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Publicado na revista Carta Capital de 15 de junho
de 2005
Um século à frente
Faz cem anos uma das obras mais perspicazes e originais
sobre o continente americano
Antonio Luiz M. C. Costa
Uma
das criações do médico e educador
Manoel José Bomfim (1868-1932) é bem conhecida
dos brasileiros mais velhos: O Tico-Tico, a primeira
revista no Brasil a ser dedicada a crianças e
a publicar quadrinhos, circulou de outubro de 1905 até
ser sufocada, já nos anos 50, pela concorrência
dos super-heróis da Ebal e dos patos da Abril.
Alguns, talvez, até se lembrem de Através
do Brasil, paradidático pioneiro escrito
em parceria com Olavo Bilac, inevitável nas escolas
brasileiras de até meados do século passado.
Menos conhecida é sua obra política, inaugurada
com América Latina: males de origem,
cuja publicação no Brasil completa, em
junho, cem anos.
Pouco
recorreu aos raros críticos acadêmicos
do racismo. Quase não eram necessários:
copiosas citações dos próprios
elitistas, racistas e imperialistas - como o historiador
português Oliveira Martins - lhe bastavam para
mostrar como em Palmares, no México e no Peru
os negros escravizados e os índios conquistados
e chacinados atingiram patamares de organização
e civilização superiores aos dos primeiros
romanos e teutões, cujos descendentes então
arrotavam sua superioridade racial e seu direito a governar
os povos "inferiores".
A
vontade, a coragem heróica e a capacidade de
cooperação e trabalho dos mestiços
latino-americanos haviam sido demonstradas em Canudos
e pelo Paraguai de Solano López. Faltavam-lhes
apenas oportunidade e educação para descobrir
como aplicar seus esforços em seu próprio
benefício. Mas Bomfim acreditava na hereditariedade
de características historicamente adquiridas.
Entre essas destacava o "parasitismo social",
visto não como metáfora, mas como realidade
literal, cujas homologias com o parasitismo biológico
analisa com minúcias. Ao predar as colônias
americanas e depois lhes sugar as riquezas e o trabalho,
Espanha e Portugal seguiram o caminho evolutivo típico
do parasita: seus órgãos sociais atrofiaram-se,
salvo os indispensáveis para reproduzir-se e
explorar a vítima. Decaíram da liderança
mundial para a condição de países
mais atrasados do Ocidente, até perderem a capacidade
de reter a presa.
A
degeneração do parasita social seria profunda:
não irreversível como a do parasita biológico,
mas ainda assim difícil de "curar".
A convalescença da vítima libertada poderia
ser bem mais rápida, mas é complicada
por essa ser, em parte, cria do parasita. Suas elites
tiveram como modelo os parasitas ibéricos profundamente
resistentes à mudança - pois qualquer
alteração poderia comprometer a sua capacidade
espoliadora - e herdaram sua mentalidade. As classes
exploradas continuam a identificar o trabalho com a
escravidão e a desconfiar do Estado teoricamente
independente, sucessor pouco modificado do parasitário
vice-reino colonial. Esse estado de coisas torna-se
uma tradição e implanta hábitos
dos quais não se tem consciência, mas aos
quais se obedece. "Um conservantismo, não
se pode dizer obstinado, por ser em grande parte inconsciente,
mas que se pode chamar propriamente - um conservantismo
essencial, mais afetivo do que intelectual".
As classes dominantes herdam e transmitem uma atitude
escravocrata e, sem saber relacionar-se de outro modo,
escravizam-se elas mesmas à tradição,
mesmo que pudessem ganhar em riqueza e poder com o progresso
social.
No
prefácio da edição de 1993 (Topbooks),
Darcy Ribeiro atribui a Bomfim o título de "fundador
da antropologia do Brasil e dos brasileiros" e
critica pensadores progressistas posteriores por não
o terem continuado: - Tendo uma fonte doméstica
de água pura, foram beber seu anti-racismo na
nova antropologia boasiana ou na postura antifascista.
Nossos pensadores são servis demais. As gerações
não se concatenam. Cada qual se atrela, se ancila,
aos moinhos de idéias lá de fora. A lucidez
de Bomfim é mesmo impressionante. Mas o arcabouço
teórico, fundamental para a constituição
de uma tradição científica, não
poderia ter sido aproveitado pelas gerações
seguintes. Sua obra compartilha dos fundamentos do social-darwinismo
racista que denuncia: teoriza a partir de uma metáfora
discutível, pensa a sociedade como organismo
biológico e legitima um curto-circuito indevido
entre biologia e ciência social.
Esse
naturalismo cientificista, respeitado no século
XIX e início do século XX como modelo
para as ciências sociais, seria superado pela
antropologia cultural, inaugurada em 1911 com A Mente
do Homem Primitivo, de Franz Boas e pela crítica
socialista, com as obras de Rudolph Hilferding (1910),
Rosa Luxemburgo (1913), Bukharin e Lenin (1916). O pensamento
biologizante se restringiria cada vez mais à
retórica reacionária e sairia de circulação
com a derrota do fascismo e do nazismo. Não foi
necessariamente por servilismo a modelos importados
que as novas gerações não o seguiram.
