O Globo, 30 de junho de 1991

CELSO LAFER E SEUS ‘IRMÃOS’

José Mario Pereira

SÃO PAULO − Está indo esta semana para as livrarias, editado pela Siciliano, mais um livro do cientista político Celso Lafer. Os 22 textos que compõem Ensaios liberais são dedicados à memória do ensaísta e amigo José Guilherme Merquior − morto em janeiro último − que considerava Lafer “o nosso cientista social de maior inquietação filosófica”. Aos 49 anos, professor da Universidade de São Paulo, Celso Lafer é também um ativo empresário, com trânsito no país e no exterior. Alheio a preconceitos de qualquer ordem, é um homem afável, cosmopolita, capaz de dissertar não só sobre temas da Filosofia do Direito, Ciência Política e das relações internacionais, mas também sobre ópera − notadamente as de Verdi, sua “paixão”, embora não fique indiferente a uma boa canção de fossa, sobretudo as do repertório de Nora Ney. No amplo escritório de sua casa, que divide com a mulher Mary − professora de grego antigo e tradutora − no bairro paulista dos Jardins, cercado de livros (aí incluídas edições raras de Camões e Gil Vicente), Celso Lafer recebeu O Globo para uma conversa franca sobre o liberalismo, suas afinidades intelectuais, a cultura brasileira e a nova ordem internacional.

− Por que o senhor se definiu pelo título Ensaios liberais?

− Esse título dá unidade ao livro, que agrupa ensaios que são uma tentativa de definir e compreender o liberalismo. E o liberalismo − como diz com razão José Guilherme Merquior − deve ser referido sempre no plural: liberalismos. Por quê? Em primeiro lugar, o liberalismo, desde as origens, é pluralista. Kant e Tocqueville, Stuart Mill e Popper, Aron e Bobbio são figuras que integram a família liberal e, se têm afinidades, têm também diferenças relevantes. Portanto, me parece necessário caracterizar a visão de mundo da família liberal, não a partir de um epíteto singularizante, mas do pluralismo. Eu me defino como um liberal à moda de Norberto Bobbio, ou seja, alguém que insistindo e afirmando a importância da liberdade política, da liberdade de opinião e de iniciativa econômica, não esquece, num país com as características do nosso, o valor da igualdade, que é uma exigência da justiça.

− O que o senhor quer dizer quando fala de “misoneísmo do marxismo” e “misoneísmo intelectual da esquerda”?

− Para mim, um dos grandes problemas da herança socialista é a de ter se concentrado quase exclusivamente em torno do pensamento de Marx. Mesmo a distinção entre os social-democratas, os socialistas e os comunistas partiu de leituras diferentes de Marx. Karl Marx é um clássico (no sentido de ser um intérprete autêntico de seu tempo) que suscita até hoje leituras distintas − o que mostra que ele é um autor vivo − e que criou categorias de que nos valemos, mesmo quando utilizadas num contexto histórico distinto daquele em que foram elaboradas. Sua importância no sentido do entendimento do mundo moderno é indiscutível. Agora, reduzir todo o pensamento a Marx é, a meu ver, um empobrecimento inaceitável da vida intelectual. O que eu digo é que, tendo em vista o fracasso do socialismo real, a tradição da esquerda tem a obrigação de, sem necessariamente excluir Marx do seu campo de reflexão, incluir outros autores na sua leitura e na sua meditação. Nunca tendo sido marxista, também nunca fui um antimarxista profissional, o que me permitiu utilizar Marx como uma parte do meu arsenal de entendimento do Mundo, mas nunca como uma “pedra filosofal”. Desde o início da minha formação persegui o pluralismo, o que me levou a encarar Marx como um autor entre muitos outros que me pareciam relevantes.

− A dicotomia esquerda/ direita está obsoleta?

− Não. Num ensaio deste livro eu procuro mostrar que as dicotomias contribuem para perceber diferenças, ajudam a trabalhar com rigor a percepção da realidade. No debate político brasileiro discutiu-se muito direita/esquerda, arcaico/moderno. A minha proposta é que, no jogo das dicotomias, esquerda e direita, arcaico e moderno sejam combinados. Assim como existe uma esquerda arcaica e outra moderna, existe uma direita arcaica e uma moderna, e é a idéia desta complexidade que procurei sublinhar.

− Existe realmente uma ciência da política?

