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Memórias de um leitor de poesia & outros
ensaios
Certa feita o filólogo
Antônio Houaiss ressaltou, entre outras qualidades
da prosa de ANTONIO CARLOS SECCHIN, o “esplêndido
domínio verbal”. Poeta, crítico,
professor, membro da ABL, bibliófilo de renome,
ele reafirma, nesta nova antologia de ensaios, o perfeito
controle de seus instrumentos de análise e a
versatilidade com que sabe se desempenhar no exame dos
mais variados temas de nossa literatura.
Pelo
muito que contém de experiência vivida,
destaca-se, em especial, a conferência que abre
o presente volume. Nela o experiente professor que Secchin
é – por vocação e gosto –
disserta, com apurado senso analítico e mirada
hermenêutica, a propósito do seu singular
modo de ver e expor os estágios que envolvem
o ato de ler e apreender as especificidades de um texto
literário.
Para
além da perspicácia com que expõe
sua visão do tema, importa ressaltar o teor autobiográfico
que o texto evidencia. Numa passagem decisiva, observa:
“Reiterar o sentido do sentido é fazer
paráfrase; assinalar a forma da forma é
limitar-se à descrição técnica;
mas perceber de que modo e em que direções
os sentidos se constroem e se expandem através
da materialidade do texto, isto, sim, pode ser entendido
como interpretação”.
O
exame da fina ensaística de Secchin sugere estarmos
diante de um intérprete do fenômeno literário
que não se deixa enlear pela camisa-de-força
de escolas ou métodos de interpretação,
capaz de temperar com argúcia e sensibilidade
raras o que mais lhe convém no campo da teoria.
José Paulo Paes acertou em cheio quando afirmou
que ele escrevia “em linguagem despojada, apresentando
aquela virtude fundamental que é chegar sempre
ao cerne do problema”.
Na
verdade, o crítico de MEMÓRIAS DE UM
LEITOR DE POESIA & OUTROS ENSAIOS só
admite a autoridade do texto com o qual se defronta.
Pode-se afirmar que Secchin manipula seus pontos de
vista tendo como norte o olhar agudo e o bom gosto literário.
Se no exame da lira XIX da Marília de Dirceu,
de Tomás Antônio Gonzaga, intuímos
a familiaridade do ensaísta com o vocabulário
da psicanálise, em outros textos se revelam os
melhores frutos de pesquisas do refinado bibliófilo
que ele sempre foi.
Ao
precioso enfrentamento da lírica do árcade
se seguem análises interessantíssimas
de escritores tão diversos quanto Machado de
Assis, José de Alencar, Mário Pederneiras,
Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius
de Moraes, Edla van Steen e Chico Buarque, entre outros.
Em todas Secchin demonstra invejável conhecimento
das fontes, não só as principais como
as secundárias; mas o domínio da fortuna
crítica não solapa, em nenhum momento,
sua inata predisposição para identificar
detalhes novos e propor uma leitura que enriqueça
os temas abordados.
Este
importante livro vem acrescido de uma seção
final com um depoimento e duas entrevistas do autor;
lidos agora em conjunto, tornam-se um documento de sua
fidelidade às letras, verdadeiramente sacerdotal.
Secchin há muito se impôs refletir sobre
nossa literatura e divulgá-la, numa incansável
e generosa prática do magistério –
não apenas em universidades nacionais e estrangeiras
como, igualmente, em jornais e revistas, em conferências
nos mais diversos estados do Brasil e no exterior, e
ainda na organização de antologias e de
obras completas que já se tornaram referência
de qualidade, a exemplo das de Cecília Meireles,
João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar.
Cultor
da enunciação elegante e precisa, Antonio
Carlos Secchin é também – coisa
rara! – um intelectual alheio a grupos e partidos;
a ele só interessam a forma e a mensagem contida
nas obras que analisa e a voz de sua consciência
crítica.
José Mario Pereira
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