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A Compra do Nordeste
Todos
os estudantes brasileiros aprenderam que os holandeses
foram expulsos do Brasil, em 1654, numa guerra valente
movida contra eles por índios, negros e portugueses.
Só faltou explicar como essa gente armada de espingarda,
espada e arco e flecha foi capaz de vencer a principal
potência econômica e militar do século XVII. Em O Negócio
do Brasil - Portugal, os Países Baixos e o Nordeste,
1641-1669 (Topbooks; 264 páginas; 39 reais), o historiador
Evaldo Cabral de Mello conta o que aconteceu. Portugal
comprou o Nordeste dos holandeses.
A
aventura colonial dos Países Baixos começou em 1630,
com o desembarque de 7 000 soldados no Recife. Por duas
décadas eles controlaram uma faixa da costa que ia do
Maranhão às vizinhanças de Salvador, no único pedaço
do Brasil que tinha algo a dizer na riqueza do mundo,
pois ali se plantava cana-de-açúcar. Vencidos pelas
tropas de Henrique Dias, Felipe Camarão e João Fernandes
Vieira, os Países Baixos assinaram a rendição, mas corno
um pacto provisório. Sob ameaça permanente de novos
ataques, no Nordeste e também em Lisboa, Portugal atravessou
quinze anos em 1669, pagando uma indenização de 4 milhões
de cruzados por aquele pedaço do Brasil - um dinheiro
colossal. Era o equivalente a 63 toneladas de ouro,
igual a toda a receita da alfândega portuguesa em um
ano, aí incluído o que se arrancava na América, na África
e na Ásia. Em moeda de hoje, seriam 650 milhões de dólares,
mas essa comparação é enganosa, pois a humanidade vivia
numa idade econômica muito mais pobre e primitiva.
Com
dificuldades irremediáveis de caixa, a coroa atravessou
quatro décadas pagando prestações anuais. A demora foi
tamanha que, entre o início das negociações e a última
remessa, quatro ocupantes diferentes haviam sentado
no trono de Lisboa. De vez cm quando Portugal ameaçava
um calote, o que levou os Países Baixos a despachar
a Marinha de Guerra até a Foz do Rio Tejo. No fim, o
acordo funcionou. "Portugal fez urna aposta que tinha
tudo para dar errado quando quis o Nordeste de volta",
explica Evaldo Cabral de Mello. "Mas deu cedo, graças
às mudanças ocorridas na Europa." Tesouro econômico,
cultural e militar de século XVII, os holandeses eram
tão ricos que podiam aproveitar a vida no conforto civilizado
de seu país, usando aquela roupa preta com colarinho
branco dos quadros de Rembrandt, enquanto contratavam
vizinhos pobres, escoceses, alemães e poloneses para
dar duro corno mercenários na colônia remota. O Brasil
holandês não foi obra de governo nem de conquistadores
destemidos, mas urna operação comercial de uma empresa
privada, a Companhia das Índias Ocidentais. Os acionistas
Países Baixos calcularam investimentos e lucros, contrataram
um executivo com biografia militar e poderes absolutos
para tocar o negócio - Maurício de Nassau - e foram
para casa esperar pelo retorno. (No fim da aventura,
o desastre foi tão grande que a companhia faliu.) O
destino do Nordeste foi resolvido por mudanças no minueto
das potências européias. Os Países Baixos perderam força
e riqueza, a França tornou-se a nova senhora do continente
e a Inglaterra começava a se mostrar grande em todo
o planeta.
Até
agora, nem mesmo autores estrangeiros haviam tratado
da compra do Nordeste com atenção O estudo mais recente,
urna tese do holandês C. van de Haar, de 1961, encerra
as investigações quando a negociação estava em fase
de rascunho "Sempre desconfiei que o fim do Brasil holandês
fora mais complicado do que se dizia nos livros", lembra
Evaldo. Mas precisava pesquisar para saber o que havia
ocorrido," O Negócio do Brasil não é uma obra de primeira
leitura, mas uma jóia de sabedoria que exige o conhecimento
dos dados básicos, como nomes e datas importantes, para
não se perder o fio da meada. Além de narrar as negociações
em todas as etapas, Evaldo ainda ajuda a explicar por
que o Brasil se tomou o que é, com o tamanho que tem,
com a cultura e o povo que possui.
