Grande sertão: veredas

Grande sertão: veredas tem inúmeras facetas, mas sua leitura não é tão difícil quanto se diz. Este Roteiro elaborado por Kathrin Holzermayr Rosenfield permite entrar rapidamente no halo cintilante da história que faz esquecer – graças a Deus – o peso da cultura e da erudição que ali se condensam. Ele fornece o “código” de acesso à névoa de maravilhamento do romance; assinala as estruturas míticas dos velhos textos sagrados orientais e ocidentais, as alusões filosóficas e a sabedoria dos causos; mostra como a fala do jagunço Riobaldo absorve a arte da poesia popular e o hábito brasileiro de contar casos.

A intensidade lírica das imagens (visuais e sonoras) tanto deve aos cantos da natureza nordestinos quanto aos causos sul-riograndenses (S. L. Neto) e às histórias européias do pacto fáustico (Marlowe ou Thomas Mann) e de amores fatais (Goethe, As afinidades eletivas). Guimarães Rosa absorveu incontáveis sugestões culturais alheias, porém nunca perdeu de vista os modelos tipicamente brasileiros – nem os causos da tradição popular e cristã, nem os causos de S. L. Neto, o grande inovador gaúcho do “regionalismo”. O escritor mineiro admirava esse contista pela riqueza psicológica do novo “regionalismo” que absorvera as sutilezas do romance e do conto francês; e aproveita desse padrão “natural” e aparentemente brasileiro para o seu contar-casos do sertão. O Roteiro indica como Rosa enriquece sua história com células narrativas emprestadas de outras culturas e outros autores sem jamais perder a aura “brasileira” e sertaneja.

No plano do pensamento filosófico e sociológico, Rosa inocula no seu romance faíscas do pensamento filosófico de Espinosa, Leibniz e Hobbes, Nietzsche, Freud e Heidegger. O Roteiro indica como essas alusões são traduzidas para o idioma do sertão, dando um brilho secreto às ruminações de Riobaldo. A autora menciona também a influência do ensaísmo brasileiro, as reminiscências rosianas de Euclides da Cunha e das obras de Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Oliveira Vianna, entre outros.

Kathrin, neste seu guia de leitura, explica o romance a partir da própria poética do autor: Rosa nos lembra que precisamos constantemente transpor os limites das convenções e dos hábitos mecânicos. Verdades e sabedorias exigem ser traduzidas, sempre de novo, numa linguagem que possa nos emocionar e surpreender. Imagens, sons, fragmentos de outras línguas – as do sertão e as dos outros países do mundo – aguardam uma constante renovação.



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