− A palavra ciência pressupõe, naturalmente, a idéia de rigor, e, potencialmente, a capacidade de prever. O rigor é uma noção compatível com o estado atual dos conhecimentos políticos. Mas a noção de previsão é antes a idéia de probabilidade do que a idéia de certeza. A ciência política, enquanto aspiração científica, surgiu como reação a uma visão da política encarada normativamente como um campo do dever-ser, à moda da filosofia política. A distância entre o normativo e a realidade é que explica por que surgiu uma preocupação com uma ciência política. Eu, pessoalmente, me inclino pela noção de “teoria política”, buscando combinar o ser com o dever-ser, sem uma vocação para o cientificismo, mas sem excluir a contribuição que os aspectos modernos da pesquisa nas ciências sociais podem trazer. Uma das áreas de que cuidei foi a análise do processo decisório, que tem como uma de suas matrizes a tentativa de ver como são tomadas as decisões, qual é o papel das forças sociais, das estruturas burocráticas, dos valores que são, enfim, a condição da política.

− Em que medida a justiça social está presente no projeto liberal?

− No liberalismo à moda de Bobbio, que é também o meu, a preocupação com a  liberdade se vê permanentemente associada à preocupação pela igualdade. Costumo citar uma frase de Tocqueville numa carta a Stuart Mill, de 1835, que dizia: “Eu amo a liberdade por gosto e a igualdade por instinto e por razão”. Essa é a minha concepção, e vejo no liberal-socialismo, do qual Stuart Mill é, no século XIX, um exemplo, a expressão desse tipo de visão.

− O que Norberto Bobbio significa para o senhor?

− Eu diria que, entre as figuras da minha devoção discutidas neste livro, Bobbio é aquele de quem estou mais próximo em termos de visão do mundo. Sinto em relação a ele uma coincidência de pontos de vista muito grande, seja na visão  da política, do direito, ou da filosofia. Ao mesmo tempo, tenho um imenso respeito pela dignidade e compostura ética que caracterizam a presença dele no debate intelectual da atualidade. Creio que poucos trabalharam tão bem o tema da democracia quanto ele; poucos foram tão aptos na sua crítica ao socialismo, sem ser um anti-socialista; poucos fizeram uma análise tão apropriada das insuficiências do marxismo, sem nenhum antimarxismo. A clareza, o rigor e a capacidade de abordar o que ele chama “os temas recorrentes da vida política e jurídica” são aspectos fundamentais dessa sua contribuição.

− Qual é a sua análise do conflito árabe-israelense?

− O Oriente Médio tem sido, depois da Segunda Guerra Mundial, uma das regiões mais carregadas de tensão do planeta. Isto se explica pelos interesses que cercam uma região que detém o controle de um dos recursos naturais mais importantes do Mundo, o petróleo. Uma das conseqüências da guerra do Golfo Pérsico é que o entendimento entre Israel e os demais Estados árabes está mais próximo. Parece haver hoje, em relação aos Estados árabes, algo do potencial da viagem de Sadat a Jerusalém, que marcou o término do contencioso com o Egito. Creio, no entanto, que a solução do conflito árabe-israelense passa por um adequado encaminhamento do problema palestino. Nahum Goldmann, que foi uma figura importante da visão sionista e da criação do Estado de Israel, chamava atenção para o jogo de duas palavras-chave: obstinação e flexibilidade. Ele dizia que o que caracterizou a persistente presença do judaísmo na sua multissecular existência foi a idéia de obstinação na defesa de valores e flexibilidade no ajustamento às circunstâncias extremamente complexas, quando não adversas. Parece-me que está faltando a Israel, hoje, voltar a estas duas notas que Goldmann sublinha: a obstinação na defesa dos valores que estão na raiz do sionismo (que é uma expressão, mas não a única, do judaísmo) e uma maior flexibilidade na avaliação da conjuntura, para buscar soluções apropriadas a esses dilemas de relacionamento que envolvem, além de interesses estratégicos, valores de legitimidades contrapostas.

− No momento em que a União Soviética admite tomar dinheiro emprestado dos Estados Unidos, não está se configurando uma nova ordem internacional?

− O que está em jogo nesse pedido de apoio financeiro da União Soviética é o seu próprio destino como unidade política. Há um jogo de forças centrífugas, na União Soviética, de alta relevância, que pode desestabilizá-la como um todo. Do ponto de pista da ordem mundial, há hoje interesses em que se encontre uma fórmula confederativa, ou federativa, que preserve esta unidade como um fator de estabilidade e não-desestruturação da ordem mundial. Na medida em que a União Soviética repense a sua organização interna, e suas lideranças têm falado em mercado e na reconversão da sua indústria bélica para fins pacíficos, parece interessante estimular este tipo de tendência através de apoio financeiro.

