FRENTE
FRIA E OUTRAS ESTÓRIAS
Frente
fria e outras estórias, livro de estreia
ficcional de Eduardo Junqueira, revela, sem dúvida,
um artista já em pleno domínio do seu
ofício. Escritor de forte vocação
narrativa, sabe como poucos equilibrar-se, nos 25 contos
aqui reunidos, entre a invenção e a memória.
Suspeito que, se quisesse, poderia urdir, sem dificuldade,
narrativas mais longas (novela ou romance), tal o pendor
que demonstra para narrar fatos e criar personagens.
Não lhe faltam para tanto poder de observação,
imaginação recriadora das coisas e dos
seres, fluência e riqueza verbal, força
expressiva e reflexiva, variação temática,
dialogismo e tensão textual, além da capacidade
de sedução do leitor, entre outras qualidades.
Neste volume, não obstante, de um modo geral,
o grau de literariedade alcançado, algumas estórias
se destacam. “Quase Ricardo Reis”, por exemplo,
é uma recriação saborosa, algo
irônica, do heterônimo de Fernando Pessoa
e do personagem de Saramago, aqui representado pela
figura do português Antero, que se mete em aventuras
amorosas e profissionais várias, no seu país,
na África e no Brasil. Em “Edison”,
o autor reinventa também com ironia a vida do
ex-jogador Dondinho e de seu filho, que não chega
a ser o famoso Pelé, mas apenas um vibrante ferroviário,
como o pai, além de subverter o resultado histórico
da famosa partida entre Brasil e Uruguai, no final da
Copa de 1950.
Cito,
ainda, “Fantasma no tribunal”, antológica
narrativa, de clima kafkiano, ao lado de “A vida
como ela deveria ser”, de recorte rodriguiano,
também de ótima fatura literária.
Deixo, por fim, ao leitor o prazer de descobrir outros
contos, igualmente surpreendentes, neste livro de estreia
(vitoriosa) de Eduardo Junqueira.
Adriano Espínola
/ Rio de Janeiro, junho de 2010
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