| O
moderno em questão
A
década de 1950 no Brasil reúne o resultado
de onze valiosas explorações da vida intelectual
no Brasil dos anos 50, feitas por estudiosos contemporâneos.
Como acentua o prefaciador, esses foram anos em movimento
– na política, na economia, nos costumes,
nas instituições – a que também
reagiram os vários setores da intelectualidade.
O livro indica, primeiramente, a centralidade dos temas
do desenvolvimento e do subdesenvolvimento nas obras
e intervenções dos sociólogos,
historiadores, economistas e filósofos do período.
Suas idéias foram uma atualização
de uma doutrina – o modernismo – que ganhou
forma no final do século XIX, desde os “pioneiros
das ciências sociais”, e que pretendia indicar
os rumos da modernização do país,
denunciar os obstáculos à sua realização
e participar dela por meio do debate de idéias.
Dois
eixos sustentavam a argumentação desses
autores. O primeiro continha uma avaliação
da relação do projeto modernizador com
certa visão do passado da nação,
em que eram destacadas a situação colonial,
a escravidão e a formação racial
heterogênea. O segundo descrevia este processo
como a inclusão do país na ordem mundial.
Assim, uma série de autores analisados nesse
volume, por mais diversas que fossem suas avaliações,
partilhavam uma concepção progressista
da história, que só hoje, passados mais
de 50 anos, é possível considerar criticamente.
Esse foi o caso de Luís Amaral, Raimundo Faoro
e Álvaro Vieira Pinto, dos militantes do PCB,
de José Leite Lopes, de Florestan Fernandes e
de Celso Furtado, estudados por Elide Rugai Bastos,
Bernardo Ricupero e Gabriela Nunes Ferreira, Norma Cortes,
Marcelo Ridenti, André Botelho, Milton Lahuerta,
Vera Alves Cepêda e, em chave sintética,
por Gildo Marçal Brandão.
Alguns
traços marcaram, de forma especial, o debate
sobre a modernização naquele momento.
Ela foi avaliada, de forma quase exclusiva, por critérios
econômicos – o que contrastava com outros
momentos da mesma tradição. Além
disso, a política foi convocada como um instrumento
para apressar a modernização; daí
a importância atribuída à intervenção
do Estado ou, em outra direção, a definição
de plataformas políticas revolucionárias.
Além
da menção ao debate travado pelos cientistas
sociais, no qual sobressaía o tema do desenvolvimento,
O moderno em questão aborda a “década
em movimento” sob outros aspectos: no jornalismo,
no estudo de Alzira Alves de Abreu sobre os compromissos
políticos e a “americanização”
da imprensa; nas artes plásticas, na interpretação
inovadora do surgimento do concretismo no Rio de Janeiro,
por Glaucia Villas-Bôas; nas crônicas de
Nelson Rodrigues, que punham em evidência a tensão
entre dois códigos morais conflitantes, como
aponta o ensaio de Marcelo Masset Lacombe; na visão
do físico José Leite Lopes da ciência
e do ensino universitário em articulação
com o esforço desenvolvimentista, no estudo de
André Botelho; nas complexas relações
dos artistas com o Partido Comunista, na detalhada pesquisa
de Marcelo Ridenti.
Ao
final desta obra, o leitor terá obtido informações
da maior importância, tratadas com rigor e profundidade,
sobre essa década de virada na nossa história
contemporânea.
Eduardo Jardim
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