UM CONVITE AO DOM QUIXOTE*

José Mario Pereira

"El que lee mucho y anda mucho,
vee mucho y sabe mucho".
Dom Quixote, Parte II


Pablo Picasso
Decorridos quase quatro séculos de sua publicação, o Dom Quixote de Miguel de Cervantes (1547 - 1616), obra inaugural da novelística moderna, não pára de estimular a imaginação dos homens, da crítica, de pintores, gravadores e a de outros criadores de ficção. Considerada universalmente uma das maiores criações do gênero humano, encantou Gogol, Dostoievski e Turgueniev, entre os russos; Fielding, Sterne e Dickens entre os ingleses; Balzac, Flaubert e Proust, na França, para só nos referirmos a grandes mestres da literatura de qualquer tempo.

Nosso Machado de Assis, que o lia em uma edição anotada por Dom Eugenio de Ochoa, publicada em Paris pela Garnier (segundo consta do catálogo elaborado por Glória Vianna), refere-se a ele várias vezes. No conto "Teoria do medalhão", de Papéis avulsos, aludindo aos que procuram os "benefícios da publicidade", escreve: "Que Dom Quixote solicite os favores dela mediante ações heróicas ou custosas, é um sestro próprio desse ilustre lunático". Cita-o ainda em "Elogio da vaidade", de Páginas recolhidas, e em crônicas de jornal.

Quase todas as literaturas para as quais o Quixote foi traduzido reagiram criativamente a ele, incorporando-o, recriando-o. Um exemplo na Inglaterra - primeiro país a promover sua tradução - poderia ser The Spiritual Quixote (1772), do satírico Richard Graves. Joyce e Beckett entre os irlandeses; Aldous Huxley e Graham Greene entre os ingleses; Goethe e Thomas Mann na Alemanha e Juan Rulfo no México viram-se às voltas com o poder de imantação da obra poliédrica de Cervantes. Em carta a Engels, datada de 3 de maio de 1854, Marx conta estar aprendendo espanhol, e que, com a ajuda de um dicionário, já se encontra "no meio do Dom Quixote". Existem também ensaios que especulam sobre a importância do livro para Freud e a psicanálise.

Um caso curioso é o do argentino Jorge Luis Borges, que leu a obra pela primeira vez em inglês, e confessaria a estranheza ao relê-la em espanhol. Entre as inúmeras referências de Borges ao Dom Quixote e ao seu criador as principais são, obviamente, o "Pierre Menard, autor do Quixote", incluído depois em Ficções - no qual o narrador se propõe, em curiosa prova de admiração canibalesca, simplesmente reescrever a obra - e a "Parábola de Cervantes e do Quixote", em O fazedor. Num de seus diálogos com Osvaldo Ferrari, Borges foi enfático: "Poderiam perder-se todos os exemplares do Quixote, em castelhano e nas traduções; poderiam perder-se todos, mas a figura de Dom Quixote já é parte da memória da humanidade".


Cândido Portinari
No Brasil dois poetas manifestaram enorme afeição pela figura do Quixote: Augusto Frederico Schmidt, em "A visita", verdadeira obra-prima da prosa evocativa, se imagina recebendo Dom Quixote em sua casa, confessando-lhe angústias pessoais e temores sobre a vida do país; e o mineiro Carlos Drummond de Andrade, que avulta como o autor de "Quixote e Sancho, de Portinari", série de 21 poemas originalmente escritos para um livro de arte com desenhos de Cândido Portinari, incluídos depois em As impurezas do branco.

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Tudo isso levou o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, prof. Eduardo Portella, e o diretor do Departamento Nacional do Livro, prof. Elmer Barbosa, a decidirem realizar uma exposição de parte da "cervantina" da FBN, na ocasião em que o Rio de Janeiro acolhe a Bienal do Livro, onde o país homenageado é a Espanha. A FBN possui algumas das mais preciosas edições da obra maior de Cervantes, acervo enriquecido em janeiro de 1992, quando a família de Genival Londres doou à instituição a magnífica coleção que o médico e bibliófilo reuniu ao longo de sua vida de irrefreável entusiasmo pelas aventuras do fidalgo manchego.