− Como foi o seu convívio com Hannah Arendt?

− Fui seu aluno em Cornell, nos Estados Unidos, e este convívio foi uma revelação, pela originalidade do seu pensamento e pela capacidade que ela tinha de fazer com que as pessoas pensassem pela própria cabeça. Espero ter transmitido um pouco de seu fascínio no ensaio incluído neste livro ("Hannah Arendt − Vida e obra"). Eu sempre estou inteiramente de acordo com ela, mas a leitura de sua obra é instigante por força da capacidade que ela tem de perceber o relevante num mundo no qual os conceitos e as categorias tendem a ser insuficientes para lidar com uma realidade fugidia.

− Por que o senhor se candidatou à vaga de José Guilherme Merquior na Academia Brasileira de Letras?

− Como um liberal, o meu individualismo está vinculado ao espírito associativo e ao gosto da convivência, que anima e vivifica as instituições. A Academia Brasileira é uma instituição de grande peso e relevância no cenário brasileiro. Ela é, em primeiro lugar, a Casa de Machado de Assis, um escritor que me fascina, e tem como fim, como se lê nos seus estatutos, “a cultura da língua e da literatura nacional”. Eu me identifico com estes objetivos que unem os acadêmicos, pois freqüento a república das letras desde a publicação do meu primeiro livro, que é uma análise da obra de Gil Vicente. Tenho, por outro lado, a atração pela língua, que me vem do gosto pela filologia e a etimologia; um dos meus procedimentos analíticos usuais é o de recorrer à historicidade das palavras, como meio de identificar as relações entre os conceitos e as realidades para as quais apontam. Minha candidatura tem também o sentido de prestar uma homenagem a José Guilherme Merquior, à sua obra e ao perfil de intelectual que ele encarnou. Sei, evidentemente, que uma eleição para a Academia não é nem um concurso universitário nem uma equação numérica de votos, mas sim um processo alquímico, cujo desfecho depende de transmutações sujeitas ao imponderável das circunstâncias.

− O que singulariza a passagem de José Guilherme Merquior pela vida cultural brasileira?

− Em meu ensaio sobre José Guilherme Merquior, procurei analisá-lo pela ótica de sua geração, ou seja, a das pessoas que estão chegando aos 50 anos − entre as quais me incluo − que passaram pela experiência da liberdade e do desenvolvimento do governo Juscelino, tiveram formação no exterior e sempre manifestaram uma acentuada preocupação com os destinos do Brasil, e que, como pessoas e intelectuais, quiseram ajudar a transformar esse potencial em realidade. Daí uma agenda comum de temas. A meu ver, o que caracteriza José Guilherme são as respostas sempre instigantes que deu às perguntas da nossa geração. Essas respostas têm, como fio condutor, certos temas recorrentes, como a defesa da razão e o antiformalismo, e desaguaram no José Guilherme maduro do liberalismo, que, em seu pluralismo um tanto centrífugo, ajustou-se perfeitamente à variedade dos seus interesses. Ele foi uma inteligência absolutamente excepcional e admiravelmente bem equipada.

− Em Ensaios liberais o senhor dedica dois ensaios ao crítico Antonio Candido. Num deles afirma que Formação da literatura brasileira é um livro “a favor”. Por quê?

− Na década de 50, surgiram vários livros dedicados à nossa formação, entre eles Os donos do poder, de Raymundo Faoro, no qual se estuda a formação do nosso patronato político, Formação econômica do Brasil, de Celso Furtado, onde são analisadas as bases da economia nacional, e Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido, que é, basicamente, uma obra preocupada com os fundamentos do sistema cultural e literário brasileiro, ou seja, com aquilo que configura a especificidade desse sistema, e em que medida isso justifica a idéia de uma identidade nacional. Na sua estrutura, trata-se de um livro preocupado com a criação dessa ordem literária e cultural brasileira, e por isso acho que é, na sua obra, um livro sobre a ordem. Antonio Candido teve uma importância decisiva em minha vida. Fui seu aluno de Teoria Literária e nele encontrei uma figura socrática, por força de suas qualidades e de sua cultura, e por esta combinação única que assinala o seu percurso intelectual, que é o da compreensão do jogo dialético da ordem e da desordem na literatura, na sociedade e na política. A ele devo uma parte fundamental da minha formação, e creio que deixei isso claro nos dois ensaios a ele dedicados.




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