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Publicado em O Estado de Minas, domingo,
12 de novembro de 2006
O
POETA E A FOME
Affonso
Romano de Sant’Anna
Outro
dia estava falando para dezenas de operários
de uma grande empresa sobre literatura & vida, e
explicando que certas coisas quando são narradas
através de mitos e da poesia ganham uma força
especial. Ia lhes dando alguns exemplos, e eles balançavam
a cabeça concordando. É que os textos
míticos e literários têm uma força
alusiva que ultrapassa a racionalidade de outros textos,
e até mesmo das estatísticas.
Nesse
mesmo dia chego em casa e encontro o novo livro de Maria
José de Queiroz – “Em nome da pobreza”
(Topbooks). Que saudades de suas vibrantes
aulas de literatura hispano-americana na antiga Faculdade
de Filosofia! Agora a reencontro nesta obra onde sua
erudição e formação literária
estão a serviço de um tema social clamoroso
– a pobreza. Nisto ela vem se associar a uma linhagem
de escritores que têm manifestado uma invejável
lucidez sobre angustiantes temas atuais. Aí a
literatura surge para esclarecer e ilustrar intrincadas
questões e, de novo, é mais eficaz que
outros discursos.
Maria
José já havia feito algo parecido em livros
anteriores, estudando a problemática do exílio,
a questão do êxtase das drogas e a relação
entre a literatura e “o gozo impuro da comida”.
Uma maneira de mostrar como a prosa e a poesia espelham
e elaboram problemas seculares.
Certos
poemas valem mais que mil palavras de economistas, sociólogos,
filósofos e discursos de políticos. De
repente, neste livro onde se analisa a pobreza, deparo-me
com o texto de um poeta africano desconhecido, lá
de Malawi. Leio. Levo um baque. Está tudo ali.
O texto fala mais que qualquer estatística, que
qualquer discurso. O poeta cristalizou em poucas palavras
toda a nossa perplexidade, impotência e remorso
diante da pobreza. Vejam:
DE
UM POETA ANÔNIMO DO MALAWI, ÁFRICA
Eu
tinha fome
e vocês fundaram um clube humanitário
para discutir a minha fome.
Agradeço-lhes.
Eu
estava na prisão
e
vocês foram à igreja
rezar
pela minha libertação.
Agradeço-lhes.
Eu
estava nu
e vocês examinaram seriamente
as conseqüências de minha nudez.
Agradeço-lhes.
Eu
estava doente
e
vocês se ajoelharam
e
agradeceram a Deus o dom da saúde.
Agradeço-lhes.
Eu
não tinha casa
e vocês pregaram sobre o amor de Deus.
Vocês pareciam tão piedosos,
tão perto de Deus!
Mas
eu continuo com fome
continuo
só, nu, doente,
prisioneiro.
E
tenho frio,
sem
casa.
[Nota — Dois dos livros da autora a que se refere
o poeta e colunista foram editados também pela
Topbooks: Os males da ausência ou A literatura
do exílio e A literatura e o
gozo impuro da comida (esgotado)].
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