Gustave Doré

A mostra Cervantes & Dom Quixote, que ora se inaugura, foi pensada em segmentos didáticos, visando a não só surpreender o leitor contumaz de Cervantes como a sensibilizar quem ainda não teve a alegria de descobrir prosa tão genial e nela enveredar sem dificuldades. Apresenta-se, de início, um roteiro da vida e da obra de Miguel de Cervantes em diapasão com a cronologia dos episódios fundamentais da história espanhola do tempo, o que permite contextualizar o livro em questão, para muitos símbolo e metáfora da Espanha: Dom Quixote seria a verdadeira encarnação do que há de mais profundo na psicologia do homem espanhol.

A seguir o visitante é apresentado a algumas das mais belas edições do livro. Por serem muito conhecidas as 380 ilustrações de Gustave Doré (1833-1883) para a editora parisiense L. Hachette (1863), disponíveis em qualquer edição moderna, procuramos identificar outros ilustradores igualmente felizes.



Ricardo Balaca
Assim, apresentamos um José Jimenez Aranda (1837-1903), responsável por 689 lâminas da monumental edição do tricentenário, publicada em 1905, em oito volumes, quatro deles de ilustrações que incluem 111 lâminas de Alpériz, Bilbao, García, Ramos, Jiménez (Luís), L. Cabrera, Moreno Carbonero, Sorolla, Sala y Villegas, afora o estudo crítico de José R. Mélida. Também admiráveis são as edições barcelonesas de 1879 e 1880, a primeira com 100 cromos e 200 desenhos originais de Apeles Mestres gravados por Francisco Fuste - cuja féerie de cores lembra em alguns momentos o mundo de Bosch - e a outra ilustrada por diversos artistas, o principal deles Dom Ricardo Balaca. Só essas três edições já fariam a felicidade do mais exigente bibliófilo. Tudo nelas é perfeito, das ilustrações à tipologia; manusear estes exemplares em excelente estado de conservação, que o curador só conhecia de referência, foi emoção rara.

Selecionamos ainda artistas como o inglês Tony Johannot, autor de gravuras e vinhetas notáveis, e o francês Henri Morin, com sedutoras imagens coloridas, no empenho de bem documentar como o Quixote vem desafiando gravadores e pintores, ao longo de sua existência, e de expor o alto potencial de visibilidade da obra - característica explorada por cineastas da qualidade de um Pabst e de um Orson Welles. "De algum modo Dom Quixote continua vivo, e ainda segue cavalgando pela Espanha", disse o diretor de Cidadão Kane a Peter Bogdanovich.

Na História da caricatura no Brasil, Herman Lima incluiu dois bons desenhos de Correia Dias, e J. Carlos valeu-se do Quixote e de Sancho Pança para realizar várias ilustrações para a revista Careta, como demonstram as capas das edições de 29 de agosto de 1936 e 30 de julho de 1938. Ao exibir este material, a Exposição chama a atenção para a relevante presença do personagem cervantino nas artes gráficas brasileiras: chegamos a ter duas revistas batizadas de D. Quixote, como nos conta o pioneiro historiador (cit., vol. 2, pág. 656):

D. Quixote foi sempre um dos heróis prediletos dos nossos artistas do lápis. Seria fastidioso enumerar suas reencarnações, na pele dos nossos políticos, desde que a Semana Ilustrada apresentou o Visconde de Itaboraí como "o cavaleiro da triste figura" no ataque aos moinhos. Basta lembrar-se as duas grandes revistas ilustradas que em épocas diversas, respectivamente de 1895-1903 e de 1917-1926, circularam com o maior êxito, sob a sua invocação: a primeira de Angelo Agostini, e a segunda sob a direção de Bastos Tigre, com a colaboração artística de Julião Machado, Raul, K. Lixto, J. Carlos, Storni, Osvaldo e tantos outros caricaturistas da época.

A história da ilustração da obra-prima de Cervantes começa no século XVIII. Em 1720, Coypel, pintor da corte de Luís XV, recebeu a incumbência de criar 28 cartões sobre o tema para ornamentar o castelo de Compiègne. Em 1738, na Inglaterra, apareceu a primeira edição de luxo, com ilustrações de J. Vanderbank, e só em 1771 saiu a primeira edição espanhola dignamente ilustrada por 32 lâminas de José Camarón.

Cada período estético procurou interpretar o grande romance cervantino. Se em 1791 foram publicados os desenhos de Hogarth, durante o Romantismo vieram à luz os de Doré gravados em madeira por H. Pisan. O Realismo pôs em circulação os cromos de Apeles Mestres na edição barcelonesa de l879, e no ano seguinte ele apareceu enriquecido pela arte de Dom Ricardo Balaca, Pellicer, J. Gómez, Smeeton Tilly, Sadurní e Martí.


