Rodrigo
Petronio nasceu em São Paulo em 1975,
dizem as fichas biográficas, mas é claro
que ele vem “de um país selvagem”,
um país definitivamente poético e certamente
não contaminado pela prosa. Desse país
já havia registro nos seus livros anteriores:
História natural (São Paulo,
2000), Assinatura do sol (Lisboa, 2005), Pedra
de luz (São Paulo, 2005). É de fato
um país onde só um poeta inspirado, em
pleno domínio da linguagem mas também
tomado por ela, poderia ser capaz de perder-se e de
se reencontrar em cada poema, como em cada passo da
aventura humana no Universo. Nem rousseauniano
nem junguiano, Petronio não aceita formular
hipóteses nem recorrer a símbolos ou teses.
Antes
nomeia os elementos primeiros, a vida e a morte, os
ancestrais interrogantes, os deuses que o habitam, a
adivinhação nossa de cada amanhecer, o
milagre da eternidade e o desafio do fim. Ele é
neste livro um poeta para quem o amor propiciou o retorno
ao magma de onde tudo surge e que se situa num território
nas antípodas do caos. Neste mundo ordenado há
avós, há um pai, há uma mulher
amada – amada até esvaziar o próprio
ser – mas a aventura permanece de todos nós,
é a aventura humana, e por isso ele cria uma
poesia generosa, que inclui o leitor, que conta com
ele, que se recusa a existir fora dele.
Sem
dúvida, a lógica desta poesia, ou da poesia
tout court, leva “nossos passos sobre
a terra, entre as algas”. A preposição
“entre” deveria ser a mais reiterada nesta
série que nos situa na certeza de estar numa
viagem perpétua, sempre num “ir para”,
ainda que não existam o acima e o abaixo, o centro
e as beiras, uma viagem que deve guiar-se sempre por
palavras entreouvidas, por golpes de intuição,
e destruindo sem piedade as falsas verdades da prosa,
de um saber “sensato” que nos é imposto
como um lastro que nos impede o vôo, esse que
era o nosso único destino e que Petronio reencontra
para nós na poesia. Porque ela está além
dos pequenos paradoxos dessa sensata razão imposta,
e por isso nos permite ver o mundo a partir de um grau
zero, ou de um grau novo, ou de um grau velhíssimo,
imemorial como a água, como o pássaro,
como o amor ou como os deuses.
Porventura
poderia surpreender alguém que um pensador como
Petronio, que expôs suas idéias filosóficas
num livro tão erudito quanto Transversal
do tempo (Recife, 2002), um homem com sólida
formação acadêmica em Filosofia
e Letras, com anos de ensino e vários cursos,
que um intelectual desse naipe encontre na poesia a
forma mais precisa de conhecimento, e que essa forma
de conhecimento seja tão diferente dos sabidos
procedimentos acadêmicos? Talvez o diálogo
que este livro estabelece com a poesia de Dora Ferreira
da Silva – a quem o poeta dedica um dos mais belos
poemas da série – explique que possam conviver
nele o filósofo que reflete sobre a epistemologia
e o poeta que se entrega a nós com sua verdade
mais profunda e paradoxal, nessa lógica “não-euclidiana”
e de ângulos inesperados que é a da poesia,
onde tudo deve ser reinventado, absoluta e eterna como
as carpas negras do tempo.
Alfredo
Fressia
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