| O
real imaginado – etnografia, cinema e surrealismo
em Jean Rouch
A
importância de Jean Rouch (1917-2004), reconhecida
pelos cineastas desde seus primeiros filmes, começa
a se estabelecer na Antropologia. Já tínhamos
alguns artigos sobre a imensa obra do antropólogo-cineasta,
mas este ensaio é o primeiro que procura estudar
a fundo a etnografia rouchiana. Uma etnografia que se
faz através de imagens fílmicas, em que
documentário e ficção, os protagonistas
e seus sonhos se confundem para melhor deixar emergir
o realismo dos temas tratados.
Marco
Antonio Gonçalves analisa aqui a “trilogia
migratória”: Os mestres loucos;
Eu, um negro; e Jaguar, três dos
107 filmes de Jean Rouch considerados dos mais etnográficos,
e aqueles onde se percebe o quanto ele antecipa os trabalhos
que o sucedem, seja como cineasta, seja como antropólogo.
Este é igualmente o foco e o grande interesse
do livro: explicitar, com sensibilidade e critério,
as inovações propostas por Rouch aos padrões
estabelecidos na época em termos de montagem,
edição e narrativa.
Por
outro lado, o ganho para nós antropólogos
é que Marco Antonio Gonçalves consegue
trazer a obra de Rouch para a discussão mais
contemporânea da Antropologia, em que a ética
e a estética da etnografia são impregnadas
de uma estética surrealista que o cineasta francês
toma como modelo. É esta abordagem de Rouch que
o faz dialogar com a Antropologia mais contemporânea,
e que deixa de lado parâmetros cientificistas
(positivistas) para aproximar-se de uma experiência
subjetiva humana em que o que se revela é o encontro
entre o cineasta-antropólogo e seus amigos africanos.
As
estratégias de Rouch, como a antropologia compartilhada,
o cine-transe, a câmera participante e a etnoficção,
são discutidas por Marco Antonio de modo a oferecer
ao leitor um mergulho no estilo de etnografia rouchiano
que se volta para uma África moderna, onde as
contradições do colonialismo afloravam
de modo intenso e se expressam mimeticamente nos rituais.
Ambigüidade,
ironia e humor caracterizam a filmografia de Rouch e
os africanos que ele nos traz nestes três filmes.
Sensibilidade, clareza e empatia caracterizam O real
imaginado – etnografia, cinema e surrealismo em
Jean Rouch, este livro que é, certamente,
enorme contribuição para todos os interessados
nos temas aqui tratados.
Sylvia Caiuby Novaes
Universidade
de São Paulo
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