Daniel Urrabieta Vierge
Em 1897, os 270 desenhos de Daniel Urrabieta Vierge ganharam notoriedade, e l905 foi um ano glorioso para o Quixote com a edição ilustrada por José Jimenez Aranda e outros grandes artistas. Afora isso, pintores espanhóis da categoria de José María Sert, Ignacio Zuloaga, Salvador Dalí, Picasso e Antonio Saura vieram a contribuir, no seu tempo, para a popularização do épico nacional, assim como ficaram famosos os desenhos dos franceses D. H. Pouchon e Daumier, do russo Alexeiev, dos americanos H. I. Bacharach e A. Hann, do escocês W. Heath Robinson, dos alemães K. Walser e H. Hasemann, e do holandês Scholz.

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As figuras de Dom Quixote e Sancho Pança são universalmente conhecidas, até entre os que não leram Cervantes. De games eletrônicos a esculturas em barro do Nordeste brasileiro, é possível encontrar representações dos dois personagens nos mais distantes pontos do mundo. Mesmo no teatro, onde influenciou de Brecht a Pirandello, sua presença continua forte. Exemplo recente foi a ousada montagem, em outubro passado, do grupo catalão La Fura dels Baus: valendo-se de sofisticados recursos da tecnologia midiática (vídeo, computação, etc.), D. Q. em Barcelona ironizava certa universidade que vê no Quixote apenas mais um objeto a ser desconstruído, e não uma obra cuja modernidade descarta limitações interpretativas.

A mostra da Fundação Biblioteca Nacional expõe algumas cenas do Quixote de G. W. Pabst vivido, em 1934, pelo cantor lírico Fyodor Chaliapin. Mais tarde (1957), no filme colorido de Grigori Kozintsev, outro russo, Nicolai Cherkasov, encarnou o Cavaleiro da Triste Figura (l957), recentemente revivido por John Lithgow. Espera-se que em breve esteja disponível o filme inacabado de Orson Welles; o cineasta Júlio Bressane, que teve acesso aos negativos (de 1955), afirma tratar-se de esplêndido material a ser editado. O visitante da Exposição poderá assistir a trechos do Dom Quixote feito para a TV espanhola, com Fernando Rey e Alfredo Landa nos papéis principais, direção de Manuel Gutiérrez Aragón e roteiro do Prêmio Nobel Camilo José Cela.


Paul Delaroche, 1910
Dom Quixote atiçou igualmente a imaginação de músicos famosos. Jules Massenet compôs uma ópera, com libreto de H. Cain, que teve na estréia, em 1910, o baixo Chaliapin no papel-título, e da qual existe excelente gravação com José Van Dam (Quixote), Alain Fondary (Sancho Pança) e Teresa Berganza (Dulcinéia); Jacques Ibert escreveu as canções do filme de Pabst imortalizadas pelo mesmo Chaliapin; e de Richard Strauss há um poema sinfônico, de 1898, que ganhou duas boas gravações sob a regência de Karajan: uma com o violoncelista francês Pierre Fournier, outra com o brasileiro Antonio Menezes. Baseadas no romance existem a suíte Dom Quixote de Telemann; Las ausencias de Dulcinea y El retablo de maese Pedro de Joaquín Rodrigo; uma ópera de câmara para marionetes de Manuel de Falla; o última trabalho de Maurice Ravel, Três canções de Dom Quixote a Dulcinéia, para barítono e orquestra (1932), e obras de Purcell (1695), Paisiello (1769), Salieri (1771), Mendelssohn (1827) e Mercadante (1829), entre outras.

O livro inspirou um balé, com música de Ludwig Minkus e coreografia de Marius Petipa e Alexander Gorsky, que estreou no Teatro Bolshoi de Moscou, em 1869, ficou famoso nas performances de Rudolf Nureyev e Mikhail Barishnikov, e hoje faz parte do repertório das principais companhias de dança do mundo. Também virou musical, O homem de la Mancha (cuja Dulcinéia ganhou no Brasil a interpretação de Bibi Ferreira), depois transformado em filme com Sophia Loren e Peter O'Toole. As letras de Dale Wasserman musicadas por Mitch Leigh foram gravadas em disco pelo chansonnier Jacques Brel. A Exposição da FBN incorpora todos estes tópicos: livro, imagem, música, reflexão estética, apropriação do mito por outras literaturas, seu impacto na literatura mundial, nas artes gráficas, na poesia e no ensaísmo brasileiro.

