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Publicado na revista Carta Capital em 8 de março
de 2006
LEITOR
COM LUPA
Wilson
Martins é um intelectual que pensa a cultura
a partir da crítica literária
Miguel Sanches Neto
Crítica publicada em jornal que se lê em
livro com grande prazer é a produzida pelo derradeiro
remanescente de uma idade em que erudição
e fluência literária andavam juntas, para
o bem da cultura: o paranaense Wilson Martins (1921).
Ele acaba de lançar mais uma série com
seus artigos de jornal - O Ano Literário -
2000-2001. Depois de concluir os 15 volumes de Pontos
de Vista (T.A. Queiroz, 1991-2004), que acompanhava
a produção brasileira de 1954 a 1999,
Wilson Martins passa agora a publicar esta nova coleção,
com seus textos sobre obras surgidas a partir de 2000.
Quando
lhe perguntam quais são suas melhores críticas,
Wilson Martins responde que são todas. Não
é nenhuma crise de vaidade. Para o crítico,
os textos publicados funcionam como capítulos
de uma reflexão orgânica sobre a movimentação
de idéias e estilos, dando conta não apenas
do sentido isolado de obras ou autores - esta é
a principal característica (e limitação)
da crítica universitária - mas criando
relações de contigüidade entre obras
e produtores de um determinado momento: "Os leitores
comuns encaram cada livro como entidade autônoma,
enquanto o crítico só pode vê-los
como segmentos de um sistema intelectual". Ele
não é apenas um crítico de livros,
tal como o resenhista, mas um intelectual que pensa
a cultura a partir dos livros.
Assumindo
uma postura militante, como compromisso intelectual
sistemático, Wilson Martins crê que "a
crítica ou será judicativa ou não
será", cabendo a esse profissional confrontar
as intenções criativas do autor e o resultado
final, por mais polêmica que possa ser essa sua
intervenção. Assim, seus artigos tratam,
muitas vezes, de vários autores em poucos parágrafos,
ou usam um livro apenas como ponto de partida para uma
reflexão mais ampla, apontando tendências
editoriais e demarcando o retorno de nomes e de temas
literários. Ele não fica restrito ao julgamento,
embora nunca deixe de julgar, não só em
execuções capitais, mas também
ao se valer de lacunas e ironias.
No
ano-período coberto por este volume, 2000 e 2001,
sobressaem as antologias, prática editorial muito
freqüente por conta do fim do milênio, possibilitando
uma visada panorâmica sobre a produção
brasileira. Pequena foi a crítica sobre o conto,
preponderando as análises de poesia, romance
e, principalmente, estudos históricos e críticos,
dado o grande número de reedições
e análises de obras de autores consagrados, reflexo,
ao que tudo indica, do mesmo sentimento de fim de período.
Wilson
Martins ignora as palavras de ordem do momento e se
dedica a uma opinião independente sobre as obras,
desmistificando a idéia de que a crítica
é uma arte técnica, científica,
impessoal. Tratando de um livro de Laís Corrêa
de Araújo sobre Murilo Mendes, obra em que ele
e outros são negados pela ensaísta, Wilson
exercita sua inteligência: "Há uma
razão para meus equívocos: é que
aquelas mal-afortunadas palavras (um texto seu sobre
Murilo Mendes) exprimiam 'nada mais do que uma opinião,
realmente', o que me deixa perplexo e satisfeito ao
mesmo tempo. De fato, os julgamentos críticos
são feitos de opiniões: as minhas, as
de Laís Corrêa de Araújo e as dos
que vieram cometendo erros e acertos ao longo dos séculos".
E está aí uma das marcas da grande crítica:
ela comporta erros e acertos pessoais por trabalhar
com um material não-canônico, sobre o qual
inexiste consenso histórico.
Essa
postura judicativa, a obsessão pela leitura do
maior número de livros (a grande maioria é
julgada pelo silêncio), o humor ao tratar de questões
culturais, a língua literária, a leveza
do estilo, as fabulosas sínteses históricas
e analíticas, tudo isso manifestado em uma personalidade
de uma coragem rara, fazem dos artigos de Wilson Martins
uma espécie de suma crítica. Como conjunto,
seus textos guardam as características da crítica
histórica e da ensaística, porque, mesmo
em um espaço limitado, Wilson Martins consegue,
pela recorrência dos temas, tratar de forma ampla
nossa produção literária.
E
eis outra particularidade desse intelectual. Enquanto
a maioria de nossos homens de letras volta-se para os
modismos estrangeiros, ele se mantém atento à
produção nacional. Perguntei-lhe uma vez
qual livro ele gostaria de ter escrito. Respondeu-me
que seria um ensaio chamado Os Brasileiros. A
crítica literária foi a forma que ele
encontrou de nos legar este inusitado ensaio.
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