguais a você (Tom Jobim-Vinicius
de Moraes); 4. Mulher, sempre mulher
(Tom Jobim-Vinicius de Moraes); 5. Eu e o meu
amor (Tom Jobim-Vinicius de Moraes); 6. Lamento
no morro (Tom Jobim-Vinicius de Moraes);
7. Monólogo de Orfeu (texto
de Vinicius de Moraes).
O disco com a trilha sonora da peça,
lançado pela Odeon no mesmo ano de 1956, tem
capa de Raimundo Nogueira, o violão de Luis Bonfá
e o cantor Roberto Paiva na interpretação
de cinco faixas. A abertura ("Ouverture")
é orquestrada, e o "Monólogo de Orfeu"
um texto declamado por seu autor, Vinicius de Moraes.
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