Topbooks lança livro de Ipojuca, colunista do MSM

PUBLICADO NO SITE MÍDIA SEM MÁSCARA, 8 DE MAIO DE 2003

A Topbooks está lançando Politicamente Corretíssimos, de Ipojuca Pontes, uma soma de ensaios e artigos sobre política, economia, arte e cultura, em que o jornalista, cineasta e ex-secretário Nacional da Cultura manifesta pontos de vistas originais sobre idéias, fatos e personalidades da vida nacional e internacional. Na discussão das idéias e no questionamento de juízos, o livro trata de assuntos os mais diversos, que vão desde a abordagem da moralidade e do pensamento pouco original de Marx, passando pelo levantamento das raízes do terrorismo ocidental moderno, até chegar à dissecação do Estado-mecenas e sua fauna cultural e a análise da desencontrada alma brasileira. Ao todo, são 50 textos selecionados e de leitura fácil e abrangente.

O autor - jornalista e cineasta desde os primórdios dos anos 60 - tem larga soma de experiência na vida política e cultural brasileira, que se inicia na cobertura como repórter de jornal do fogo revolucionário das Ligas Camponesas de Francisco Julião, em Pernambuco e na Paraíba (onde nasceu), e se projeta com a realização do documentário "Os Homens do Caranguejo", primeiro filme brasileiro sobre o ciclo da fome nas áreas ribeirinhas do Nordeste (consagrado por seis láureas nacionais e internacionais) e culmina com curta e polêmica passagem pela Secretaria de Cultura Nacional, onde tentou, sozinho, modificar os vínculos estabelecidos pela ditadura militar e a Nova República de José Sarney entre órgãos da cultura oficial e uma elite cultural viciada nas benesses extraídas dos cofres públicos e subtraídas, a muque, do bolso dos trabalhadores e dos empresários.

Ao longo dos anos Ipojuca Pontes escreveu quatro livros ("Cultura e Desenvolvimento", "Cinema Cativo", "Brasil Filmes S/A" e o roteiro de "Pedro Mico") e compartilhou, como produtor executivo, da montagem de peças teatrais ("Um Edifício Chamado 200", "O Homem de La Mancha", "Um Bonde Chamado Desejo", "Encontro no Super-mercado"), além de dirigir "Os Emigrados", de Mrozek, distinguida com o prêmio Molière de melhor interpretação e que participou, no campo teatral, do processo de anistia em curso no final dos anos 70. No cinema, além de escrever inúmeros roteiros e argumentos, produziu e dirigiu cerca de dez filmes, de ficção e documentário (entre outros, "Os Homens do Caranguejo", "Canudos", "Poética Popular", "Cidades Históricas", "Rendeiras do Nordeste", "Portrait of Vaquero", "A Volta do Filho Pródigo" e "Pedro Mico"), conquistando mais de trinta prêmios nacionais e internacionais.

O filósofo Olavo de Carvalho saúda Politicamente Corretíssimos como uma "mistura de ensino e divertimento que, segundo Horácio, caracteriza a boa obra literária". O jornalista e ex-deputado socialista Sebastião Nery ressalta que, no livro, "Ipojuca Pontes dá uma lição de coragem, audácia, desafio. Sobretudo, enfrenta, com a segurança de quem leu tudo dele e sobre ele, o maior mito do século - que é Marx e o marxismo". O escritor José Alberto Gueiros realça a sua condição de "obra que se contrapõe às numerosas tentativas radicais de se instituir no Brasil uma era de pensamento único". E o poeta e editorialista do Jornal da Tarde, José Nêumanne Pinto, acha que o livro é atualíssimo e tem muito a ensinar: "Quem quiser ler e aprender" - diz - "pode fazê-lo neste livro. Bom proveito!".

Embora se considere um cristão manso e humilde de coração, Ipojuca é tido pelos amigos e inimigos como um ser imprevisível, embora não se lhe negue acentuada dose de coragem. Só para fixar sua breve convivência com o poder, na posse de Collor recusou ser apresentado a Fidel Castro pelo diplomata Ítalo Zappa, alegando como justificativa, e diante do ditador, que não podia apertar a mão do convidado visto que "em Cuba as relações culturais são carcerárias". E ao renunciar ao posto de Secretário Nacional de Cultura, com status ministerial, enviou carta ao presidente eleito (depois de vê-lo preservar nos cargos-chave do governo os quadros funcionais estatizantes da esquerda festiva e da ditadura militar), prevendo, um ano e meio antes, o "irrecorrível impeachment", pois, segundo entendia, "seus adversários políticos e ideológicos não são amadores ou apenas provincianos deslumbrados, têm largas décadas de experiência na conspiração e na luta sem quartel pela tomada do poder, e, agindo dentro da própria máquina governamental, não vão abrir mão de derrubá-lo".

