O fígaro da Lapa

O fígaro da Lapa, de Idalino Cavalcante, é uma obra engajada: engajada na defesa da arte e no tributo à beleza. Ambientado na Lapa de fins dos anos 1940, o texto, conduzido com desencanto pelo narrador-personagem Romino (rima perfeita de Idalino), exibe, em grau superlativo, novas facetas do talento do autor, que estreara nos vigorosos e desabusados contos de Os safos festejam ao anoitecer. Mas o que no livro de 2005 era linguagem agressiva e vertiginosa agora se transmuda em sutil reflexão sobre os inevitáveis limites que a vida acaba por impor a quem sonha dedicar-se de modo irrestrito e puro ao mundo da arte.

Em linhagem diversa dos chamados “romances de formação”, este é romance de deformação e de barganha dos ideais: o jovem pintor de mulheres sofridas se transforma aos poucos no bem-sucedido artista comercial que abastece as donas de casa com imagens sedutoras de modernas cozinhas norte-americanas. Na travessia entre esses dois pontos, balizados pela troca da intensidade (da experiência estética) pelo acúmulo (da conta bancária), convivemos com a misteriosa companhia italiana de ópera abrigada num estranho sobrado da Lapa, onde Romino encontrará guarida e presenciará cenas e episódios cujo sentido não se oferta de imediato à sua compreensão.

Pela memória do protagonista fluem também as evocações de seus laços de sangue, em especial na figura dos irmãos, que, ao contrário dele, não transigiram no cultivo de vocações e desejos, seja no campo da luta política, na clausura dos conventos ou no compromisso do ator para com o teatro. Pasquale, o fígaro-bufão, é uma espécie de mestre de cerimônias da ópera-narrativa, abrindo a cena no primeiro capítulo, quando sugere a Romino a hospedagem no casarão, e fechando as cortinas do espetáculo na derradeira página, ao revelar a identidade do personagem de Mme. Butterfly, ocasião em que – como o leitor irá constatar – irônica e sutilmente arte e vida voltam a entrelaçar-se, ainda que ao preço da morte.

Em O fígaro da Lapa, a arte imita a arte. Os esboços de retratos a óleo ou carvão, cujo término o pintor insiste em protelar, encontram correlato na técnica de construção inconclusa dos personagens, compostos em linhas morais tênues e ambíguas, sem que consigamos enxergar-lhes o verdadeiro rosto. O narrador insinua que, na pintura ou na literatura, nenhum traço é definitivo ou imune ao retoque, nenhuma versão pode arvorar-se de autêntica. Tal poética da instabilidade se espraia até o nível da língua, na bem tramada infiltração de idiomas que compõem uma criativa salada ítalo-portuguesa, com pitadas hispânicas, e que Idalino Cavalcante nos oferta em seu refinado banquete ficcional.

Antonio Carlos Secchin

da Academia Brasileira de Letras



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