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Luiz
Felipe Castro Mendes entrevistado por Cecília Costa
[O Globo, 11.08.2001]
A
morte é um escândalo
O
ativo cônsul português Luís Filipe Castro Mendes, que
generosamente vive abrindo os salões do Palácio São
Clemente para tertúlias literárias e outros eventos
— com destaque para as comemorações do Descobrimento,
que lhe exigiram um trabalho extenuante — é também um
ótimo poeta. Quem quiser descobrir a leveza e o apuro
formal da poesia deste tão gentil anfitrião tem agora
uma boa oportunidade com a edição, pela Topbooks, de
sua “Poesia reunida”. A obra, composta por oito livros
de poemas que versam sobre a morte, o desejo, a neve
e a névoa e a fugacidade das relações humanas, será
lançada na próxima quinta-feira no Palácio, com direito
a coquetel e leitura de versos.
Cecilia
Costa
“Poesia reunida” traz poemas de 1985 a 1999. Começou
a escrever poesia em 1985, Luís Filipe, ou rejeitou
os primeiros versos?
LUÍS
FILIPE CASTRO MENDES: Comecei a escrever poesia bem
jovem, lá pelos 15 anos. Publiquei versos no “Diário
de Lisboa” juvenil. Meu primeiro livro, “Recados”, foi
editado em 1983. Mas mesmo esse livro ainda era imaturo.
Por isso preferi iniciar esta “Poesia reunida” com “Seis
elegias”, escritas em 1985, quando eu tinha 35 anos.
Meus poemas anteriores não me satisfaziam.
Escreve
só poesia?
LUÍS FILIPE: Também escrevi novelas, contos, mas o que
sou mesmo é poeta. Tenho sete livros de poesia publicados
em Portugal e neste livro da Topbooks foi acrescentado
um oitavo, de 1999, “Os amantes obscuros”. E já há um
outro quase no prelo, “Dias inventados”, programado
para sair em outubro pela minha editora portuguesa e
que traz referências ao Brasil. Fico feliz com a edição
desta “Poesia reunida”, que traz textos de três poetas
brasileiros, Ivan Junqueira, Pedro Lyra e Alexei Bueno.
Foi uma alegria para mim o editor José Mario Pereira
decidir me publicar no Brasil, já que aqui, como poeta,
sou desconhecido.
Por
que, já tendo uma antologia publicada em Portugal, sair
no Brasil é tão importante?
LUÍS FILIPE: Sim, já tenho uma obra reunida em Portugal.
Mas é muito precária a circulação de livros portugueses
no Brasil e de livros brasileiros em Portugal. Existe
um problema comercial sério, de parte a parte, o que
resulta num enorme desconhecimento dos autores de Portugal
no Brasil e do Brasil em Portugal. A poesia brasileira,
fora algumas exceções, como Ferreira Gullar, Adélia
Prado e Manoel de Barros, ainda está parada em João
Cabral de Melo Neto. Os poetas brasileiros mais conhecidos
em Portugal continuam sendo os dos anos 50, 60, ou seja,
Bandeira, Drummond, Cecília Meireles, Murilo Mendes,
Jorge de Lima.
E,
no Brasil, qual é a situação dos poetas portugueses?
LUÍS FILIPE: Há muito pouco conhecimento sobre a poesia
portuguesa depois de José Régio, Mario de Sá Carneiro,
Florbela Espanca. Somente os poetas e os que estudam
a literatura portuguesa nas universidades é que conhecem
a obra de Jorge de Senna, Carlos de Oliveira, Sophia
de Mello Breyner, Eugénio de Andrade. De qualquer forma,
começa-se a se sentir uma tentativa de aproximação,
como por exemplo a edição pela Iluminuras da obra de
Herberto Helder. Houve também a antologia de poetas
portugueses preparada por Alexei Bueno e Alberto da
Costa e Silva para a Bienal de 1999 e recentemente a
revista “Rumos” publicou um número sobre os poetas portugueses
jovens. Os concretistas têm relação com Ernesto Mello
de Castro e Ana Haterli, ligados aos irmãos Campos.
Murilo Mendes foi muito amigo de Sophia, Adolfo Casaes
Monteiro e Jorge de Senna viveram aqui no Brasil, mas
mesmo assim eu diria que a poesia portuguesa, aqui,
ainda está parada em José Régio e, em Portugal, em João
Cabral.
Qual
seria a conseqüência?