É quase impossível dimensionar tudo o que se escreveu sobre os mais diversos aspectos do Dom Quixote. Só na Espanha do século XX publicaram-se títulos decisivos, como os de Miguel de Unamuno (Vida de Don Quijote y Sancho, 1905), Azorín (La ruta de Dom Quixote, 1912), José Ortega y Gasset (Meditaciones del Quijote, 1914), Américo Castro (El pensamiento de Cervantes, 1925), Salvador de Madariaga (Guia del lector del Quijote, 1926), Luis Rosales (Cervantes y la liberdad, 1960) e outros ensaístas poderosos, que levaram a erudição e a especulação estético-filosófica em torno do Quixote a patamares nunca antes alcançados. Como fonte documental em relação à vida, à obra e à época de Cervantes, o maior esforço individual de pesquisa, até o momento não superado, é a enciclopédica obra de Luis Astrana Marin, em sete volumes (1948-1958), de que a FBN possui uma edição belamente encadernada.

* * *

No Brasil, a literatura soube dialogar com o Quixote: no romance Fogo morto (1943), de José Lins do Rego, notaram os críticos desde a primeira hora a influência da obra maior da literatura espanhola, em especial na criação do personagem Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, espécie de Quixote do sertão brasileiro. A influência do Quixote pode ser igualmente detectada na obra de Ariano Suassuna, e mesmo na de Autran Dourado e Dalton Trevisan. No plano do ensaísmo há uma conferência famosa de Olavo Bilac, editada também em espanhol; uma outra de San Tiago Dantas, que para muitos justificaria a autoridade intelectual a ele tributada pelos contemporâneos; o ensaio de Francisco Campos, demonstração de sensibilidade poética de um homem visto sobretudo como jurista autoritário; o trabalho do amazonense Osvaldo Orico, lendo Cervantes em paralelo com Camões, o ensaio Rui Barbosa e o Dom Quixote, de J. A. Pinto do Carmo, outro de Josué Montello, e mesmo um livro de título sugestivo: Dom Quixote e Carlito, de Oliveira e Silva.

Segundo Brito Broca, na excelente Introdução à edição brasileira da José Olympio Editora, "é em Antônio José da Silva, o Judeu, vítima da Inquisição, que vamos encontrar, pela primeira vez, a marca do Quixote em nossa literatura. Sua peça, aliás denominada "ópera jocosa", composta de duas partes e estreada em outubro de 1733, no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, intitula-se Vida de Dom Quixote de la Mancha." O crítico informa ainda que, mais de um século depois, Machado de Assis, num poema de exaltação ao conhaque, publicado na Marmota Fluminense a 12 de abril de 1856, dizia:

Cognac inspirador de ledos sonhos,
Excitante licor de amor ardente,
Uma tua garrafa e o Dom Quixote
É passatempo amável.

E acrescenta que "numa página de 1877, sob o título Aquiles, Enéias, Dom Quixote, Rocambole, vemos o romancista de Brás Cubas considerar ironicamente a voga do personagem folhetinesco de Ponson de Terrail em cotejo com o de Cervantes e aquelas figuras mitológicas". Brito Broca enfatiza que o próprio Machado registrava, em crônica de 1876, "a organização de uma Cia. Literária, no Rio de Janeiro, somente para editar o Dom Quixote com as famosas ilustrações de Gustave Doré".

Num ensaio de 1951 incorporado a esta edição da José Olympio, o folclorista Luís da Câmara Cascudo afirma não ter encontrado registro do Quixote no Brasil seiscentista, ressalvando, porém, que "não é crível o desconhecimento do Engenhoso Fidalgo para os olhos coloniais brasileiros". Em "Com Dom Quixote no folclore do Brasil", escreve Mestre Cascudo:

Desde quando é lido no Brasil o Dom Quixote? Rodríguez Marín apurou que a primeira remessa do Dom Quixote para a América foi em 1605, poucas semanas depois de publicar-se a primeira parte do El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha. Pedro González Refolio apresentou à Inquisição para exame quatro caixas de livros em uma das quais viajariam cinco Don Quixotte de la Mancha. Viajariam no navio São Pedro y Nuestra Señora del Rosario, de mestre Juan de Alsusta, que devia tomar parte na frota de Tierra Firme de que ia como general Don Francisco del Corral y Toledo. Os livros iam para Puerto Belo. O exame é datado de 25 de fevereiro de 1605. Dom Quixote saíra cinco ou seis semanas antes. O indispensável mestre Rodríguez Marín informa que antes de terminar o ano da publicação (1605) a começos do seguinte, 1606, habia en las tierras americanas cerca de mil quinientos ejemplares de ella.