A ciência é universal - apesar da retórica
pseudocientífica do imperialismo e do racismo
- e teorias mais adequadas, fundadas na cultura ou no
conflito social, eram de fato necessárias.
O
próprio Bomfim não hesitava em montar
sua maquinaria teórica com "moinhos de fora".
Seu livro de 1905 começou a ser escrito em março
de 1903, quando, comissionado pelo Ministério
da Educação brasileiro, estudava pedagogia
na Sorbonne e estagiava no laboratório de psicologia
experimental de Alfred Binet. Mas o autor não
deixou claro quais foram as influências em sua
obra política. Talvez explicitá-las desacreditasse
ainda mais uma posição já isolada
e polêmica no contexto intelectual brasileiro.
Segundo O Rebelde Esquecido, biografia
por Ronaldo Conde Aguiar (Topbooks), Bomfim não
ignorava Marx. Em um artigo de 1901, criticou a otimista
visão do futuro do capitalismo do economista
John B. Clark (um dos pioneiros da teoria neoclássica)
em termos dignos do autor de O Capital: "Idéias
genéricas como liberdade, democracia, igualdade
(foram) utilizadas no passado e no presente pela própria
burguesia para justificar o capitalismo (...) com o
objetivo explícito de negar os antagonismos entre
as classes e as teorias socialistas".
Em
A América Latina..., porém,
o autor não parece levar em conta a crítica
marxista da economia política. Provavelmente,
foi mais importante a influência de um autor cujas
obras, segundo Aguiar, lhes foram indicadas pelo jornalista
Alcindo Guanabara: o anarcocomunista Piotr Kropotkin,
colaborador da Geographical Society, que, desde
1885, defendia que o ensino da geografia deve "despertar
nos alunos a afeição pela natureza, ensinar-lhes
que todos os seres humanos são irmãos,
qualquer que seja a sua nacionalidade ou a sua 'raça'
e inculcar o respeito pelas culturas ditas 'inferiores'".
Em 1902, Kropotkin criticou em Apoio Mútuo
a interpretação da teoria darwinista como
luta de todos contra todos. Explicou como a seleção
natural conduz à organização social
e à ajuda recíproca em organismos, sistemas
ecológicos, cooperação entre animais
e comunidades primitivas, até chegar à
civilização mais avançada. Uma
tese tão válida quanto a do social-darwinismo:
a evolução promove o mutualismo tanto
quanto a predação e o parasitismo.
O
progressismo ocidental não oferecia muitos outros
modelos: enquanto o governo da Venezuela declarava moratória
e enfrentava as canhoneiras anglo-alemãs, jornais
socialistas e anarquistas de toda a Europa concordavam
com os mais reacionários em condená-lo,
como observou Bomfim in loco. O próprio Marx
escrevera na Gazeta Renana, em 1849: "É
uma infelicidade se a rica Califórnia foi arrancada
dos mexicanos preguiçosos que não sabiam
o que fazer dela?" E, em 1903, muitos intelectuais
latino-americanos se rendiam ao pensamento racista e
imperialista e o secundavam ao lamentar a inferioridade
racial de seu próprio povo.
Essa
ideologia exigia uma crítica urgente. O Império
Britânico conquistara os bôeres na África,
os EUA haviam anexado as Filipinas, Porto Rico e o canal
do Panamá e invadiam repúblicas do Caribe,
e a América do Sul - último grande território
não submetido aos impérios - bem poderia
ser o próximo alvo. Como escreveu Roberto Schwartz
em um contexto não muito diferente, "o que
na Europa seria verdadeira façanha da crítica,
entre nós podia ser a singela descrença
de qualquer pachola" - a hipocrisia das ideologias
se vê melhor quando as idéias estão
fora de seu lugar. Ainda mais para Bomfim, que não
era qualquer pachola e encontrou uma forma original,
mas compatível com o naturalismo de sua época,
de articular sua crítica.
Vale
notar que, depois dessas observações tão
contundentes, a conclusão de A América
Latina... é algo decepcionante: Bomfim,
doutor e pedagogo, limitou-se a receitar educação
popular, como se esquecesse que a propunha às
classes "essencialmente conservadoras". Só
expressaria conclusões à altura de sua
crítica radical já idoso e doente, na
trilogia constituída por O Brasil na América
(1929), O Brasil na História (1930) e
O Brasil Nação (1931), pregaria
francamente uma transformação revolucionária.
Essa, se algum dia vier, terá de ser conduzida
por lideranças com idéias mais avançadas,
mas às quais as penetrantes observações
de Bomfim ainda teriam um ponto ou dois a esclarecer.
Nota
da Editora - Além da nova Edição do Centenário de
América Latina: Males de origem,
que acaba de sair, a Topbooks tem em catálogo outros
dois títulos de Manoel Bomfim - O
Brasil na América e O
Brasil Nação - e prepara nova
edição de O Brasil na História.
Também em nosso catálogo o leitor encontra
a biografia de Manoel Bomfim escrita pelo historiador
Ronaldo Conde Aguiar: O
Rebelde Esquecido.
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