| O maior artista
da Holanda

Mulher na cama (1645, detalhe)
Rembrandt van Rijn
National Gallery of Scotland, Edimburgo Este
é o 'Ano Rembrandt', que seus patrícios
estão comemorando em grande estilo. A começar
pela casa-museu do artista em Amsterdã, a Rembrandthuis,
que montou uma retrospectiva especial. São
50 pinturas, gravuras e desenhos que se aproveitam
do ambiente para ganhar mais humanidade, como é
o caso do quadro "Mulher na cama" (1645,
também conhecido como "Sara à espera
de Tobias"), agora exposto no quarto do artista:
foi preciso afastar e prender a cortina vermelha que
encobre a cama de casal para dar à pintura
o entorno mais adequado.
Há outras obras-primas ali naquela
casa tão cheia de história, como um retrato
de Hendrickje Stoffels, sua segunda companheira, intitulado
"Mulher na porta" (1655), um excelente auto-retrato
datado de 1640, cedido pelo Museu Thyssen-Bornemisza
de Madri, e ainda a imagem de uma outra mulher em "Na
janela" (1645), do acervo da galeria Dilwich de
Londres. Essa mostra fica em cartaz até 2 de
julho próximo; no dia 8 começa ali, e
segue até 3 de setembro, uma nova exposição
que enfoca o Rembrandt artista gráfico. Ele fez
mais de 290 gravuras, das quais a maior coleção
pertence exatamente à Rembrandthuis.
E mais: de 16 de setembro a 10 de dezembro
a casa-museu do mestre vai abrigar a mostra "Rembrandt
e Uylenburgh, comércio em obras de arte",
que promete ser interessantíssima. Quando se
mudou de Leyden para Amsterdã, o artista trabalhou
por quatro anos para o marchand Hendrick Uylenburgh,
que o tornou famoso como o melhor pintor de retratos
do país; ao mesmo tempo, a galeria de Uylenburgh
vendia obras de outros artistas holandeses, flamengos
e italianos. A exposição pretende apresentar
uma retrospectiva do que se vendeu na galeria entre
1625 e 1675, ou seja, além de 15 pinturas de
Rembrandt, estarão em exibição
quadros de Van Dick, Govert Flinck, Caspar Netscher
e Gerard Lairesse, entre outros.

Ronda noturna (1642, detalhe)
Rembrandt van Rijn
Rijksmuseum, Amsterdã Já o Rijksmuseum,
principal museu da Holanda e dono do mais vasto acervo
de Rembrandt, festejará esse aniversário
até o final de 2006, com quatro exposições
onde estarão todas as obras do artista, entre
elas os famosos "Ronda noturna", "A
noiva judia" e "Os síndicos do grêmio
de tecelões". E não é só
isso: todos os desenhos de Rembrandt serão
exibidos em duas etapas, a primeira entre 11 de agosto
e 11 de outubro e a segunda de 14 de outubro até
o último dia do ano.
Para completar, na mostra "As
obras-primas", em cartaz até 31 de dezembro,
este museu vai exibir o melhor de seu acervo geral,
oportunidade rara de se conhecer o que de mais importante
se produziu durante a chamada Idade de Ouro. São
cerca de 400 obras de arte entre pinturas, desenhos,
gravuras, esculturas, casas de bonecas, peças
de prata, cerâmica de Delft e objetos decorativos,
enfim, todos os ícones da história cultural
holandesa.
REMBRANDT E CARAVAGGIO
No Museu Van Gogh, está em cartaz,
até 18 de junho, a mostra "Rembrandt-Caravaggio",
que confronta a arte destes dois gênios do barroco.
É a primeira vez que se reúne mais de
20 obras de Rembrandt van Rijn (1606-1669) e Michelangelo
Merisi da Caravaggio (1571-1610) para estabelecer relação
de imagens no que tange à técnica e à
emoção.
A exposição se inicia
com "O martírio de Santo André"
de Caravaggio, colocada de forma a criar uma forte oposição
a outra obra do italiano, "A ceia de Emaús",
e desta com "O festim de Baltazar", do holandês.
Os curadores se empenharam em passar ao público
noções quanto ao uso distinto da luz e
da iluminação na obras dos dois mestres.

