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Novo
volume dos Ensaios Reunidos, de Otto Maria Carpeaux,
compreende 205 artigos de jornal inéditos em
livro
Editora
da UniverCidade/ Topbooks
942 páginas / R$93,90
Ensaios
Reunidos: 1946-1971 - Volume II, do crítico
Otto Maria Carpeaux (1900-1978), chega às livrarias
depois de dois anos de trabalho de restauração
e organização da jornalista Christine
Ajuz. O resultado é portentoso e tão ou
mais importante que o primeiro volume, de 1999, que
trazia os ensaios reunidos em livros por Carpeaux. Pela
primeira vez são enfeixados artigos dispersos
que se encontravam no arquivo do intelectual em estado
precário, com folhas rasgadas e passagens ilegíveis.
O volume colabora na redenção de um dos
faróis do conhecimento no Brasil do século
passado.
Ironicamente,
poucos intelectuais brasileiros amargaram tanto esquecimento
pela posteridade e injustiça de seus contemporâneos
quanto Carpeaux. Seu nome raramente consta das enciclopédias
de literatura brasileira, embora tenha se dedicado a
ela e a ampliar os horizontes do saber estético
brasileiro. No fim da vida, fora da imprensa diária
- para a qual havia escrito durante 30 anos -, Carpeaux
redigiu verbetes. Era conhecido como enciclopédia
viva e militante político. Mas poucas obras de
referência lembram seu nome.
O
estigma do silêncio em torno dele iniciou-se em
1943, pouco depois de se estabelecer na capital brasileira.
Intelectuais "progressistas" (de esquerda)
assinaram um manifesto de repúdio a Carpeaux,
acusando-o de colaborador dos nazistas. Motivo: ele
havia feito um obituário do escritor Romain Rolland
- que julgava ser (com razão) mau romancista.
Como Rolland era um ídolo da esquerda e Carpeaux
um mero "alemão fugido", a resposta
resultou dura. Entre os signatários do documento,
estavam Mário e Oswald de Andrade e Carlos Lacerda.
Havia muito de xenofobia, preconceito e inveja de um
erudito com formação muito superior à
dos confusos luminares tropicais. O golpe foi injusto
contra quem fugira do regime nazista, tinha pai judeu
e havia se naturalizado brasileiro. Para se adequar
ao ambiente francófilo, afrancesou o nome. Chamava-se
Otto Karpfen, nome que, pensava, jamais emplacaria entre
a intelligentsia local, que, na maioria, repudiava Hitler
e alemães.
Karpfen
odiava o nazismo. Ele e sua mulher, a cantora lírica
Helena, vienenses, desembarcaram em 1939 com uma bagagem
de livros raros e um pedido de asilo do papa Pio XII
ao intelectual católico Alceu Amoroso Lima, que
o acolheu. Karpfen vinha com doutorados em Filosofia,
Letras, Física e Química pela Universidade
de Viena - e a Viena fin-de-siècle e de Wittgenstein,
capital da vanguarda da Europa, que acabava de capitular
à barbárie hitlerista. Alceu lhe arrumou
um emprego no Paraná. Em 1942, já atuava
no Rio de Janeiro. Dominando o português além
de outras 14 línguas -, trabalhou como colunista
do Diário Carioca. Gago e nervoso, os
cariocas logo o apelidaram de "gagogênio"
- inspirados no gasogênio, o combustível
dos tempos de racionamento de gasolina. Pela gagueira
ou pela marca de estrangeiro, Carpeaux jamais lecionou
em universidades brasileiras. Sua produção
jornalística, no entanto, foi portentosa.
Os
205 artigos do volume foram estampados entre 1946 e
1969 nos suplementos de jornais como A Manhã,
O Jornal e O Estado de S. Paulo. Completam
o livro três prefácios, para obras de Manuel
Bandeira, Goethe (1948) e Hemingway (1971). Os temas
são múltiplos: o fim da História,
ficção científica, Canudos, Verlaine,
a pintura, Van Gogh, Mozart e Gramsci. Em 1960, já
discutia a morte das vanguardas. "Ao terminar a
leitura, você sente que alguma coisa mudou em
sua vida", diz a organizadora, que anuncia um terceiro
volume para julho. Na realidade, Carpeaux poucas vezes
foi igualado no Brasil em sabedoria e erudição.
Cada um de seus artigos contém uma lição
de humanismo, arte e estilo. Naquele tempo, o "alemão"
escrevia melhor que muito brasileiro.
*
Artigo escrito por Luís Antônio Giron,
publicado na Revista Época, 26 de dezembro de
2005.
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Sinopse
/ coluna de Daniel Piza
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