Contrariando não só o crítico Brito Broca, mas também o ilustre sábio potiguar, podemos identificar na obra atribuída a Gregório de Mattos - para muitos o fundador da poesia brasileira -, a primeira referência explícita ao livro de Cervantes, no poema em que descreve "as festas de cavalo que se fizeram no Terreiro [de Jesus] em louvor das onze mil virgens", texto provavelmente escrito entre 1684 e 1687 por se referir à presença, na platéia, do conde do Prado, filho do então governador da Bahia, o marquês de Minas. Ao se reportar à ação do "sobrinho do Frisão" no cavalo, afirma Gregório:

Uma aguilhada por lança
Trabalhava a meio trote,
Qual o Moço de Dom Quixote,
A que chamam Sancho Pança.

Em outro poema, um soneto dedicado ao "Tabelião Manoel Marques", diz, no verso final, que ele "manhas tem de Dom Quixote"...

* * *

Miguel de Cervantes y Saavedra nasceu no mesmo ano em que o imperador Carlos V, o grande rival de Lutero, venceu a batalha de Mühlberg. Sua vida adulta coincide com o reinado do filho de Carlos V, Felipe II (1527-1598), homem profundamente religioso, construtor do Escorial e protetor de Santa Teresa, e um dos paladinos da Contra-Reforma; também sob Felipe II a capital da Espanha transferiu-se de Toledo para Madri. Cervantes viria a lhe dedicar um poema quando de sua morte. O novo monarca, Felipe III, não herdou a vontade de poder do pai, entregando muitas decisões importantes a seu valido, o Duque de Lerma; neste reinado os mouros foram expulsos, fato comentado no Quixote, embora para alguns analistas a posição de Cervantes sobre a questão seja ambígua.

Sob o comando de D. Juan de Áustria, o irmão bastardo de Felipe II, Cervantes lutou contra os turcos na batalha de Lepanto, vencida pelos espanhóis em 7 de outubro de 1571, depois de infligirem aos adversários uma baixa de 30 mil mortos e 10 mil prisioneiros. Ali, segundo depoimentos da época, e apesar da febre que o dominava, guerreou bravamente a bordo da Marquesa, levou dois tiros e acabou por perder os movimentos da mão esquerda.

Em 1575, junto com o irmão, zarpou de Nápoles com destino à Espanha. O navio em que viajavam foi atacado por piratas berberescos, que os levaram prisioneiros para Argel. Com o irmão Rodrigo, permaneceu cativo até agosto de 1577, quando padres trinitários o resgataram. Essa aventura é mencionada no Quixote, e há quem especule - refiro-me, entre outros, ao romance de Fernando Arrabal - sobre possíveis experiências homossexuais de Cervantes naquele momento. Libertado, dedicou-se às letras, mas sustentava-se como cobrador de impostos. No mesmo ano da publicação da Primeira Parte do Quixote passou mais uma vez pela prisão, junto com a família, sob a acusação de assassinato, embora tenha sido logo solto ao se constatar o engano: apenas socorrera um ferido, Gaspar de Ezpeleta, que acabou morrendo à sua porta.

O Quixote tornou-se um best-seller tão logo a Primeira Parte foi posta à venda, em 1605, pelo impressor Juan de la Cuesta. Mas as edições piratas impediram que Cervantes pudesse ganhar a vida como escritor. Além disso, viu-se alvo das mais desumanas e invejosas perseguições do meio literário. Afora promoverem sua confrontação com o grande teatrólogo Lope de Vega, seu vizinho em Madri, em 1614, um ano depois de publicar as Novelas exemplares, apareceu em Tarragona, assinado por Fernández de Avellaneda, um Segundo tomo del Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha, em cujo prólogo se faziam ofensas pessoais a Cervantes. O fato, se o magoou, provocou também a decisão de escrever a Segunda Parte de seu livro. Três dias antes de morrer em Madri - onde o sepultaram vestido com o hábito da Ordem Franciscana - terminou a última obra, Los trabajos de Persiles y Sigismunda, publicada postumamente e tida como uma das prediletas do autor.