O Martírio de Santo André
(1607)
Michelangelo Merisi da Caravaggio
Cleveland Museum Of Art, Ohio - U.S.A.

A ceia de Emaús (1601)
Michelangelo Merisi da Caravaggio
National Gallery, Londres

O festim de Baltazar (1635)
Rembrandt
National Gallery, Londres
Ainda na capital holandesa, o Museu
da Bíblia apresentará, de 15 de setembro
a 10 de dezembro, todas as gravuras de temática
bíblica do artista, que são mais de 70.
Já o Arquivo Municipal de Amsterdã, onde
há cerca de 600 documentos com vasta informação
sobre a vida e a obra do pintor, exibirá, de
15 de outubro a 31 de dezembro, algumas curiosidades,
como as escrituras de compra e venda de pinturas e de
casas, as certidões de batismo e de casamento
e o atestado de óbito.
Um registro da Oude Kerk (igreja antiga),
por exemplo, dá conta, em 1634, das intenções
de Rembrandt em se casar com Saskia van Uylenburgh (prima
de um de seus marchands), enquanto outra nota, datada
de um ano depois, assinala a morte de seu primeiro filho,
Rumbartus, com apenas dois meses de idade. O mais interessante,
sem dúvida, vem da Câmara de Falências:
é o inventário de bens que Rembrandt fez
em 1656, depois de se declarar na bancarrota. Com ajuda
do secretário da Câmara, ele listou detalhadamente
todos os objetos que possuía em casa, e esta
lista fornece informações preciosas sobre
a Rembrandthuis e sua enorme coleção de
arte.

Moisés (1659, detalhe)
Rembrandt van Rijn
Germaldegalerie, Berlin O Museu de História
Judaica, por sua vez, promove a exposição
"Rembrandt Judeu", de 10 de novembro a 4
de fevereiro de 2007. O artista viveu vários
anos no bairro judeu de Amsterdã, e muitos
de seus trabalhos mostram personagens bíblicos,
sendo que em alguns ele chegou a incluir palavras
em hebraico. É possível classificá-lo,
então, como artista judeu? Para desvendar esse
mito, o museu exporá obras de Rembrandt em
justaposição às de outros mestres
que trabalharam a mesma temática, intercalando-as
a provas documentais.
O Museu Histórico de Amsterdã
não ficou de fora das celebrações:
"A essência de Rembrandt" estará
em exibição de 12 de maio a 13 de agosto.
É uma coleção singular de desenhos
e esboços de temática variada, da paisagem
ao retrato, passando por cenas bíblicas e mitológicas,
em que o artista mostra sua versatilidade no uso de
diversas técnicas, como carvão, tinta,
lápis, buril e ponta seca.
Completando a série de homenagens
na capital, o famoso cineasta britânico Peter
Greenaway ("O cozinheiro, o ladrão, sua
mulher e o amante") montará uma instalação
teatral, com imagens e som, em torno da tela "Ronda
noturna". Vai acontecer entre 2 de junho e 6 de
agosto no Rijksmuseum, que se recusa, por enquanto,
a dar mais detalhes para não estragar a surpresa.
E no dia 15 de julho, data em que o artista completa
o quarto centenário — artistas assim não
morrem, vocês sabem — estreará "Rembrandt
— o musical", que pretende mostrar aspectos
desconhecidos da vida do artista. "A produção
se concentra na 'persona' de Rembrandt, o mestre da
luz, cuja trajetória inclui trechos obscuros
e giros dramáticos", informa a divulgação
do show, que ficará em cartaz no Teatro Royal
Carré, belíssimo prédio de 1887,
até fevereiro do próximo ano.
NAS OUTRAS CIDADES

