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Publicado
no caderno Cultura de O Estado de S. Paulo, 17.12.2006
D.
JOÃO VI VISTO ALÉM DA CARICATURA
Na
obra de Oliveira Lima, um rei brando e sagaz, afável
e obstinado. E também gordo e ambíguo
como seu próprio biógrafo
Lilia
Moritz Schwarcz
Muitos livros fazem "carreira solo"; outros,
como D. João VI no Brasil - um
marco na historiografia nacional e que agora ganha nova
edição -, colam-se à sina de seu
autor: no caso, Oliveira Lima, um personagem de si próprio
e de sua obra.
Manuel
de Oliveira Lima sempre fez questão de associar
sua carreira de historiador ao fato de ser pernambucano.
Afinal, foi no Recife que recebeu de presente do tio
desembargador uma coleção da Revista
do Instituto Arqueológico, Histórico e
Geográfico Pernambucano, e tomou gosto pela
história. Nascido em finais de 1867, o futuro
membro e fundador da Academia Brasileira de Letras seria
educado em Lisboa, desde 1873, onde tomou familiaridade
com os diplomatas brasileiros que serviam em Portugal,
aprendendo a dominar as línguas francesa, inglesa
e portuguesa. Foi por lá, também, ao terminar
o curso superior em 1887, que começou suas pesquisas
históricas, aprofundadas por uma longa - e pouco
brilhante - carreira no serviço diplomático
brasileiro, que se iniciaria em 1890.
Oliveira
Lima foi adido da legação em Lisboa, promovido
depois de um ano a secretário. De lá rumou
para Berlim, e em seguida para Washington, sempre na
qualidade de primeiro secretário. Depois se dirigiu
para Londres, onde conviveu com Eduardo Prado e Graça
Aranha, assim como fez parte do seleto grupo que jantava
aos domingos na casa de Joaquim Nabuco.
Conhecido
pela alcunha de "o gordo", devido a seu perfil
físico avantajado, Oliveira Lima conviveu com
essa nata de brasileiros no exterior, mas romperia com
vários deles devido à sua personalidade:
auto-irônico e de pavio curto, o diplomata se
tornou famoso por cortar relações com
seus superiores - como foi com Assis Brasil, que quase
o desafiou para um duelo, assim como com Joaquim Nabuco,
com quem deixou de falar após algumas críticas
de parte a parte. Ao que tudo indica, Nabuco preferia
mesmo a bela e espirituosa Flora, esposa de Oliveira
Lima. Mas essa é outra história e o secretário
é obrigado a seguir para o Japão, e de
lá, em 1904, para a Venezuela, nomeação
que em muito o desgostou.
Nesse
momento, a atividade literária de Oliveira Lima
já era intensa, e o futuro historiador preferiria
ter ficado mais perto de seus documentos, fosse na América,
fosse na velha Europa. Havia escrito a essa altura três
livros - Pernambuco, seu desenvolvimento histórico,
Sete anos de República e Aspectos da literatura
colonial - e acrescentaria, nesse seu exílio
involuntário, mais outros: Memória
sobre o descobrimento do Brasil, História
do reconhecimento do Império, Elogio de
F. A. Varnhagen, No Japão [também
no catálogo da editora Topbooks] e Secretário
Del-Rei, esse último uma peça histórica.
Sua
atividade também se estendia à colaboração
em jornais de Pernambuco e São Paulo, o que resultaria
em mais duas obras: Pan-americanismo e Coisas
diplomáticas. O fato é que Oliveira
Lima acomodava sua carreira diplomática oscilante
à sua profissão de historiador e servia-se
de sua posição estratégica para
alicerçar sua pesquisa. Numa época em
que os tratados de história eram basicamente
laudatórios e pautados pela prática do
auto-elogio e da reiteração, Oliveira
Lima levava à frente um projeto que implicava
em unir interpretação à documentação.
Serviria
ainda em Bruxelas e cumulativamente na Suécia,
em 1907. Nesse momento, suas simpatias pela monarquia
eram não só evidentes como abertamente
anunciadas, e esse seria o motivo para que o senado
brasileiro, em 1913, lhe vedasse a indicação
como chefe da legação em Londres. Oliveira
Lima também foi perseguido pelo então
poderoso ministro das Relações Exteriores,
o Barão do Rio Branco, que sempre o relegou aos
corredores da Secretaria de Estado. No entanto, o desprestígio
lhe teria sido providencial, uma vez que lhe facultou
tempo para trabalhar no Arquivo Nacional, na Biblioteca
Nacional e no acervo do Itamaraty.
Foi
em 1909, com a publicação de D.
João VI no Brasil, que Oliveira Lima
elevou-se, definitivamente, à condição
de historiador. Publicada em dois volumes, a obra se
destacaria por conta da documentação inédita
e copiosa que apresentava, mas também por seu
recorte histórico, sociológico e cultural.
Em D. João VI no Brasil (Topbooks,
790 págs., R$ 69) Oliveira Lima não só
acumulou dados, como os interpretou e deu colorido à
narrativa. Lá estão, em detalhes, as procissões
que encheram os olhos dos portugueses quando da chegada
da corte ao Rio, as festas de aclamação
de Dom João, as exéquias de Dona Maria
e o casamento do arruaceiro Dom Pedro. Flores espalhadas,
areias coloridas nas ruas, bandeirolas, gentes de todas
as cores faziam dos trópicos um contínuo
verão; um "carnaval perpétuo".
