Caminhos
do açúcar
Admiro
no Raul Lody o talento que ele tem para escrever muito
claramente a respeito de qualquer assunto que aborda.
Lendo este seu Caminhos do açúcar, me
vi como que transportado para a casa do meu querido
Gilberto, de quem não canso de dizer que foi
a grande figura de mestre que me ficou. Lendo os livros
de Gilberto Freyre eu passei a compreender o Brasil
em todas as suas nuances. E sempre busquei aproveitar
ao máximo os momentos em que gozava de tê-lo
como companhia. Homem de acentuado sense of humour,
Gilberto cultivava suas amizades quase que com a mesma
dedicação que despendia para a elaboração
de suas obras. Vivenda de Santo Antônio de Apipucos,
quanto do mundo reside nela! E quantas boas lembranças
eu guardo de lá!
Não deixa de ser com certa nostalgia que o universo
freyriano aparece neste novo livro do Raul Lody. Por
alguma razão, a forma como ele foi concebido,
buscando abarcar vários temas abordados por Freyre
em obras como Nordeste, Guia prático, histórico
e sentimental da cidade do Recife, Açúcar
e Apipucos: que há num nome?, me fez recordar
o poema “Antologia”, do meu querido Manuel
Bandeira, no qual faz uma espécie de apanhado
de belos versos seus, reunindo-os no que se assemelha
a um flashback instantâneo.
Nada parece escapar ao olhar perscrutador
do Raul Lody. Ele, que também teve o privilégio
de conviver com Gilberto – sua recordação
do quase ritual em torno do conhaque de pitanga é
como que uma celebração disso –,
conseguiu aprender com seu mestre a amar o Recife e
as coisas de Pernambuco como só os arraigadamente
recifenses e pernambucanos conseguem, porque esse apego
telúrico é ao mesmo tempo paz e revolta,
raiva e mansidão, desejo e devoção.
Este Caminhos do açúcar veio a
lume para nos dizer que o mundo que Gilberto Freyre
criou – ou recriou, como queiram – é
um mundo cuja abrangência vai muito além
das simples especulações e dos meros traçados
explicativos a respeito disto ou daquilo, porque, como
bem evidencia o seu autor, Gilberto Freyre observava
o homem que, ainda que situado no trópico, é
um uomo universale, uma vez que carrega em seus
modos de comer e de vestir, em suas maneiras de brincar
e de amar e em suas buscas do sobrenatural uma mistura
de elementos que podem muito bem, respeitando as singularidades
das culturas, ser encontrados nos quatro cantos da Terra.
É, portanto, com grande alegria
e regozijo que louvo este novo livro do Raul Lody, porque
encontro em seu autor um fiel aprendiz e seguidor desse
mestre de todos nós, que foi Gilberto Freyre,
de quem sempre me esforcei por seguir-lhe as pegadas
pelas areias do tempo.
Edson Nery da Fonseca
Professor Emérito da UnB e autor,
entre outros, de
Gilberto
Freyre de A a Z (2000) e Em torno de Gilberto Freyre
(2007)
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