Gasto
público eficiente: 91 propostas para o desenvolvimento
do Brasil
O
Estado brasileiro é muito grande, seja qual for
a régua que se use para medi-lo: a dívida
pública, a carga tributária ou a despesa
total. O gasto público elevado e ineficiente,
que, ao longo dos anos, forjou um Estado pesado, está
entre as principais causas de vários desequilíbrios
do país, como o câmbio sobrevalorizado,
a taxa de juros estratosférica, os grandes spreads
bancários, a corrupção endêmica,
o baixo crescimento econômico. Apesar disso, parcela
significativa da sociedade brasileira continua demandando
mais empregos públicos, mais incentivos fiscais,
aposentadorias em idade precoce. Os períodos
de propaganda eleitoral mostram políticos oferecendo
mais e mais programas financiados pelo erário.
Nenhum deles propõe controlar os gastos, sob
pena de ser dizimado nas urnas.
Cada
um dos três componentes do “Estado grande”
(carga tributária, despesa e dívida) gera
impactos macro e microeconômicos que afetam negativamente
os propulsores do crescimento econômico de longo
prazo: o investimento privado, as exportações,
a produtividade e as inovações. A carga
tributária elevada onera a produção,
desestimulando os investimentos e reduzindo a competitividade
das exportações. A dívida pesada
impede que o país atinja o “grau de investimento”,
afastando os investimentos estrangeiros diretos.
No
governo, os incentivos para agir com eficiência
são menores; afinal, o burocrata gasta um dinheiro
que não é seu. Assim, um setor com baixo
incentivo para ser produtivo drena, via carga tributária,
quase 40% da renda gerada no país, e depois o
gasta de forma pouco eficiente. O resultado é
a baixa produtividade da economia.
Com
tanto dinheiro circulando pela mão do governo,
passa a ser um bom negócio se especializar em
obter recursos públicos. Torna-se comum a busca
de relacionamentos pessoais ou partidários que
dêem acesso a cargos públicos ou a financiamentos
subsidiados. Essa é a chamada atividade de “caçador
de renda”, que captura recursos já existentes
em vez de produzir riqueza nova, com prejuízos
evidentes ao crescimento econômico.
Um
Estado grande seria um problema menor se os serviços
públicos atendessem adequadamente à população.
Uma rápida olhada nas condições
das escolas públicas, dos postos de saúde
ou das penitenciárias demonstra que não
é este o caso.
Talvez
todos esses problemas fossem aceitáveis se o
Estado grande fosse bom para reduzir as desigualdades
e a pobreza. Mas também não é o
que ocorre. Os grupos de interesse distorcem as chamadas
“políticas sociais”. A política
habitacional para pobres, criada nos anos de 1970, virou
subsídio para as classes média e alta,
gerando uma dívida que hoje é paga por
todos. O ensino público gratuito destina “verbas
européias” para as universidades, freqüentadas
pela elite econômica, e “verbas africanas”
para o ensino fundamental, freqüentado pelos pobres.
As aposentadorias dos servidores públicos, de
renda média e alta, são muito superiores
às dos trabalhadores do setor privado. Seguro-desemprego,
abono salarial e FGTS só atendem aos empregados
do setor formal, ficando a massa de pobres, trabalhadores
informais, sem acesso ao sistema de proteção
social.
O desafio, portanto, não é apenas o de
enxugar o Estado, mas, também, controlar o gasto
público de forma seletiva, tornando-o mais produtivo
e eficiente. Em especial, é preciso ter políticas
sociais que beneficiem apenas os mais pobres e, ao mesmo
tempo, não representem ônus excessivo para
a sociedade. Este livro dá a sua contribuição,
fazendo um diagnóstico detalhado e indicando
propostas concretas nessa direção. Não
é simples. A resistência dos interesses
estabelecidos é grande. Muitas das propostas
aqui contidas serão consideradas “politicamente
inviáveis”. Talvez hoje o sejam –
mas o entendimento da sociedade deve evoluir. O livro
pretende fazer parte desse esforço de evolução.
MARCOS MENDES – Organizador
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