Supõe-se que a idéia de escrever Dom Quixote nasceu em Sevilha. O filósofo Julián Marías nota que:

...hechas las cuentas, resulta que Cervantes, el castellano, vivió cerca de veinte años en Andalucía, sobre todo en Sevilla y su comarca. La Mancha de Don Quijote nos há oscurecido bastante este hecho decisivo. Creo que sin Italia, primero, y Andalucía después no se entiende a Cervantes: su amor a la liberdad y la belleza, su complacencia en las cosas, esse entusiasmo que pone al describir la belleza de una mujer o 'un pequeño patio ladrillado, que de puro limpio y aljofifado, parecía que vertía carmín de lo más fino'...

Os críticos apontam diferenças de tom entre as duas partes do Quixote. A primeira continha 52 capítulos e mostrava um herói mais aventureiro, empenhado em grandes conquistas, enquanto nos 74 capítulos da segunda parte, lançada 10 anos depois, vê-se um homem que caminha, melancólico, para a morte. Nesse ponto, procuram aproximar a biografia do personagem à do autor.

Visto como sátira aos romances de cavalaria, especialmente ao Amadis de Gaula (circa 1300), embora o gênero já estivesse em declínio à época, o Quixote impressionou e confundiu leitores. Há quem afirme que a "loucura" do protagonista surgiu como forma de burlar os censores. Afinal, quem iria ligar para os delírios de um insano? Engana-se, porém, quem acredita que só de loucura é feito o Quixote. Nele há também realismo, e mesmo documento sociológico: os moinhos de vento do tipo com os quais se debate o personagem existiam, e eram novidade na época - só os ricos senhores de terra os possuíam. Os pobres camponeses viam como inimigos essa moderna tecnologia, no que diz respeito à produtividade. Os moinhos de vento seriam, portanto, a máquina do capitalismo competindo deslealmente e oprimindo os pequenos produtores rurais. Dom Quixote, fanático por justiça, não tinha como fugir a essa luta...

A Exposição da Fundação Biblioteca Nacional reúne também uma seleção de livros citados por Cervantes como pertencentes à biblioteca de Dom Quixote (Tirant lo Blanc, de Joanot Martorell, é um deles), edições do Quixote em línguas como o japonês, o chinês e o hebraico, e outras endereçadas ao público infanto-juvenil, como as ilustradas por Apeles Mestres e Henri Morin, além das congêneres nacionais. Uma das primeiras adaptações para os jovens realizou-a Monteiro Lobato (Dom Quixote das crianças, 1940), e aqui é de notar que ainda está por fazer-se um levantamento do que as artes gráficas brasileiras produziram a partir do herói de Cervantes.

Para quem quiser se aprofundar na bibliografia sobre o tema, selecionou-se, em meio à avalanche de textos existentes sobre Cervantes, trechos de livros facilmente encontráveis e que ajudam a melhor conhecer as peculiaridades da obra maior do mestre espanhol. Assim é o capítulo "A Dulcinéia Encantada", de Erich Auerbach, em Mimesis; o ensaio "Dom Quixote e o problema da realidade", de Alfred Schutz, em Teoria da literatura em suas fontes, indispensável antologia organizada por Luiz Costa Lima; o capítulo de Michel Foucault em As palavras e as coisas; o ensaio "Cervantes, ou a crítica da literatura", de Carlos Fuentes, em Eu e os outros - Ensaios escolhidos; o capítulo de Ian Watt em Mitos do individualismo moderno, para só citar ensaios facilmente encontráveis em português. Desse modo, espera-se que o visitante da Exposição, se sinta interiormente convocado a aprofundar-se na leitura inteligente dessa obra-prima plurifacética.

