Antígona

Antígona – em tradução poética com comentário... por que esta fórmula? Porque ela foi feita especialmente para o palco e para uma encenação reunindo a criação ao trabalho crítico.  Para o palco, a versão de Lawrence Flores Pereira tinha que conciliar a beleza rítmica e a fluidez com uma dicção facilmente compreensível. Fácil de entender porém não óbvia, nem explicativa, esta versão segue o texto grego verso por verso, e torna audível o que há de obscuro, denso e ambíguo no original.

Os amadores da tragédia sabem que há muitas passagens até hoje suscetíveis de acirrados debates. Não é fácil orientar-se entre as dezenas – senão centenas – de abordagens produzidas nos últimos dois séculos por filósofos e filólogos, poetas e pensadores.  A introdução e o comentário de Kathrin Holzermayr Rosenfield ajudam a mapear as diferentes possibilidades de ler e interpretar essa peça consagrada.

A nova interpretação de Kathrin parte, de um lado, das leituras “clássicas” que privilegiam a beleza da heroína e opõem sua nobreza à tirania de Creonte; de outro, se inspira da estranha versão do poeta alemão Hölderlin, que insistiu sobre a neutralidade do Coro – imparcialidade essa que expressa um apreço mais equilibrado de ambos os protagonistas. Hölderlin foi também o primeiro leitor que, antes de Nietzsche, percebeu a importância dos cantos corais e a complexidade da lírica coral da tragédia. Os dois últimos aspectos fornecem uma nova perspectiva, na qual esse drama aparece como legitimamente trágico: para além da simples oposição (cristã) do bem e do mal, começa a aparecer o drama político e genealógico ocultado pelo medo e pela retórica do palácio.

A bela e piedosa Antígona recupera os traços “crus” e inquietantes do seu pai Édipo, sua coragem recebe os reflexos maravilhosos e terríveis que são a essência do trágico. Seu desafio não é somente religioso e funerário, mas diz respeito ao seu estatuto jurídico na casa de seu pai morto e sem descendência após a dupla matança de Eteocles e Polinice. O gesto principesco com o qual ela reivindica esse estatuto faz dela uma rival e inimiga de Creonte, que procura purificar a cidade eliminando as marcas da maldição do incesto. Assim, ela e Hemon não são esmagados por um rei cego e insensível, mas por um pai extremamente preocupado com o bem de seu único filho, e um governante que procura sinceramente salvar sua cidade.

Esse novo aspecto não anula, bem entendido, a questão da piedade. Mas a questão de como honrar os mortos – em si mesma já complicada por causa do fratricídio – complica-se ainda mais devido ao miasma do incesto. É essa coincidência de problemas e direitos heterogêneos que fornece o enredo trágico de Antígona, dando a essa heroína sua aura enigmática e grandiosa. A tradução de Lawrence Flores Pereira procura reproduzir em português o frêmito inquietante das ambigüidades do original.

Antígona pertence a todos, às mães da Praça de Maio e a escritores-ideólogos como Brecht, aos historiadores e aos críticos literários, aos políticos como às almas com afãs místicos e – sobretudo – ao público do teatro. A peça de Sófocles cala fundo porque toca na zona sísmica que une o desejo e o dever, a lei e as pulsões obscuras, a ética e algo inominável, o intangível que resiste à nomeação. Foi a combinação do trabalho intelectual e do poético que inspirou o diretor Luciano Alabarse e seu elenco – mais de 40 criadores, atores e músicos, bailarinos e cantores. Kathrin, Luciano e Lawrence levaram o espetáculo aos palcos de Porto Alegre em 2004 e 2005, onde Antígona foi vista por mais de 15 mil espectadores.



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