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Entrevista
dada por Álvaro Cardoso Gomes, autor de Contracanto,
ao professor e crítico literário João Augusto de
Oliveira,
autor de O Romance morreu? Viva o romance!
JAO:
Em linhas gerais, de que trata especificamente este
seu novo romance, Contracanto?
ACG: Simplificando bem a idéia de Contracanto,
eu diria que trata do submundo, ou melhor, do pobre
mundo do crime "organizado", contemplando uma vasta
galeria de tipos representativos dessa fatia da sociedade
brasileira contemporânea: chefões do tráfico, traficantes,
pistoleiros de aluguel, prostitutas, travestis, policiais
corruptos, trombadinhas & trombadões, terroristas, arrivistas,
etc. Contudo, é preciso deixar bem claro que, com essa
galeria de tipos, não pretendi fazer apenas um retrato
naturalista do submundo, na linha tradicional do "romance
negro" americano ou na linha de um Rubem Fonseca.
JAO:
Efetivamente, pelo exame da estrutura do romance, é
possível ver que ele se monta como um verdadeiro puzzle,
ou seja, que ele comporta diversas leituras, contrapondo,
por exemplo, no plano da linguagem, o nível erudito
aos idioletos populares. Comente esse aspecto estrutural
e explique a relação dele com o sentido da obra.
ACG: Com efeito, há várias vozes no romance, desde a
que representa a de um demiurgo, passando por sonhos
e projeções de desejos das personagens, até o relato
cru e frio da brutalidade humana, por meio de diálogos,
narrativas e fluxos de consciência. Contracanto pode
ser lido na seqüência, alternando-se as vozes narrativas,
ou ser lido voz a voz, bastando o leitor acompanhar
cada voz já especificada no roteiro ou no índice geral.
Nesse sentido, o romance é mesmo entendido como um jogo,
que se apóia de princípio no verso augural de Mallarmé:
"Un coup de dés jamais n'abolira le hasard". Esse verso
serve de epígrafe ao livro e de base a um dos capítulos
fundamentais da obra, o 32. A partir desse pressuposto,
é como se entendesse a movimentação de minhas personagens
como um jogo dominado pelo acaso, vejo a aventura humana
em toda sua desgraça como uma aventura absolutamente
aleatória, sem grandeza e nem transcendência.
JAO:
E nesse acaso evidentemente entra a ação do demiurgo,
como se Deus criasse o homem à sua semelhança para abandoná-lo
à própria sorte...? Fale um pouco sobre isso, inclusive
mostrando a relação entre essa temática e o título do
livro.
ACG: Contracanto - o título significa: um canto contrário
ao outro, ou mesmo um canto que corre paralelo ao outro
- a essência da paródia. Ou seja, meu livro é essencialmente
paródico: a história humana, de meu ponto de vista,
é uma paródia da história divina (que já é de si também
uma paródia...). Os homens imitam mal e porcamente aquilo
que a divindade estipulou como História. Dessa perspectiva,
Contracanto tem um vínculo poderoso com meus dois últimos
romances, Os Rios Inumeráveis e sobretudo A Divina Paródia.
Nesse último, a personagem, depois de percorrer uma
trajetória degradada, sofrendo vilipêndios, acaba por
se descobrir como o mais ínfimo dos filhos de Deus.
Essa idéia basilar teogônica talvez resuma como vejo
Deus, o mundo, o homem.
JAO:
Esse aspecto inovador de seu romance - vozes narrativas
que se alternam, total subversão do tempo, contraponto
da linguagem erudita e da chula, mistura da narrativa
com o ensaio e a poesia - faz com que ele, de certo
modo, promova uma implosão do gênero. A que se deve
essa tentativa crescente em sua obra - desde Os Rios
Inumeráveis - de fugir do tradicional, daquilo que normalmente
se pratica, em termos de literatura, no Brasil?
ACG: Eu diria que a fuga do tradicional talvez nem seja
programático de minha parte. Escrevo desse modo porque
me apraz, porque é uma exigência interior, como se eu
procurasse traduzir pela linguagem aquilo que me anda
pelo subconsciente (e mais ainda pelo consciente). Mas
acredito que realmente acabo por criar objetos diferenciados
em relação ao que se faz hoje em dia no Brasil. Em geral,
no nosso país, os escritores, principalmente os romancistas,
ainda estão atrelados à velha fórmula do romance regionalista
(cujo modelo maior é Jorge Amado): enredo linear, servidão
a uma linguagem de cunho realista, retrato psicológico
simplificado ou complexo das personagens, isolamento
do romance em relação a outras manifestações do espírito,
etc.
JAO:
Com essa tendência em praticar uma literatura, digamos,
na falta de melhor termo, altamente erudita, você não
corre o risco de se distanciar do leitor?
ACG: É evidente que corro, mas perguntaria: distanciar-me
de qual leitor? O ávido por best-sellers? O leitor acostumado
ao convencional? Mas, independentemente disso, creio
que talvez uma das funções do escritor seja transgredir,
seja buscar o novo, aquilo que as pessoas apenas intuem
mas não têm capacidade de verbalizar. Em outras palavras,
penso que o escritor não deve traduzir aquilo que o
leitor quer, mas, sim, provocá-lo com o novo (que, aliás,
Baudelaire, um dos motivadores de meu romance, defendia
com veemência). Ou, se se quiser, o escritor deve criar
seus próprios leitores, seja perdendo os leitores tradicionais
ou não. Essa é uma das funções essenciais da literatura,
ou, pelo menos, da literatura que realmente deseja receber
o nome de literatura: um jogo altamente sofisticado
entre autor e leitor para verbalizar aquilo que realmente
há de significativo no mundo e nos seres.
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