A roupa das ruas

Você é escravo de quem?

Os negros africanos e depois seus filhos, nascidos nessa terra brasilis, sabiam quem era seu dono, quem era seu feitor, só não sabiam mais onde estavam seus deuses. Talvez tivessem ficado na mãe África. Talvez seus deuses tivessem sido também aprisionados e mortos, e o Orum destruído pelos deuses dos brancos. Mas eles decididamente não estavam ali, naquela terra de língua estranha, de gente de outras cores, onde a crueldade parecia não ter fim.

Eles (os brancos) não se dividiam em tribos e, no entanto, faziam com que eles dormissem, acordassem e trabalhassem de sol a sol com as tribos inimigas da terra de onde eles, os negros, haviam sido arrancados e vendidos por outros negros.

Parecia um pesadelo sem limites.

Mas, um dia, Oxalá se mudou pra cá com todo o Panteão Africano, veio "undercover", pediu para o chamarem de santo, pra não dar na pinta, porque esse negócio de orixá cheirava a senzala, e os brancos iam achar que se tratava de algum código de alguma rebelião que poderia estar sendo engendrada pelos cativos.

Então o povo negro voltou a ter pra quem pedir socorro, se não nessa vida, na outra. Voltou a ter esperança de dias melhores para sua gente. A liberdade do corpo continuou a ser coisa rara, mas a da alma ficou garantida. Tão garantida ficou a liberdade dos negros por seus Orixás que, depois de terem seus corpos barbaramente castigados pelo carrasco da escravidão, subiram ao Orum e de lá voltaram pra prestar a caridade e propagar a fé.

Ainda hoje, mesmo no terceiro milênio, ouve-se dizer que no Brasil continuam existindo lugares onde há escravidão. Oxalá ainda tem muito caminho para caminhar. Fé, muita fé, seja em Jesus, Oxalá, Buda, Tupã, Alá ou Maomé.

Bela d' Oxóssi



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