Entrevista com o autor

Por que o sr. resolveu lançar este Politicamente Corretíssimos?
- Descobri que os textos guardavam entre si uma unidade surpreendente e, o que era estimulante, questionavam temas e fatos atualíssimos no contexto nacional e internacional. Por exemplo: no exame do recrudescimento do terrorismo no seio do estado moderno, antes do dia 11 setembro em Nova Iorque, e na expansão de sua prática sistemática no ocidente a partir da divulgação do "Catecismo Revolucionário", de Serguei Netchaiev, adotado fielmente por Lênin, Fidel e Marighella nas suas escaramuças revolucionárias, e que, salvo exceção, só os profissionais do terror conhecem. No caso da flexível ética marxista, hoje bastante em voga, faço levantamento acurado em "Sobre a moralidade de Marx" da conduta e os métodos utilizados por Karl Marx, o pai do "socialismo cientifico", junto a amigos, familiares e adversários em geral, que nos leva à explicação possível da criminosa moralidade adotada por tipos como Lênin, Stalin, Fidel Castro e Pol Pot. No estudo denominado "Marx e o Pensamento dos Outros", analiso de forma didática como Marx chegou ao conceito do Materialismo Histórico, que julgo sumamente oportuno e esclarecedor, visto que no Brasil o marxismo, ainda que retardatário, predomina de modo absoluto como "práxis" acadêmica.

O Sr. trata de modo impertinente a questão do Estado no Brasil. Faz sentido discutir o "papel do Estado"?
- A questão do Estado no Brasil é um caso de polícia. A nossa frágil democracia, no momento, vem sendo encaminhada, muito manhosamente, em cima do mito da "participação", da supremacia do público em detrimento do privado. O modelo, delineado por Rousseau, é de origem grega e conciliava democracia com escravidão, ou seja, na melhor das hipóteses, uma democracia de poucos. Tudo isso nos leva a Gramsci, o fanático teórico comunista italiano, com sua "revolução passiva", em que o Estado torna-se instrumento do "Partido Hegemônico", e é elevado à categoria do Grande Pensador e Agente da transformação revolucionária. Na leva do Estado "participativo", apanágio de corporações e conselhos na eterna busca do "consenso", são estabelecidos amplos privilégios às legiões de burocratas, corporações e castas disfarçadas que usufruem diuturnamente das isenções fiscais, isonomias, empréstimos a fundo perdido, salários mirabolantes e aposentadorias milionárias. A malta de Brasília está se apropriando hoje de cerca de 40% do que a sociedade produz (o PIB, algo em torno de R$ 1 trilhão e 90 bilhões), torrando tudo com a própria máquina e seus programas quase que integralmente inúteis. Como o governo toma a poupança privada, empresários e forças produtivas não têm recursos para investir nos seus negócios e indústrias, e, por extensão, não se cria emprego, valor agregado nem muito menos o desenvolvimento científico e tecnológico. Não é de estranhar que a miséria e a violência se alastrem em proporção geométrica na medida em que o estado, com sua burocracia e legiões de privilegiados, volta-se para a "inclusão social" e o combate à fome. É um massacre. Afonso Arinos, o nosso grande mestre, dizia que o Brasil, antes de ser nação, era "império", mas não um império do tipo romano, mas "império interno", o governo colonizando o próprio povo. Qual é a dúvida?

