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Grande leitor de poesia
Ruy Espinheira Filho *
Antonio Carlos Secchin é desses raros críticos
e ensaístas que tanto escrevem com cultura e
erudição quanto com o conhecimento interior
da literatura. Isto porque é também um
criador, especialmente poeta - e poeta que já
se firmou há muito no conceito do público
e da crítica. Assim, temos aqui, em Memórias
de um leitor de poesia, análises literárias
de quem conta com meios excepcionais para exercê-las.
E com ainda outra virtude: escrita despida de pedantismo
ou estilo arrevesado, mostrando que o professor Secchin,
da UFRJ, está longe daqueles que transformam
a crítica num território esterilizante,
num discurso atulhado de referências pedantes
que em nada iluminam o texto posto em questão
e acabam sendo não mais que um bolodório
incompreensível que só revela mesmo, ao
fim, algumas características (ou mistificações)
do inchado umbigo do autor.
Memórias
de um leitor de poesia é, portanto, obra
que tanto chega ao erudito quando ao leitor comum (que
geralmente é o melhor leitor), abordando a literatura,
em particular a poesia, com vasto conhecimento e aguda
sensibilidade. Há momentos em que chega a ir
adiante de esclarecimento meramente intelectual, suscitando
autênticas emoções estéticas.
O que acontece sobretudo (todos temos nossas preferências...)
em “A rasura romântica”, segunda parte
de “Variações drummondianas”,
quando somos levados a uma releitura de “Canção
do exílio”, de Gonçalves Dias, posta
ao lado de “Nova canção do exílio”,
de Carlos Drummond de Andrade. A meu ver, um estudo
antológico.
Na
verdade, o livro inteiro, tratando de poesia ou prosa,
é indispensável, inclusive em sua parte
final de depoimentos e entrevistas. Nele, vamos da experiência
pessoal do autor, suas fortes e lúcidas convicções
como crítico e criador, a uma generosa viagem
entre precursores, românticos, parnasianos, simbolistas
e modernos, além de diversas incursões
às relações Brasil/Portugal.
Machado
de Assis reclamou, mais de uma vez, na segunda metade
do século XIX, da falta de crítica literária
em nosso país. O século XX, porém,
foi rico em crítica, basta lembrar o trabalho
desenvolvido por Mário de Andrade, Manuel Bandeira,
Sérgio Milliet, Álvaro Lins, Wilson Martins,
Otto Maria Carpeaux e José Guilherme Merquior.
Infelizmente, a partir do final do milênio, a
crítica foi-se tornando cada vez mais rarefeita,
praticamente expulsa dos meios de comunicação,
e os que ainda escrevem (com as exceções
de sempre) estão muito menos interessados em
acompanhar a literatura, estudar o seu valor estético,
do que em promover amigos, cúmplices, e promover
- como já foi dito - a mera exibição
dos próprios umbigos.
Neste
panorama crítico desolado, o livro de Antonio
Carlos Secchin é um belo bosque cheio de vida.
Com segurança intelectual, que jamais dispensa
a emoção, ele nos guia por entre autores
como Fagundes Varela, Machado de Assis, Mário
Pederneiras, Cecília Meireles, Jorge de Lima,
o já visto Drummond, Edla Van Steen e Chico Buarque
do Holanda (uma curiosa experiência com letras
de canções). Particularmente instigantes
também são, a meu ver, os estudos sobre
a poesia religiosa de Jorge de Lima e a espiritualizada
da primeira fase de Vinicius de Moraes, que surge como
grande devedor de Augusto Frederico Schmidt e Cecília
Meireles, antes do definitivo caráter neorromântico
que o celebrizou.
Memórias
de um leitor de poesia, de Antonio Carlos Secchin,
é, pois, em suma, realização que
nos devolve os grandes momentos críticos do século
XX e nos renova as esperanças de uma retomada
séria da crítica nesta segunda década
do século XXI. Uma obra essencial - tanto para
os que há muito habitam o mundo da literatura
quanto para quem quiser nele se iniciar pela mão
de um guia realmente iluminador de caminhos e espíritos.
*Ruy Espinheira Filho é poeta, ensísta
e membro da ALB
Publicado no jornal A Tarde, de Salvador,
em 29 de janeiro de 2011
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