Como
acontece com as grandes obras históricas, o livro promove
um retomo aos acontecimentos, num encantamento que permite
ao leitor de hoje enxergar o mundo com os olhos do século
XVII Ao fim de cada capítulo é fácil perceber que nem
de longe estava pré-determinado que o Brasil iria ficar
do jeito que ficou. Cada um em sua hora, portugueses
e holandeses tiveram alternativas e fizeram opções.
Vendo a História como uma obra humana, e não como uma
sucessão de fatalidades, econômicas ou religiosas, Evaldo
reconstrói fatos mas não despreza oportunidades perdidas.
Respeitável pelo que ensina, seu livro também comove
pelo que permite imaginar Nem dom João IV, el rei de
Portugal, sabia direito o que queda fazer com o Nordeste
e mudou de idéia várias vezes.
O
plano português era levar o Nordeste pagando barato.
Enquanto negociava com os Países Baixos, por baixo do
pano el rei mandava homens e armas para guerrear com
os holandeses. A astúcia acabou após algumas prisões,
quando a artimanha foi descoberta. Desmoralizado, el
rei perdeu o controle da situação. Iniciada como guerrinha
de mentira, a luta de Pernambuco transformou-se em conflito
duro e sangrento, com derrotas pesadas dos holandeses
Temeroso de ser atacado por um inimigo infinitamente
mais forte, que poderia derrubá-lo do trono português
num estalar de dedos, dom João IV resolveu desistir
de tudo e entregar esse pedaço do Brasil à Holanda.
Em troca, ao menos salvava a coroa, garantindo a independência
de Portugal, ainda que amputado da colônia mais rica.
Os holandeses adoraram a oferta. Os portugueses não.
Fundador de um governo fraco, dom João IV não era um
monarca com plenos poderes. Fazia tantas consultas antes
de tomar decisões que o embaixador francês em Lisboa,
legítimo representante do absolutismo em vigor cm seu
país, se queixava de que "para infelicidade deste Estado,
a voz do povo aqui é muito escutada". A entrega do Nordeste
era apoiada por uma voz no auge de seu prestígio, o
Padre Antônio Vieira. Mas isso era pouco. A Inquisição
não aceitava a cessão porque implicava transferir gentios
brasileiros para hereges protestantes. Os nobres não
queriam perder a região que pagava as pensões com que
eram vestidos, alimentados e aquecidos. Para os comerciantes,
ali era o lugar certo para enriquecer. Desperto pela
independência e pelo culto a dom Sebastião, que morrera
na luta contra os mouros, o povão de Lisboa considerava
a entrega um insulto. Com urna rebelião vitoriosa na
colônia e a metrópole contra si, dom João IV teve de
curvar-se.
Tataravô
de Pedro I, que proclamou a independência do Brasil,
dom João IV ficou conhecido por ter libertado Portugal
após sessenta anos de domínio espanhol. O livra também
trata dessa epopéia, delicada e incerta. Graças a urna
revolta na região da Catalunha, o país escapou da espada
do vizinho poderoso. Obrigada a se proteger do perigo
francês, a leste, a Espanha ficou sem topas para impedir
o levante português, a oeste. Dom João IV era um rei
que ninguém levava a sério Parecia tão óbvio que seu
país seria invadido outra vez que Holanda e Espanha
fizeram uma nova partilha no mapa. A Espanha retornava
Portugal. A Holanda não só mantinha o Nordeste mas arrematava
também o resto do Brasil.
Evaldo
retrata dom João IV cercado por auxiliares que repetiam
máximas do florentino Nicolau Maquiavel, como "todo
o útil é honesto", e recomendavam perder "o escrúpulo
disso que chamam enganar". A corte portuguesa estava
sintonizada. Dizendo que a política não se subordina
à religião, Maquiavel foi o grande ideólogo do século
XVII. Era tão popular entre homens de governo que o
Vaticano desistiu de proibir suas obras, preferindo
censurar trechos que considerava heréticos. Longe dos
gabinetes, citava-se Maquiavel sem que fosse necessário
ler um único livro seu. Para Evaldo, na época ele "impregnara
a atmosfera intelectual como hoje fizeram o marxismo,
a psicanálise e o estruturalismo".