Mas existe outro tipo de democracia?
- Claro, a democracia constitucionalmente representativa dos ingleses e dos americanos, por exemplo, onde o individuo limita o Estado - e não o Estado o indivíduo, como ocorre no Brasil e no grosso da América Latina (o Chile parece que está escapando do carma). O objetivo das democracias que deram certo não é a soberania do Estado, especialmente intervencionista, mas a segurança do privado e a vigência das liberdades individuais. Só quando se respeitam as liberdades privadas e individuais a sociedade cresce econômica e politicamente. É respeitando a ação e a eficiência da livre empresa e tosando as garras das corporações e a voracidade da máquina estatal que a sociedade prospera. Fora disso a democracia desanda em manhosa usurpação escravocrata, ainda que acobertada por adjetivação tipo "democracia direta", "participativa" ou "pluralista". No Brasil atual, o estado tornou-se patrimônio de uma gigantesca oligarquia burocrática que usufrui (por força da violência legal e da ignorância da população) de forma genérica de quase toda riqueza produzida pela sociedade. De fato, sobra uma "baba" para as corporações e as castas de serviço que coonestam o sistema. Mas o povão, o velho povão - este só trabalha e paga impostos. Seria bom lembrar a Lula que a falência das repúblicas socialistas e das democracias populares (que não eram democracias nem populares) ocorreu quando caiu o mito das transformações revolucionárias e as idéias de liberdade e justiça foram congeladas em burocracia - o reinado tirano da nomenklatura.

O Sr. tem consciência de que sua passagem pela Secretaria Nacional de Cultura é vista como negativa por certa camada da nossa vida artística e do showbizz?
- Não só de certa camada da vida artística e do showbizz, mas da burocracia também. Na breve temporada que passei em Brasília, fui ameaçado e vilipendiado dia e noite pela fauna da nomenklatura. O que a ditadura militar e o hiper-inflacionário (e estróina) governo da Nova Republica levaram anos para criar e expropriar dos trabalhadores e do cidadão-contribuinte, ajudei a desmontar em menos de seis meses. Se você disser a um "semideus" da vida artística que, ao usufruir os milhões de reais dos cofres públicos e manter status de beautiful people, é ele também um "cruel" representante das "elites" que despreza, simplesmente ficará chocado e sua reação será a de, no mínimo, cuspir na sua cara. Mas o fato é que o sujeito que tem acesso anual aos mi-lhões ou centenas de milhares de reais da Petrobrás, jamais vai aceitar que o escorchante preço do transporte coletivo ou do bujão de gás que a massa escravizada paga é também um pesado ônus que o seu privilégio de "artista escolhido" impõe. Essa gente, para mim, é inconsciente ou hipócrita, e não tem a menor diferença da "elite exploradora" que diz desprezar. De fato, o governo Collor racionalizou administrativamente a máquina burocrática no âmbito da cultura e fechou a Embrafilme, reconhecido instrumento de corrupção e privilégios. Como eu era do ramo e não tinha medo, ajudei a fazer o que mandava minha consciência de democrata. Agora estão acusando o "oriental" Gushiken, secretário de Lula, de ser uma nova versão de Jdanov, criador do realismo socialista e do antiamericanismo como forma sistemática de atuação cultural. É provável que seja. Mas o que foi Nelson Pereira dos Santos, um dos atuais mentores da escalada estatizante do cinema, senão um religioso divulgador do Jdanovismo no Brasil?

O fato é que, com a estatização do cinema - assunto que abordo em Politicamente Corretíssimos - a Petrobrás terá mesmo, como vem fazendo, de financiar a fundo perdido a produção, exibição e até financiar a ida do espectador ao cinema - financiamento, óbvio, distribuído politicamente pela Petrobrás, via preço (e lucro) escorchante do combustível e do bujão de gás arrancado do bolso da patuléia ignara. Mas seria bom avisar a Lula que Gorbachev, face à fome de 45 milhões de russos, fechou as torneiras da Goskino (comitê de cinema comunista) na extinta URSS e o próprio Fidel, a quem nosso presidente admira, limitou os recursos para a produção cinematográfica em Cuba, hoje circunscrita a três filmes anuais. Na Rússia, hoje, quem quiser milhões de dólares para fazer filme, pode fazê-lo. Mas terá de sacar do próprio bolso. Mas quem terá coragem de dizer isso a Lula, visto que Lula não é Collor?

O que o Sr. acha que vai ocorrer com o lançamento de seu Politicamente Corretíssimos no atual estágio da vida brasileira?
- Acho que desabará uma total cortina de silêncio sobre o livro, ou, por outro lado, haverá manifestações criticas de ódio e rancor. As duas coisas não me preocupam. Tenho o lombo grosso e já não sofro com o criminosamente adverso, como no passado. Mas que este livro será amplamente lido, mais cedo ou mais tarde, não tenho o menor receio.



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