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Benjamin
Constant formulou suas idéias sobre a liberdade
num período turbulento da história, marcado
pela Revolução Francesa e as guerras napoleônicas
– e também pelas idéias de teóricos
do liberalismo francês, como Frédéric
Bastiat, Charles Dunoyer, Charles Comte, Gustave de
Molinari, Paul Leroy Beaulieu, Émile Faguet e
Yves Guyot, entre outros. Influenciado pela teoria jurídica
de Montesquieu e o pensamento econômico de Adam
Smith e Jean-Baptiste Say, defendeu com brilho as liberdades
civis na Câmara dos Deputados, ao lado de Lafayette,
o que levou Victor Hugo a afirmar: “Constant foi
um daqueles homens raros que sintetizaram e aprimoraram
as grandes idéias gerais de seu tempo”.
Pensador
fundamental da tradição liberal clássica
que vai de Montesquieu a Tocqueville, Henri Benjamin
Constant de Rebecque nasceu em 25 de outubro de 1767
em Lausanne, na Suíça, onde a família
huguenote da mãe buscara refúgio devido
à perseguição religiosa. Daí
a importância da herança protestante calvinista
em seu pensamento. Enviado a Edimburgo, na Escócia,
para estudar, ele travou contato com as obras de David
Hume, Adam Smith, Edward Gibbon e Edmund Burke. Essas
leituras, ao lado da de Montesquieu, influenciaram decisivamente
a formação de Constant, tanto que até
sua morte, aos 63 anos, empenhou-se em levar para a
vida política francesa os princípios do
liberalismo clássico inglês.
Em 1794, Constant inicia uma intensa relação
intelectual e política com Madame de Staël,
autora de importantes obras literárias, e filha
do financista e político Jacques Necker; no ano
seguinte se divorcia de Wilhelmine von Cramm, com quem
casara em 1789, e vai viver em Paris com a amante. Embora
não fosse cidadão francês nem tenha
testemunhado os dias mais terríveis da Revolução,
torna-se defensor do Diretório e luta pela instauração
de uma república em que a cidadania se baseasse
na propriedade privada.
Em
1799, Napoleão Bonaparte o nomeia membro do Tribunato,
mas três anos depois Constant entra em choque
com o regime bonapartista e é demitido. Na companhia
de Madame de Staël e da filha Albertine, nascida
em 1797, segue para o exílio em Coppet, perto
de Genebra, e em Weimar, na Alemanha, onde convive com
Goethe e Schiller. Em 1803, confessa, nos Diários
íntimos, a angústia que lhe provoca
sua relação com Madame de Staël e
o desejo de abandoná-la, o que só fará
em 1811 (embora já tivesse casado secretamente,
em 1808, com Charlotte de Hardenberg). Paralelamente,
trabalha numa análise histórica do sentimento
religioso, De la religion considérée
dans sa source, ses formes et ses développements,
editada postumamente, junto com seus diários.
Escrito durante o ocaso da era napoleônica e publicado
pela primeira vez em 1815, Princípios de política
aplicáveis a todos os governos – que
a Topbooks edita agora no Brasil em parceria com o Liberty
Fund – é uma exposição lúcida
dos valores associados à defesa da liberdade,
em oposição ao despotismo. Este livro
contém alguns dos principais ensaios de Constant,
nos quais são desenvolvidos princípios
relativos ao liberalismo econômico e ao papel
do Estado. A oposição a Napoleão
também o levara a escrever, em 1814, uma de suas
obras mais famosas: De l' esprit de conquête
et de l' usurpation dans leurs rapports avec la civilisation
européenne.
Apesar
de defender uma monarquia constitucional e um conselho
aristocrático supremo, Constant desenvolveu influentes
teorias sobre governos parlamentares. Após identificar
com clareza os perigos de uma maioria déspota
com base na volonté générale de
Jean-Jacques Rousseau, tenta definir como e quando a
liberdade dos cidadãos é ameaçada
pelo governo, argumentando que uma legislação
equivocada pode criar prejuízos de maior amplitude
que erros individuais, já que afeta todo o Estado.
Por isso, defende a liberdade de imprensa como pré-condição
para o exercício responsável do poder.
Para ele só existiam dois poderes: a força
(ilegítimo) e a vontade geral (legítimo).
Era fundamental conceber corretamente a natureza desta
última para determinar com precisão sua
abrangência; do contrário, a tentativa
de defesa da liberdade poderia simplesmente suprimi-la:
“O reconhecimento abstrato da soberania do povo
não aumenta em nada a soma de liberdade dos indivíduos,
e, se lhe for atribuída uma abrangência
indevida, pode-se perder a liberdade, apesar e contra
esse mesmo princípio”, escreveu. A delimitação
da soberania, portanto, não podia ficar nas mãos
dos que exercem o poder – já que a tendência
de todo governo constituído é a autopreservação
– e sim ser uma atribuição da própria
sociedade.
Entender
a soberania como ilimitada era, para Constant, a grande
falha dos que a criticavam no Ancien Régime,
identificando-a com o absolutismo monárquico.
Foram atacados os reis mas não a fonte do despotismo,
que radicava na concepção inadequada de
soberania como algo sem limites. Assim, o absolutismo
de um, ou de poucos, foi substituído pelo de
muitos, sem que mudasse a forma de se entender a soberania:
“Numa sociedade fundada na soberania do povo,
é evidente que nenhum indivíduo ou classe
tem o direito de submeter o resto à sua vontade
particular; mas é falso que a sociedade, no conjunto,
possua sobre seus membros uma soberania sem limites”,
afirmou. Antes de Lord Acton, Constant já alertara
para os perigos do poder, capaz de corromper até
mesmo os cidadãos mais bem intencionados: “O
poder arbitrário destrói a moralidade.
(...) Quando a soberania é ilimitada, não
existem formas de proteger os indivíduos dos
governos”, escreve.
Eleito
deputado após regressar a Paris, Benjamin Constant
se tornou um dos líderes do jornalismo liberal.
Entre 1819 e 1830, excetuando-se o ano de 1823, integrou
o Parlamento francês, onde se fez respeitar como
uma voz liberal que apoiava o movimento democrático
naqueles anos difíceis. Morreu na capital francesa
a 8 de dezembro de 1830, no auge da carreira política
– poucos meses depois de nomeado presidente de
uma seção do Conselho de Estado, sob o
reinado de Luís Felipe. Sua obra exerceu grande
influência no pensamento brasileiro durante o
Império e nos primeiros anos da República,
e teve em Dom Pedro II um de seus leitores mais atentos.
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