* * *

Verdadeiramente enciclopédico, no Dom Quixote é possível encontrar-se referência a temas tão diversos quanto pintura, alimentação, judaísmo, tradução, geografia, temas médicos e jurídicos, superstições e ditos populares. Prosa mutante, que se renova a cada leitura, já examinada sob os mais variados prismas, hoje é quase impossível encontrar aspecto inexplorado nesta obra que há séculos diverte, inquieta e provoca reflexão. Às vezes quem pensa estar dizendo algo novo, ou sendo provocador, apenas parodia ou contradiz o já dito. Por exemplo: muito se tem repetido, com ar de encantamento, um trecho do capítulo dedicado ao Dom Quixote em How To Read and Why (Como e por que ler, na edição brasileira), em que o crítico americano Harold Bloom afirma:

(...) Se o leitor me permite uma visão estritamente secular, Cervantes me parece o único rival possível de Shakespeare, na literatura de ficção produzida ao longo dos últimos quatro séculos. Dom Quixote é comparável a Hamlet, assim como Sancho Pança está à altura de Sir John Falstaff. Elogio maior do que esse eu não poderia tecer. Contemporâneos perfeitos (é possível que tenham morrido no mesmo dia), Shakespeare, evidentemente, leu Dom Quixote, mas é bastante improvável que Cervantes soubesse da existência de Shakespeare.

Vejamos agora um ponto da conferência "Hamlet e Dom Quixote", pronunciada pelo escritor russo Ivan Turgueniev em janeiro de 1860 , na qual consumiu 10 anos de meditação e preparo, e onde diz, entre outras afirmações discutíveis, que "não há traço de sensualidade no Dom Quixote":

A imaginação evoca contente a imagem dos dois poetas contemporâneos, que morreram no mesmo dia, o 26 (sic) de abril de 1616. É muito provável que Cervantes não soubesse nada de Shakespeare; mas o grande trágico, na solidão de sua casa de Stratford, para a qual se retirou três anos antes de sua morte, pode muito bem ter lido a célebre novela, que já havia sido traduzida ao inglês...Que tema para um pintor que fosse ao mesmo tempo um pensador: Shakespeare lendo o Quixote!

Ninguém, em sã consciência, acusaria o erudito Bloom de plágio, mas constatamos aqui fenômeno interessante: um lapso de memória, provocado por sua admiração pelo texto de Turgueniev. Afinal, não é Bloom o teórico da "angústia da influência"? Desnecessário lembrar que Shakespeare fora o tema do trabalho anterior de Bloom e, dado o caráter titânico do projeto, ele não tinha como desconhecer a famosa conferência do autor de Pais e filhos.

* * *

Uma antologia de citações sobre Dom Quixote corre sempre o perigo da injustiça e da omissão. Dostoievski, cujo O idiota é visivelmente devedor do Quixote, escreveu no Diário de um escritor (l877): "Esse livro, o mais triste de todos, o homem não deve esquecer de levar consigo no dia do Juízo Final". Para o ensaísta Alfonso Reyes, que foi embaixador do México no Rio de Janeiro, "toda consulta ao Quixote equivale a um proveitoso exame de consciência". Segundo o poeta espanhol Jorge Guillén, "Dom Quixote encarna a tragédia do homem superior que não consegue se realizar plenamente como sonhou". E Luis Rosales, outro gigante da interpretação do Quixote, sentenciou que "ninguém termina sua leitura e continua sendo o mesmo homem".


Gustave Doré
Obra sublime, que fala de livros e convida à leitura, com ela Cervantes escreveu não só a própria biografia como também a de todo homem que acredita na utopia de uma vida melhor e de um mundo mais justo. Por isso nos identificamos com seus personagens: sofremos com as desventuras do Quixote montado no fiel Rocinante; nos divertimos com seu contraponto Sancho Pança, sempre empenhado em trazê-lo de volta à realidade; e continuamos a crer - como dizia Menéndez Pidal - que nunca existirá mulher mais bela que Dulcinéia. Livro simultaneamente irônico e melancólico, que induz à solidariedade, à gratidão, interpela os poderosos e desperta afeição pelos deserdados da terra, conclamando ao amor, à amizade e ao entendimento, o Dom Quixote é também convocação à transcendência, recusa moral da corrupção e da mentira, uma aposta na moralidade e na ética. E não foi por outra razão que Miguel de Unamuno e Rubén Dario o chamaram de Nosso Senhor Dom Quixote.

Cervantes morreu em Madri, em 22 de abril (e não 26, como anotou Turgueniev) de 1616. Mas, desde então, sempre que um "desocupado leitor" abre um exemplar do Quixote, bíblia do humanismo civilizador, tem a certeza de que o autor e seus personagens são imortais.

*Texto de abertura do Catálogo da Exposição Cervantes & Dom Quixote, na Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. Maio, 2001. Curadoria de José Mario Pereira.



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