Estão também descritos no livro os rituais
do beija-mão, os obeliscos, pirâmides e
arcos do triunfo que deram ao Rio de Janeiro um aspecto
inesperado e até improvável. As damas
cobertas de pedraria e emplumadas, a música do
gênio nacional, o padre mulato José Maurício,
tudo faz dessa corte um espetáculo à parte,
assim como a "liteira mesquinha" da rainha,
ou o séquito exótico de D. João,
o qual andava cercado de soldados de fardas azuis, sujas
e desbotadas, todos montados em cavalos mancos. O fato
é que, com tantos elementos, Oliveira Lima montava
um cenário nunca visto, sobretudo quando descrevia
essa corte portuguesa, passageiramente estacionada nos
trópicos.
Mas
esse é também um livro de opinião.
Oliveira Lima, em primeiro lugar, parece empenhado em
desfazer a imagem caricatural de um D. João bonachão,
desleixado e sempre a comer coxinhas de galinha. O historiador
toma o partido contrário e recupera os projetos
de fuga da corte portuguesa, ao mesmo tempo em que mostra
como a monarquia dos Bragança livrou-se da sina
de uma série de realezas que, nesse contexto,
caíram sob as mãos de Napoleão.
Os Bourbons da Espanha e da Itália, o rei da
Prússia, o monarca austríaco, o próprio
czar... todos haviam tombado diante do "corso francês",
enquanto D. João seguia "impulsos do momento
e fazia política só de oportunismo".
A saída portuguesa seria não só
original como estratégica. O Dom João
de Oliveira Lima é, porém, igualmente
licencioso e capaz de, só no ano de 1818, permitir
no Paço o consumo de 620 aves. E esse é
apenas um exemplo da famosa prodigalidade da Casa Real,
que, alguns anos depois, levaria à falência
o próprio Banco do Brasil.
Segundo
o diplomata, faltavam a D. João resolução,
cinismo e disciplina mental, mas lhe sobravam a bonomia
e a vontade de ficar no Brasil, apartado da guerra e
de sua esposa, Carlota Joaquina, que vivia em outro
palácio, sempre a conspirar e pensando em revoluções,
na maior parte das vezes contra o marido. E assim complexo
o monarca que transparece das páginas deste livro;
personagem muito mais ambígua do que a que ficou
para a história, marcada pela barriga farta.
D. João era, também, e segundo a pena
do mesmo Oliveira Lima, um homem para teimas: "a
firmeza na aplicação não correspondia
nele à firmeza de opinião". O rei
que assistira a tantas provocações parecia
satisfeito em "preservar a sua coroa ainda que
mareada". Como brinca Oliveira Lima, "o manto
sobre os ombros parecia decorativo, quando mesmo o arminho
fosse falso e o veludo de algodão".
Há
ainda outro argumento presente no conjunto da obra e
que se mostraria influente na historiografia nacional.
Oliveira Lima encontra uma espécie de continuidade
entre a vinda da corte e a nossa independência:
uma monarquia cercada de repúblicas por todos
os lados. Trata-se de uma interpretação
marcada por uma lógica basicamente voltada para
a centralidade do Rio de Janeiro, e que pouca importância
dá às demais províncias, também
atuantes nesse processo. Por exemplo, ao tratar da elevação
do Brasil a Reino Unido, em 1815, Lima já mostra
como as "conseqüências desse estado
de coisas eram fortuitas, mas imperiosas". Além
do mais, apesar de não apostar na lenda da administração
impecável dos tempos de D. João, ele não
deixa de asseverar que a transladação
da corte constituiria a única explicação
para a "originalidade" da nossa emancipação.
Por sinal, o historiador usa uma centena de páginas
para descrever as melhorias militares, administrativas,
culturais e urbanas realizadas por D. João -
"um verdadeiro trabalho de aformoseamento";
sempre procurando comprovar como nosso destino era não
só previsível como antecipado. O fato
é que para Oliveira Lima Dom João foi
o verdadeiro fundador da América, aquele que,
obrigado a voltar para Portugal, em 1821, regressava
menos rei do que chegara, deixando um Brasil maior do
que encontrara. A revolução pernambucana
de 1817 ou a rebelião liberal do Porto demonstravam
como os tempos eram outros e que a lua-de-mel no Brasil
alcançara o fim. Na última página
deste livre que se lê como um longo romance, D.
João parte triste, receoso, lusco-fusco. A rainha,
ao contrário, segue delirante, feliz por ir de
encontro "à terra de gente".
Oliveira
Lima seria combatido, à sua época, por
conta de seu monarquismo e dos contínuos ataques
que fez à carreira diplomática: seria
um gauche sem ser. Criticou a doutrina Monroe (quando
essa fazia furor entre seus contemporâneos), assim
como defendeu a herança cultural européia
diante da americana, numa época em que a imaginação
política se voltava para os Estados Unidos. Por
essas e por outras, foi um político bastante
isolado. Já a carreira de seu livro teve vida
longa e continua a ser referência para todo aquele
que pense nesse Brasil joanino, cuja história
logo mais fará 200 anos.
Oliveira
Lima parece ter se identificado com sua personagem,
não só por conta da gordura, que lhes
era comum, como em função de sua inserção
ambivalente. D. João era, segundo seu biógrafo,
brando e sagaz, precavido e por vezes impulsivo, muito
afável, mas também obstinado. Nesse caso,
criador e criatura parecem fazer parte do mesmo retrato
na parede.
LILIA
MORITZ SCHWARCZ é professora do Departamento
de Antropologia da USP, e autora, entre outros, de A
longa viagem da biblioteca dos reis (Companhia das
Letras).
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