A ponte de pedra (1640)
Rembrandt van Rijn
Rijksmuseum, Amsterdã Para os festejos
dos 400 anos, Leyden criou um Centro de Visitantes
de Rembrandt especial, situado no Complexo Scheltema.
Ali os turistas podem obter informações
e material impresso sobre todas as atividades comemorativas
na cidade natal do pintor, além de livros,
cartões postais de pinturas, folhetos e material
áudio-visual. Dali sai uma "Rota de Rembrandt",
caminhada com guia por todo o centro histórico
da cidade, na qual, além de se seguir os passos
do artista quando jovem, é possível
compreender como era Leyden no século XVII,
a Idade de Ouro holandesa.
Já o Museu Municipal De Lakenhal
exibe, até 3 de setembro, "Rembrandt, o
narrador", uma coleção rara de esboços,
onde a temática varia de cenas da vida cotidiana
a imagens bíblicas e mitológicas Em seguida,
de 6 de outubro a 7 de janeiro de 2007, estarão
em destaque "As paisagens de Rembrandt", a
primeira dedicada a este tema. São pinturas,
desenhos e gravuras reunidos para mostrar que o artista
representava o mundo de forma não-realista, misturando
elementos arquitetônicos às paisagens.

Auto retrato (1669, detalhe)
Rembrandt van Rijn
Mauritshuis, Haia
Na cidade de Haia, o museu Mauritshuis
(casa de Maurício de Nassau) promove "Um
Verão com Rembrandt". Na estação
"menos fria" da Holanda, de 26 de junho a
18 de setembro, os visitantes poderão ver o magnífico
trabalho de restauração por que passaram
três obras-primas do artista (entre as 10 que
compõem o ótimo acervo do museu): "Simeão
no templo" (1631), "Homero" (1633) e
o "Auto-retrato" pintado no ano de sua morte
(1669). Pela primeira vez o público poderá
conhecer os segredos do processo de restauração
e as grandes descobertas feitas pelos exames técnicos
das pinturas.
UMA VIDA FORA DO COMUM
Rembrandt Harmenz. van Rijn nasceu
em Leyden em 15 de julho de 1606 e ali viveu até
os 25 anos. Estudou numa escola latina, e em 1620 foi
durante alguns meses aluno da universidade local. Depois,
estudou pintura por três anos com um artista medíocre,
Jacob van Swanenburgh, de modo que muito mais lhe valeram
os seis meses passados em Amsterdã, em 1624,
ao lado de Pieter Lastman (1583-1633), pintor de grande
reputação à época.

A lapidação de Santo Estevão
(1625)
Rembrandt van Rijn
Musée des Beaux Arts, Lyon Diz o "Dicionário
Oxford de Arte", editado no Brasil pela Martins
Fontes, que o pupilo absorveu do mestre "não
só a predileção por temas religiosos
e mitológicos como também o modo de
tratá-los, com gestos e expressões dramáticos,
vívidos efeitos de luz e acabamento brilhante
e meticuloso, como se pode ver em sua primeira obra
datada, 'A Lapidação de Santo Estêvão',
de 1625 (Museu de Belas Artes de Lyon, França)".
Rembrandt ainda não tinha, então, completado
19 anos, e acabara de iniciar suas atividades de pintor,
mas já neste mesmo ano de 1625 se estabelecia
como mestre independente em Leyden.
As pinturas feitas na cidade natal
são, em sua maior parte, imagens de homens idosos,
retratados como personagens bíblicos ou filósofos.
Ele pintou também auto-retratos e de membros
da família, mas seu primeiro retrato sob encomenda
só foi feito em 1631, a pedido de um rico mercador
de Amsterdã, Nicolaes Rut. A obra hoje se encontra
na Frick Collection de Nova York.
Segundo o "Dicionário
Oxford", já citado, Rembrandt, que no ano
seguinte fixaria residência em Amsterdã,
"percebeu que tinha ali uma receita de sucesso,
pois esse tipo de obra domina sua produção
nos primeiros anos na capital. Foi esse o período
mais movimentado de sua vida, e ele rapidamente se estabeleceu
como o principal retratista da cidade: cerca de 50 de
suas pinturas são datadas de 1632 e 1633, e a
imensa maioria é constituída de retratos".

