Os 'magrinhos' ganham o mundo

arquivo de família

A desenhista Izabela e sua
mãe, a atriz Chica Xavier

Funcionária estadual há 20 anos, desenhista desde a adolescência, a aquariana Izabela Queiroz de Jesus — Bela d' Oxóssi no mundo da cultura e no da Umbanda — mostrou sua arte pela primeira vez ao público em geral através das belíssimas ilustrações que fez para o livro de sua mãe, "Chica Xavier canta sua prosa / Cantigas e rezas para os orixás", lançado pela editora Topbooks em 1999. Aos 46 anos, esta filha de atores prestigiados no meio artístico — Chica Xavier e Clementino Kelé — é mãe de Oranyan, quatro anos, um garoto muito fofo que também adora desenhar, e já mostrou que leva jeito.

Apaixonada por cinema — não só vê uma grande quantidade de filmes como adora conversar sobre o assunto e tem vasta biblioteca especializada — Bela escreve contos ótimos, além de uma divertida crônica diária, intitulada "A roupa das ruas", em que conta para os amigos, via e-mail, suas atribulações cotidianas. Fora isso, há muitos anos ela se empenha em promover a arte e a cultura: é a idealizadora e diretora da Fundação Miguel Falabella, criada em 1987 na cidade do Prado, sul da Bahia, e também assessora artisticamente o Grupo União Espírita Santa Bárbara, na periferia de Maceió, Alagoas.

E é exatamente de Alagoas que vêm duas novidades: em maio, durante um seminário promovido pelo GUESB para marcar as celebrações pela Abolição da Escravatura, os desenhos de Bela d' Oxóssi estarão em exposição e à venda, assim como as roupas e acessórios estampados com seu traço; e em novembro próximo, quando se comemora o Dia da Consciência Negra, será inaugurado o Memorial a Zumbi, na Serra da Barriga, local do Quilombo de Palmares, onde os orixás desenhados por ela ganharão grandes formatos e ficarão em exposição permanente, ao ar livre. Entrevistei a artista para que vocês conheçam um pouco mais sobre sua vida e seu trabalho.

Qual foi sua formação profissional e como é seu trabalho hoje na Faperj?
— Eu sou formada em Comunicação Social, e exerço o cargo de técnico de Nível Superior na Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro.

Como foi que você se transformou em artista plástica?
— Eu comecei a desenhar o que meu pai apelidou de "magrinhos" numa aula monótona no Colégio Pedro II, seção Centro. A minha maior inspiração era a dança e, em particular, os musicais de Holywood. Depois fui me desenvolvendo e forjando um estilo próprio, que tinha influências do cartunista Lan, da negritude de Debret, da suavidade de Matisse...

Mas as grandes forças que culminaram no trabalho que hoje é a minha marca foram as canelas de Chica Xavier, minha mãe, a versatilidade corporal de meu tio Milton Cobrinha em suas aparições episódicas nos musicais da Atlântida e, por fim, meu mergulho na religiosidade afro-brasileira.

 




Você nasceu, se criou e vive dentro da religião umbandista. Como isso se reflete na sua arte?

— Bem, eu sou ekede de Oxóssi, o que equivale a dizer que sou responsável por esse orixá, dentro do terreiro. No Cercado de Seu Boiadeiro, criado por minha mãe, a religião é a extensão dos laços familiares. Meus pais nunca nos obrigaram a seguir nada, sempre deixaram que escolhêssemos os próprios caminhos, mas nossa religiosidade se confunde com o nosso cotidiano porque nós moramos no Cercado, que fica no terreno de nossa casa, em Sepetiba. Assim, dormimos e acordamos com os orixás. E eu, quando desenho, é como se conversasse com um parente — um parente mais velho, a quem se pede a bênção, mas de quem você não precisa esconder nada, porque ele te conhece e vive dentro de você.
 



Como foi a experiência de ilustrar as cantigas e rezas compostas por sua mãe para o livro lançado em 1999?

— Foi crucial para mim, pois eu fora vítima de um erro médico, estava em casa de licença, e esse trabalho representou minha terapia, minha salvação. Quando o livro saiu, eu estava recomeçando a trabalhar, retornando à minha vida normal, só que, daí por diante, eu passei a me considerar — e a ser considerada — uma artista plástica, além de funcionária pública.


Mas, além dos lindos orixás, há outras figuras típicas entre seus "magrinhos"...
— Eu desenho séries de Carnaval desde sempre, afinal sou carioca. Quando crio, sinto que o desenho dialoga comigo, ele diz aonde quer ir, e eu o transporto até lá. No início, por volta de 1976, eu só desenhava com canetas de tinta preta. Depois evoluí para o nanquim e em 1998 comecei a usar cores nos desenhos que até então eram em preto e branco. Hoje, além do Panteão dos Orixás, traço samba, capoeira, o funk da periferia, o futebol, o basquete de rua — enfim, sempre dentro do universo do meu povo negro. Penso que a função social do meu trabalho seja a de retratar a minha raça.

