A recepção
da sociologia alemã no Brasil
Qual
é a influência do pensamento sociológico
alemão, expoente daquilo que de melhor se encontra
no centro da sociologia moderna, sobre a sociologia
produzida num cenário cultural periférico
como é o brasileiro? Devagar: esta não
é a questão que preocupa a autora no conjunto
de estudos intitulado A RECEPÇÃO
DA SOCIOLOGIA ALEMÃ NO BRASIL. Sua preocupação
é bem outra. Ela quer conhecer, sim, a literatura
sociológica clássica e contemporânea
(esta, como referência constante, embora em segundo
plano na exposição) alemã, e certamente
não quer fazê-lo para deter-se nela, num
exercício de pura erudição: interessa-lhe
algo bem mais fundo, e fascinante como desafio intelectual.
Seu
propósito consiste em trazer elementos para um
projeto em que está envolvida há anos,
e que prossegue com pleno vigor. Trata-se de submeter
temas e autores da sociologia alemã a um tratamento
que permita vê-los pelo prisma daquilo que denomina
“lógica da leitura e reelaboração
das idéias”. Trata-se de ver como idéias
e conceitos produzidos num específico cenário
— o alemão — passam pelo crivo de
um sistema intelectual também específico
— o brasileiro — que estabelece as condições
para a sua recepção. Nada de influências
ou de meros empréstimos conceituais, pois: está
em jogo um conjunto de condicionantes e procedimentos
que conferem ao receptor papel ativo nesse processo,
em que a obra não é um dado sem mais,
é um campo de forças atravessado pelas
suas condições de produção
e de recepção.
Um
aspecto interessante do modelo analítico adotado
por GLAUCIA VILLAS BÔAS nestes
ensaios reside na possibilidade de análises comparativas,
em que se multiplicam os prismas de recepção
e reelaboração. É muito feliz a
iniciativa de aplicar esse enfoque no exame de um caso
particularmente significativo para o pensamento social
no Brasil e na América Latina: o de Karl Mannheim.
Examinar essa obra multifacetada na sua presença
em dois contextos sociológicos nacionais diversos
é tarefa digna de um esforço intelectual
tão notável como o que encontramos neste
volume.
Gabriel
Cohn
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