LUÍS FILIPE: Bem, acaba que a poesia brasileira e a
portuguesa estão se desenvolvendo sem se conhecerem
e trabalham com a mesma língua. É impensável, em Portugal,
ser poeta e não conhecer Drummond, Bandeira, Cecília,
mas no Brasil é grande o número de pessoas que nunca
leu Sophia ou Eugénio. Espero que o Prêmio Camões concedido
a esses dois grandes poetas ajude na divulgação aqui
no Brasil, trazendo à luz novas edições.
Bem,
vamos falar de sua poesia. Sempre menciona uma certa
distância das vanguardas...
LUÍS FILIPE: Mas não sou tão radical. Gosto da tradição
surrealista portuguesa, representada sobretudo por Herberto
Helder, Mario Cesarini, Alexandre O’Neil. Mas nunca
fiz parte desse movimento, que foi extremamente importante
em Portugal, tendo influenciado vários poetas. Creio
que João Cabral exerceu uma influência na poesia brasileira
parecida com a que Herberto exerceu na portuguesa, apesar
de serem totalmente diferentes. Herberto é cósmico,
visionário, Cabral teve o efeito da secura, da dureza.
Houve muitos imitadores de Herberto em Portugal, mas
meu caminho foi outro.
Sua
poesia evoluiu em direção às formas fixas, não?
LUÍS FILIPE: Sim, passei por um processo de busca de
formas. Os dois livros iniciais, “Seis elegias” e “A
ilha dos mortos”, não têm a procura formal dos livros
posteriores, sendo mais soltos. Mas em “Jogo de fazer
versos” e em “Viagem de inverno” retomei as formas canônicas,
como a terza rima, a sixtina, o soneto inglês, os epigramas.
Tenho um compromisso com o rigor e com a história do
poema, daí os versos intertextuais. A forma fixa para
mim faz parte do jogo. Fiz também poemas políticos,
como “Idos de Marx”, sempre preocupado em introduzir
muitas vozes e cores em minha lírica. A partir de “Modos
de música”, no entanto, creio que minha poesia foi ficando
mais uniforme, o mesmo ocorrendo em “Os amantes obscuros”.
Já em meu último livro volto a diversificar mais, sem
abandonar as formas canônicas.
A
música da morte é a poesia?
LUÍS FILIPE: A música da morte é uma defesa contra a
morte. É preciso fazer esta pequena música para não
ouvir a morte. Para esquecer o silêncio da morte. E
essa pequena música pode ser a poesia, mas pode ser
também a arte, a vida, tudo aquilo a que a gente se
apega ou faz para perdurar, ficar, transcender nosso
destino comum.
Crê
em vida após a morte?
LUÍS FILIPE: Não. A morte é um escândalo. Não existe
nada após o nosso existir. Tentamos lutar, esquecer
o silêncio através do desejo, do amor, da poesia. Mas
de nada adianta que algo fique depois de nós. De nada
adianta para Eça de Queiroz que ele continue sendo muito
famoso. Eça está morto. Eu não creio em espírito. Em
outras palavras, se nossa obra for imortal, isso não
nos trará benefícios no tocante à nossa morte.
Seus
poemas são sempre dedicados a alguém, uma mulher, parece.
LUÍS FILIPE: É verdade, costumam ter um destinatário.
Existe um apelo a alguém. Uma presença, uma ausência,
um grito metafísico. O tu é uma forma de fugir ao nada.
E ao mesmo tempo ele é o nada. Há uma tensão em torno
deste destinatário, que faz parte da lírica amorosa.
A grande poesia é amorosa e a expectativa amorosa tem
a ver com esta tensão que alimenta a poesia, entre a
ausência e a presença, entre a falta, a impossibilidade
de amar, e o desejo de amar. Sempre estaremos insatisfeitos,
sempre teremos fome no coração.
E
as cidades de sua poesia?
LUÍS FILIPE: Alguns lugares para mim são matéria de
poesia. Cidades da África, Angola, cidades de minha
infância. Vivi em muitas cidades. Mesmo em pequeno me
mudei muito. Tive uma vida nômade. Trago recordações.
Cidades abstratas de memória. Cidades que evocam. Os
poemas recordam-nas, mas também fazem com que quem os
leia recorde suas próprias cidades. Ou então que sinta
uma nova experiência. Pois a poesia é para isso. Ela
não seria poesia se os sentimentos não convergissem.
O leitor tem que sentir um movimento análogo ao poeta
dentro de si. Em sua memória, em sua sensibilidade.
Mas ao mesmo tempo o poema tem que inspirar algo diferente,
ir além. Ser sensível aos sentidos e ao som.
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