Como foi que aconteceu de seus orixás se tornarem conhecidos Brasil afora, e estarem virando motivos de estamparia numa linha de roupas?
— Quando lançamos o livro "Chica Xavier canta sua prosa" em Maceió, conhecemos Mãe Neide [a yalorixá Neide Oyá d'Oxum] e o pessoal do Grupo União Espírita Santa Bárbara. Ficamos amigos de cara: ano após ano, eles vêm prestigiando o nosso Cercado do Boiadeiro nas grandes festas, nós freqüentamos o GUESB igualmente, e hoje somos uma só irmandade. A partir daí, comecei a fazer um trabalho de assessoramento artístico para eles: eu envio meus desenhos de orixás, e o GUESB os utiliza sem nenhum ônus para ilustrar convites, cartazes e até decoração, o que colaborou muito para divulgar meu trabalho Brasil afora. Só recentemente passamos a pensar no desenho como produto. E como Mãe Neide, diretora do GUESB, tem lojas de artigos de Umbanda e Candomblé, que incluem peças de vestuário, resolvemos formar uma parceria artística e comercial.

Nos festejos da Abolição da Escravatura, em Maceió, você vai mostrar seus desenhos e os produtos inspirados neles. Quando isso acontecerá?
— Entre 11 e 20 de maio deste ano o GUESB estará promovendo o II Seminário Realidade e Perspectiva do Negro em Alagoas, de que participarão, entre outras pessoas importantes, minha mãe e minha irmã [a atriz Chica Xavier falará sobre "As religiões afro-brasileiras e os direitos e deveres dos praticantes dos cultos", e Christina Morais, engenheira química da Fiocruz/RJ, participará do debate sobre "O negro no mercado de trabalho"]. Dentro dessa programação, eu vou inaugurar uma exposição de desenhos, que estarão à venda. Além disso, haverá oficinas mostrando as técnicas que permitiram transformar meus orixás em estamparia de vestidos, blusas, bolsas e panos da costa, e todas essas peças estarão igualmente à venda, assim como os livros que mamãe e eu vamos autografar — "Chica Xavier canta sua prosa".

E de que forma seus orixás entrarão no Memorial a Zumbi?
— Bom, no meio disso tudo, surgiu o convite da Secretaria das Minorias para que meus desenhos de orixás passassem a fazer parte, de forma permanente, do Memorial a Zumbi, na Serra da Barriga, Quilombo de Palmares. Será um trabalho desenvolvido por um arquiteto francês, que está transpondo meus desenhos para grandes formatos através de um processo que resiste a sol, chuva, umidade, de modo que eles poderão ficar ao ar livre, integrados à natureza. A idéia é colocar cada orixá em seu habitat, a saber: Oxum na cachoeira, Xangô na pedreira, Ossãe na mata, e por aí vai. Ali também, no Memorial, serão vendidas camisetas estampadas com os orixás criados por mim, que levarão a marca de souvenir: "Quilombo de Palmares — Alagoas".


Por que você quis fazer uma fundação cultural no Prado, e lhe deu o nome do ator Miguel Falabella? O que essa fundação oferece aos moradores da cidade?
— Conheci o Prado através de minha prima Suzana, que também é artista plástica. Depois compramos uma casa e passamos a viajar para lá em todos os feriados. Um dia, em conversa com amigos, decidi que estava na hora de criar uma biblioteca ali, e assim que regressei ao Rio comecei a pedir doações aos amigos. Então, mamãe se interessou e passou a pedir apoio aos políticos do Prado. Quando começamos a pensar que a biblioteca seria apenas um dos objetivos desse trabalho social, nós e as outras pessoas ligadas ao projeto resolvemos que era melhor fundar uma casa de cultura, a exemplo das Casas que já existiam em outros municípios vizinhos.

Como Miguel Falabella é para mim um ícone multimídia, além de irmão no campo pessoal, resolvi dar o nome dele à Fundação. E Miguel mostrou que é pé quente, pois a Casa já vai para 10 anos em 2007, oferecendo oficinas de artesanato, aulas de capoeira, a biblioteca, salas de leitura, Fora isso, tem prestado grande auxílio aos estudantes do Prado que querem fazer o Vestibular mas não têm recursos para pagar cursinho. A biblioteca, por sinal, leva meu nome: Izabela Queiroz de Jesus.


Antes, o desenho era um hobby pra você, mas agora parece que se tornou a coisa mais importante em termos de criação. Como é sua rotina criativa?
— Tenho feito um desenho por dia, até porque eles também ilustram minha coluna diária, "A roupa das ruas". Como eu envio textos e desenhos diariamente, por e-mail, para uma grande quantidade de amigos, tive a surpresa de ver, no dia 25 de abril, uma ilustração que fiz sobre o sofrimento dos escravos, batizada de 'Negra Dor', vendida menos de 20 horas após ter sido concluída. Assim que recebeu por e-mail este desenho, onde o sangue do negro forma uma poça que é o mapa do Brasil, Mãe Neide decidiu colocá-lo logo à entrada do Seminário Realidade e Perspectiva do Negro, num grande cartaz. E mais: o texto que fiz para acompanhar a imagem será lido na abertura dos debates, dia 11 de maio próximo. (Veja aqui o desenho e o texto de Izabela).

 

 


Mãe Neide e sua veste de orixás

Quais são os projetos com relação à sua arte?
— Por enquanto minha atenção está voltada para esses dois megaeventos em Alagoas. Nos próximos dias, Mãe Neide vai a Palmares para inaugurar o primeiro Quiosque do Acarajé do Quilombo, e estará vestida com o pano da costa com meus desenhos, para apresentar a nova estamparia ao povo do santo. O que virá a partir daí só os orixás poderão dizer!

 

 

 




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