Lição de anatomia do Dr. Tulp
(1631)
Rembrandt van Rijn
Mauritshuis, Haia A partir daí, Rembrandt
só fez crescer e mostrar sua superioridade
sobre os colegas. Um exemplo disso é o quadro
"Lição de Anatomia do Dr. Tulp",
de 1631: pude vê-lo, deslumbrada, na casa de
Maurício de Nassau (Mauritshuis), em Haia,
há três anos, e entendi por que os críticos
o apontam como a obra que "deu vitalidade inteiramente
nova à arte do retrato em grupo". Outro,
"A Ronda Noturna", de 1642, tornou-se a
pintura mais famosa de Rembrandt, e não há
quem não se quede fascinado diante da tela
imensa, iluminando a parede de maior destaque do Rijksmuseum,
principal museu de Amsterdã.
Na vida pessoal, o artista teve um
casamento feliz com Saskia van Uylenburch, como parecem
mostrar os retratos comoventes que fez dela. Mas também
houve muito sofrimento: eles se casaram em 1634, e dos
quatro filhos que tiveram, em oito anos de casamento,
três não completaram dois meses de vida.
Só um menino, Titus, nascido em 1641 —
que se tornou o modelo favorito do pai — chegou
à idade adulta, mas com apenas um ano ficou órfão
de mãe.
Rembrandt sofreu muito com as mortes
da mãe, em 1640, e de Saskia em 1642. Abalado
com essas perdas, passou a se interessar mais pela pintura
religiosa, em detrimento do retrato. Por volta de 1645,
ele contratou Hendrickje Stoffels, 20 anos mais nova,
para ama de Titus, e esta ficou a seu lado até
o fim. Deu-lhe dois filhos, entre eles uma menina, Cornélia,
nascida em 1654 — única dos seis filhos
a sobreviver ao pai. Titus só viveu 27 anos:
casou-se com Magdalena van Loo em fevereiro de 1668
e em setembro morreu; sua filha, Titia, nasceria em
março de 1669.
Rembrandt gastava muito com extravagâncias,
adorava comprar objetos raros e caros para adornar sua
casa e servir de modelos para quadros, seus e de seus
alunos, e isso o levou a sérias dificuldades
financeiras a partir de 1650. Em 1656 ele teve sua falência
declarada, perdeu as belas coleções de
raridades, e quatro anos depois teve de deixar a casa
e se mudar para um bairro afastado e mais pobre de Amsterdã.
Mas continuou recebendo encomendas importantes e trabalhando
normalmente; com inteligência, a mulher Hendrickje
e o filho Titus formaram uma empresa de arte, da qual
Rembrandt era funcionário, e assim foi possível
protegê-lo dos credores.

Mateus e o Anjo (1661, detalhe)
Rembrandt van Rijn
Hermitage, São Petersburgo Livre das
preocupações econômicas, o artista
se sentiu revigorado e trabalhou em dobro: há
mais pinturas suas datadas de 1661 do que de qualquer
outro ano posterior a 1630. Segundo especialistas,
embora seus últimos anos de vida tenham sido
gravemente afetados pelas mortes da segunda mulher
(1663) e do filho Titus (1668), sua obra só
fez crescer e evoluir. Ele se mostrou tão bom
nos desenhos e nas gravuras quanto na pintura, e é
considerado universalmente o maior água-fortista
de todos os tempos. Também se provou excelente
professor, e contou entre seus alunos com nomes que
são destaques na escola holandesa: Carel Fabritius,
Gerard Dou, Aert de Gelder, Philips de Koninck, Nicolas
Maes.
Rembrandt van Rijn morreu a 4 de outubro
de 1669, aos 63 anos, mas seguiu conquistando admiradores:
sua obra alcançou preços altíssimos
já no século XVIII. Durante o movimento
romântico, seu prestígio voltou a subir:
em 1851, o pintor francês Eugène Delacroix
(1798-1863) declarou que no futuro Rembrandt seria mais
valorizado que Rafael, o que foi considerado na época
"uma blasfêmia" pelos artistas acadêmicos.
A profecia se realizou em menos de 50 anos.
— Quem quiser ler mais sobre
a Holanda pode acessar aqui o
texto que escrevi em 2003, após uma viagem
ao país.
Rembrandt:
vida, pinturas, águas-fortes, rascunhos e auto-retratos
(em inglês)
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