| "O
ano literário", de Wilson Martins
Num
momento em que a crítica é exercida majoritariamente
pelos próprios escritores ou por professores
universitários (dentro e fora da academia), Wilson
Martins (1921) ocupa um lugar único em nossa
vida literária. Crítico de jornal desde
1942, com coluna semanal — pois é na regularidade
das leituras e das avaliações que se configura
o texto crítico —, Wilson Martins é,
sem nenhuma dúvida, o maior leitor da história
brasileira.
Mesmo
tendo escrito ensaios fundamentais, como os sete volumes
da História da inteligência brasileira,
painel insuperável das manifestações
intelectuais do país, o que caracteriza o pensamento
deste autor é uma gramática crítica.
Ele lê o Brasil de forma metonímica, a
partir dos lançamentos, sem propor estruturas
analíticas artificiais, e sim vendo em cada obra
a identidade da nação.
E
este é outro diferencial de Wilson Martins. Enquanto
a grande maioria das pessoas que escrevem sobre livros
volta-se ou para autores estrangeiros ou, quando se
dignam a tratar do produtor nacional, para os modismos
das metrópoles, o nosso crítico se mantém
fiel a um continuum de manifestações
culturais, confrontando a produção do
momento com nossos grandes textos, vendo-a além
do breve instante de seu surgimento.
Conhecendo
a literatura brasileira com a profundidade de um scholar
e usando a linguagem própria de quem escreve
em jornal, dono de um olhar desmitificador e de um humor
impiedoso, Wilson Martins não se intimida diante
de nada, e segue, na altura de seus 84 anos, 63 deles
dedicados ao ofício, sinalizando o mar bravio
de nossa vida artística e intelectual.
Finda
a série de 15 volumes de seus Pontos de vista
(T.A. Queiroz – 1991-2004), que cobriu o período
de 1954 a 1999, a Topbooks passa a publicar O
ano literário, reunião de seus artigos
de crítica surgidos a partir do ano 2000. Esta
nova série será um valioso complemento
das idéias deste escritor que já produziu
trabalhos definitivos sobre vários assuntos.
Destacam-se, entre eles, além desta enciclopédia
sobre o Brasil que é a História da
inteligência brasileira, os dois volumes de
A crítica literária no Brasil (Francisco
Alves, 2002), verdadeiro quadro da produção
no gênero entre nós; A idéia
modernista (Topbooks, 2002), ensaio didático
sobre o movimento modernista, e Um Brasil diferente,
estudos sobre o polígono racial na composição
do elemento sulino.
Em
todas estas obras há sempre o desejo de entender
o país, não a partir de teorias ou ideologias
importadas, mas se valendo das idéias veiculadas
no mundo editorial, que são a mais realista tradução
de um povo. Sua informação, porém,
não se restringe aos nossos limites territoriais.
Com formação internacional, ele esbanja
conhecimento em A palavra escrita (Ática,
1996), tratado histórico sobre a presença
da linguagem no mundo civilizado.
Se
a regra, em nossa tradição, é o
crítico de rodapé abandonar a difícil
carreira no meio de caminho, dando lugar ao ensaísta,
distante das questões mais latentes, Wilson Martins
também aqui é exceção. Sem
nenhum projeto de interromper suas atividades, ele continua
sendo sinônimo de crítico. Atuante e surpreendente.
Destemido e audaz. Independente e informado. Um dos
poucos que escrevem não em benefício de
si próprio, mas da literatura.
MIGUEL SANCHES NETO
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