| Conheço
José Alcides Pinto desde os idos da década
de 1950. Não nos dávamos ainda como amigos,
mas eu tomara conhecimento de seu livro de estréia,
Noções de poesias & artes,
de 1952, obra elogiada por Cassiano Ricardo e responsável
pela inclusão do poeta na Geração
de 45, do ponto de vista historiográfico. Seus
pares, nessa geração terceiro tempo do
Modernismo, eram Augusto de Campos, Décio Pignatari,
Haroldo de Campos, Nauro Machado, Marly de Oliveira,
Mário Faustino, Foed Castro Chamma. O rol destes
poetas demarcaria duas vertentes da poesia brasileira,
desde então: a que se inclinaria para o experimento
radical com a forma – Concretismo – e a
que se firmaria na área do que chamamos de “tradição
da imagem”, seguindo uma poesia emblemática
e ligada à linguagem metafórica.
O curioso, para José Alcides Pinto, nesses cinqüenta
anos de militância literária, é
que ele ligaria os dois núcleos do fazer poético,
saindo para a experiência de vanguarda e para
a “tradição”, no sentido eliotiano
do termo. E sua militância poética se aprimoraria
com muitos livros que, sem pertencerem emblematicamente
à Geração de 45, já davam
um passo à frente no reino da linguagem, ora
enriquecendo esta linguagem com imagens e metáforas,
ora elevando o discurso diacrônico numa postura
pessoal e numa posição rica de significados
no reino da poesia brasileira.
Mas o conhecimento pessoal com o poeta vem dos anos
60, quando ele lançou seu primeiro livro de ficção,
O dragão (GRD), de 1964. Daí
em diante não parou mais de publicar poesia e
prosa, e de participar em inúmeras antologias.
E é exatamente pelos fins da década de
60 e começos da década seguinte que se
edita a sua trilogia Tempo dos Mortos, reunindo
Estação da morte (1968), O enigma
(1974) e O sonho (1974). É claro que
a linguagem do ficcionista ganha maior expressão
com a experiência do poeta. E ganha maior significação
quando ele sai estritamente de uma temática regionalista
– em cuja área publicou muitos livros importantes
– para um desvão existencialista do intimismo,
de que é a experiência maior esta trilogia
citada, agora em nova edição.
Embora seus personagens “regionalistas”,
cunhados numa dimensão social e humana –
de que são exemplos os livros João
Pinto de Maria / Biografia de um louco, de 1974,
e Senhora Maria Hermínia (Morte e vida agoniada),
de 1988 –, assinalem o tom documental do drama
humano de sua obra, é Tempo dos Mortos
que em maior profundidade esquematiza o existir do homem
e sua circunstância, com personagens exemplares
como Quintino e Iolanda, padre Hugo e doutor Braz, Débora
e o Engenheiro, cuja morte faz lembrar o melhor García
Márquez.
Tais personagens se distribuem respectivamente nos romances
citados, num amálgama expressivo de toda a trilogia.
Enfim, o mais importante na carreira de José
Alcides Pinto: ele continua em franca atividade, ultrapassando
em significado e militância muitas “vocações”
abortadas que ficaram pelo caminho. E não é
necessário acrescentar quão importante
é a presença deste cearense ilustre na
história da Literatura Brasileira. Com a mídia
tomando conhecimento de sua presença ou não,
seu nome está inscrito, sem contestação,
nos anais da Arte nacional de todos os tempos.
Assis Brasil
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