O Negócio do Brasil é uma obra que pensa, compara e
explica. Com uma erudição que flui, sem pedantismo,
Evaldo localiza fios que mostram que o Brasil holandês
foi bem mais do que um episódio pitoresco numa colônia
remota. Atraídos por uma riqueza tão procurada, o açúcar,
e também por um elemento que mobilizava recursos fabulosos,
a posse de territórios, personalidades como Luís XIV,
o Rei Sol da França, Oliver Cromwell, o Protetor da
Inglaterra, e também Felipe IV, da Espanha, entram e
saem da obra como entraram e saíram das negociações
diplomáticas. "Esse livro é uma peça rara: uma contribuição
brasileira importante para explicar a história da Europa",
afirma Luiz Felipe de Alencastro, professor da Universidade
Estadual de Campinas. Para ele a obra é comparável à
antológica biografia de Antônio Vieira escrita por João
Francisco Lisboa e publicada em 1891. Com seis livros
publicados, Evaldo Cabral de Mello é, possivelmente,
nosso maior historiador vivo e, com certeza, o mais
produtivo. Embaixador aposentado, vivendo no Rio de
Janeiro, ele fez de O Negócio do Brasil uma obra marcada
pelo esforço de pesquisa e até por um lance de sorte.
Em 1970, num sebo de Lisboa, adquiriu uma edição rara
com os três volumes da correspondência de Francisco
de Sousa Coutinho, embaixador português em Haia no século
XVII. Convencido de que a obra poderia ser útil um dia,
resolveu guardá-la por quase trinta anos. Estava certíssimo.
Difíceis de encontrar hoje em dia, as cartas de Sousa
Coutinho fornecem boa matéria-prima ao livro. Em outras
buscas, Evaldo descobriu preciosidades na biblioteca
do Itamaraty, no Rio. No Recife, consultou as 6.000
páginas da versão original, em holandês, de um cartapácio
intitulado Negócios do Estado e da Guerra em Torno das
Províncias Unidas dos Países Baixos, 1621-1668. Para
se proteger da poeira e do mofo, vestiu máscara de médico.
"Fazia pelo menos quarenta anos que ninguém abria aquilo",
conta. Apesar dos cuidados, pegou uma amigdalite. Em
busca de um livro raríssimo, Evaldo recorreu a um filho
que mora nos Estados Unidos. O exemplar acabou resgatado
por uma estagiária do gabinete do senador Ted Kennedy.
Em Lisboa, um aluno, Tiago dos Reis Miranda, foi atrás
de manuscritos, depois copiados em xerox e enviados
ao Brasil. Em São Paulo, o pesquisador Pedro Puntoni,
que fez sua tese de mestrado e de doutorado inspirada
pela lavoura intelectual de Evaldo, também se mobilizou.
"Ele tem obsessão por documentos", conta Puntoni.
Medalhões
do meio acadêmico utilizam estudantes não só para localizar
documentos, mas até para ler a papelada e selecionar
o mais interessante. Evaldo faz questão de examinar
tudo o que encontra, folha a folha. Não chega ao ponto
de ler palavra por palavra sempre. Muitas vezes, atrás
de uma pista promissora, apenas percorre as páginas
com o dedo indicador Com esse cuidado, na obra-prima
Olinda Restaurada conseguiu apresentar o melhor estudo
já realizado sobre as técnicas de guerra que os homens
de Pernambuco empregaram contra os holandeses. Em A
Fronda dos Mazombos, traçou um painel vigoroso e revelador
do episódio, conhecido como Guerra dos Mascates. O mesmo
fez agora, ao descobrir que Portugal comprou o Nordeste.
Se você busca originalidade no trabalho, não pode delegar
a pesquisa", ensina. "E no contato pessoal com o documento
que vem a intuição, a idéia."
Paulo
Moreira Leite
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