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Um
libelo contra o império da moeda
Valor
Econômico - 27/01/2006
Luiz
Sérgio Guimarães / de São Paulo
Onze anos de ininterrupta e obsessiva doutrinação
neoliberal não conseguiram matar o velho nacionalismo.
Na versão apresentada pelo advogado André
Araújo, em seu livro "Moeda & Prosperidade
- O Impasse do Crescimento na Política de Estabilização"
(TOPBOOKS), ele ressurge remoçado e atlético.
Araújo
não amplia as fileiras de críticos do
excesso de conservadorismo monetário da atual
diretoria do Banco Central. Os críticos, muitos
deles adeptos do neoliberalismo também professado
pelo BC, querem menos juros, menos apreciação
cambial e mais crescimento. Tudo "dentro"
do modelo. Não querem a revogação
do modelo, mas a gestão mais competente e qualificada
dos mesmos princípios postos em prática
desde 1994.
Araújo
quer a substituição do modelo por um projeto
nacionalista de crescimento. Para tanto, o livro se
dedica a demolir os dogmas reverenciados pelos condutores
da política econômica deste e dos dois
mandatos presidenciais anteriores.
Já
na Introdução, Araújo esclarece:
o neoliberalismo não é uma verdade científica.
Trata-se de uma doutrina política destinada a
dominar ideologicamente e sujeitar a sociedade aos interesses
econômicos de uma elite, a financeira. A estrutura
de acobertamento do caráter ideológico
do movimento neoliberal é notavelmente eficiente.
Alguns comentaristas conservadores nem reconhecem a
existência dele. Mas o plano que deu origem a
ele no território brasileiro, o Real, de 1994,
ainda não acabou.
Depois
que o plano de estabilização monetária
conferiu à economia um mínimo de funcionalidade,
deve ser abandonado, diz o advogado. Caso persista,
condenará o país ao sempiterno resfriamento
econômico e, por conseguinte, à crise social.
Será possível, depois de desativado o
plano, crescer sem inflação ou com pouca
inflação.
Um
dos mitos da doutrina neoliberal, teorizada pelo economista
austríaco Friedrich von Hayek e operacionalizada
pelo monetarista americano Milton Friedman, prega que
a solução dos problemas nacionais deve
ser buscada na conjugação da abertura
total da economia aos mercados internacionais e do permanente
estado de reformas. Os governos precisam fazer a "lição
de casa" o tempo todo.
Para
Araújo, isso significa a permanente desmontagem
do Estado e de seus sistemas de saúde, educação,
amparo social e segurança. "Os neoliberais
querem neutralizar a idéia keynesiana de que
cabe ao Estado proteger os mais fracos. Mas é
justamente para isso que existe o Estado", escreve
o autor.
Araújo
investe contra a idéia segundo a qual o crescimento
econômico está condicionado à estabilidade
monetária. Trata-se, diz ele, de um "estranho
axioma". Quando artificial, a estabilidade gera
desemprego e crise social, não crescimento. A
única estabilidade confiável é
a que resulta de um processo natural e virtuoso de equilíbrio
econômico geral. Ela é atributo das economias
maduras, que já resolveram os problemas do crescimento.
A
obsessão antiinflacionária dos governos
neoliberais tem uma explicação simples.
A moeda estável é o "único
instrumento, o totem, o ícone valioso que o mercado
entende". Sem moeda estável não há
como fazer negócios no mercado financeiro.
"Toda
a estrutura contratual, bancária, de emissão
de títulos, de previdência privada e de
derivativos necessita do parâmetro-mor, da baliza
da moeda em equilíbrio. Quem pode operar sob
regime inflacionário é a economia da produção,
a economia real, a economia do povo, a economia não-financeira",
diz Araújo. A estabilidade monetária não
é pré-requisito para a expansão
econômica, mas para a preparação
da economia para a invasão do capital especulativo,
dos fundos de investimento, dos hedge funds,
das grandes aquisições de empresas nacionais,
estatais e privadas.
A
longa discussão sobre crescimento e inflação
é o ponto mais polêmico do livro. A argumentação
governamental de que o combate à inflação
é moral e socialmente justificável, pois
visa a preservar a renda dos mais pobres, é contestada.
"Se ao povo fosse dada a opção de
estabilidade com desemprego ou inflação
com emprego, esta última venceria, porque é
possível sobreviver com emprego e inflação,
mas não com estabilidade sem emprego".
André
Araújo distingue dois tipos de inflação.
A ruim é a que resulta da ampliação
do déficit público necessária para
a cobertura dos gastos crescentes de custeio. A boa
consiste na recuperação da capacidade
emissora pelo governo para financiar investimentos produtivos
e expandir o crédito à produção.
Essa capacidade é menos onerosa que o endividamento
público interno. O exemplo histórico do
primeiro caso pode ser colhido nos períodos entre
1961 e 64 e entre 1985 e 1994.
A
época da "inflação produtiva"
ocorreu entre os anos JK (1956 a 1960) e nos governos
militares (1965-1984).O crescimento será impossível
no "modelo monetarista", até porque,
observa Araújo, o objetivo do modelo não
é o crescimento, mas, sim, o "equilíbrio
na estagnação". O crescimento atrapalha
o monetarismo porque exerce pressões insuportáveis
sobre variáveis que prefere deixar neutras. O
crescimento faz, por exemplo, implodir o coração
do modelo: o regime de metas de inflação.
Araújo
propõe dois planos detalhados de saída
do monetarismo doutrinário para um modelo que
chama de "eclético flexível":
um conservador e outro mais radical. Ambos passam pela
reestruturação da dívida interna,
o controle do câmbio e controles de preços.
Não
se pense que o livro de Araújo se destina a divulgar
programas "esquerdistas" ou "socialistas".
Freqüentemente, o advogado flerta com a direita
nacionalista, embora seu figurino ideal de estadista
o aproxime mais do economista inglês John Maynard
Keynes (1883-1946) e do presidente do Federal Reserve,
Alan Greenspan. Este é o típico "pragmático
não-doutrinário" que fascina o autor,
cujo livro só será debatido intensamente
se a causa for abraçada por um candidato à
sucessão de Lula com chances reais de vitória.
Leia
também:
André
Araujo na coluna de Luis Nassif
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