Em
busca de um mundo perdido – Métodos de
flauta do Barroco ao século XX
Flautista
de forte presença no nosso meio musical, Laura
Rónai, em plena maturidade artística,
resolveu mergulhar no passado para falar dos métodos
de ensino da flauta – do Barroco ao século
XX. O resultado disso é um texto surpreendente
(originalmente tese de doutorado). Duvido que, em outro
país, haja alguma coisa referente à flauta
que reúna a mesma erudição e o
mesmo prazer de leitura.
A
surpresa do leitor, ao encontrar este belo tratado,
seria menor se soubesse que Laura é filha de
Paulo Rónai, escritor húngaro que chegou
ao Brasil nos anos 40 e se tornou um de nossos maiores
humanistas. É esse tom "humanista"
que dá cor própria a este livro, e faz
dele muito mais do que uma dissertação
doutoral.
Para
falar dos métodos de ensino da flauta, Laura
mergulhou na história do instrumento –
e só isso já produz material fascinante.
Estamos acostumados a pensar nos instrumentos como coisas
definitivas e acabadas, que tivessem caído do
céu quase que por milagre. Mas não é
assim: cada instrumento moderno é o ponto de
chegada de uma longa evolução; e nada
indica que essa evolução esteja congelada.
Laura
mostra, por exemplo, o caminho que levou das delicadas
flautas barrocas, de madeira, ao instrumento mais poderoso,
de metal, usado pelos românticos. Ela explica
– citando o ilustre Harnoncourt – que, nesse
percurso, há coisas que se ganham e coisas que
se perdem. Normalmente, o aumento de força é
obtido às custas de uma variedade maior de timbres,
sendo isso exatamente o que aconteceu, por exemplo,
com o piano. Mas hoje estamos olhando de novo para as
épocas passadas; em termos de música,
o "antigo" passa a ser uma bela especialidade.
E assim estão de volta os artesãos que
fazem instrumentos de um modo artístico, que
não é mais a produção em
série.
De
tudo isso dá notícia o ensaio de Laura.
Mas ele é muito mais do que isso: aborda as técnicas
de interpretação, as escolas de ensino
da flauta; e falando desses detalhes, ela nunca deixa
de recriar cada época, cada um dos grandes músicos
que fizeram da flauta um instrumento de eleição.
O
leitor comum sairá desse livro tendo feito uma
proveitosa viagem pela história da música
e dos estilos musicais. O especialista receberá
informações preciosas para sua utilidade
prática e seu deleite intelectual. Toda uma lição
de história da arte.
Luiz Paulo Horta
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