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A graça da astúcia no
olho arguto do repórter
José
Nêumanne
O jornalista, escritor e acadêmico potiguar Murilo
Melo Filho dedica seu mais recente livro, Tempo diferente,
ao colega maranhense Josué Montello e aos próprios
netos, Janaína e Bernardo. A dedicatória
é relevante por revelar a gratidão pelo
amigo que o estimulou a puxar pela memória para
produzir o texto, e o objetivo de deixar um registro
para a posteridade, representando os descendentes em
segundo grau o leitor do futuro ao qual é dado
o privilégio de conhecer um Brasil e um tipo
de brasileiro que, se ainda não foi extinto,
deixou de ser representativo da maioria. Além
disso, o autor transferiu para o papel um engenho, que
na certa tem, de ser um bom papo, um vovô capaz
de encantar com histórias pitorescas de sua experiência
de vida e seu convívio.
Murilo é um remanescente da geração
de repórteres políticos que cobriram o
Congresso Nacional nos tempos da efêmera e saudosa
democracia de 1946, dos palácios Tiradentes e
Monroe e dos míticos "anos dourados"
sob a égide de JK, o "presidente bossa nova",
que agora volta à moda, mercê do talento
de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, autores
da minissérie sobre ele na TV Globo. Foi colega
de bancada de Carlos Castello Branco, o "Castelinho",
um dos perfilados no livro, autêntico mito da
reportagem política, que deixou em colunas de
jornal e livros uma obra consistente de acompanhamento
da vida parlamentar na época lembrada, e nos
posteriores tempos atros da ditadura tecnocrático-militar.
E também de Villas-Boas Corrêa, ainda na
ativa e autor da apresentação "Astúcia
de repórter", em que registrou com argúcia:
"As biografias sucintas oferecem ao leitor a apresentação
dos que desfilam com seus crachás, suas vitórias,
insucessos, obras e realizações, até
levá-lo à entrada da mina da novidade,
da informação inédita e do detalhe
desconhecido que o repórter catou no fundo do
baú de meio século de militância".
O
bife cru e a corda bamba - O autor conviveu de perto
com vários de seus personagens. Gozou da confiança
do patrão na Tribuna da Imprensa, Carlos Lacerda,
de quem fez um registro memorável. É irresistível
a graça com que narrou episódio que testemunhou
dando conta de uma visita de solidariedade ao polêmico
jornalista e genial tribuno, agredido a socos a mando
de inimigos. Entre os aliados e amigos que o visitaram,
solidários, destacou-se a figura do brigadeiro
Eduardo Gomes, duas vezes candidato (derrotado) à
presidência da República pelo partido de
Lacerda, a UDN. Seu mutismo reduziu a silêncio
o bulício dos visitantes, até que se ergueu
da poltrona, anunciando a retirada e um último
conselho ao correligionário. O constrangimento
foi geral para quem contava com uma relevante sentença
política. "Por experiência própria,
sei que nestes casos de rosto inchado é muito
bom passar um bife cru". E foi embora.
Murilo nasceu no Rio Grande do Norte, berço do
titular de um brevíssimo mandato presidencial,
o líder sindical natalense João Café
Filho, que assumiu o poder na República com o
suicídio do titular, Getúlio Vargas. Imposto
pelo populista paulista Adhemar de Barros ao ex-ditador,
não foi aceito por este e o interpelou duramente
a respeito da chapa antes de um comício em Bauru.
O gaúcho o convidou para o palanque, onde homologou
a chapa, e de onde partiram para uma incursão
pelo interior do Paraná. Em Ponta Grossa, o candidato
a presidente rememorou sua passagem anterior pela cidade,
onde tinha recebido a notícia da renúncia
de Washington Luiz num baile no qual convidara uma jovem
para dançar. "Retirei-me da festa e nunca
mais voltei a dançar... A não ser na corda
bamba", rememorou Getúlio. E olhou de soslaio
para o candidato a vice, que, em 1937, às vésperas
do golpe do Estado Novo, dissera que ele "dançava
na corda bamba". Nunca mais foram vistos juntos,
mas, para surpresa geral, inclusive do vencedor para
a Presidência, Café foi vice e sucedeu
o suicida.
Mas
os políticos não são os únicos
protagonistas dos "causos" contados por Murilo
em seu novo livro. Também são seus personagens
grandes nomes da cultura nacional, como Alceu Amoroso
Lima, Celso Furtado e Carlos Drummond de Andrade, que
recebeu do autor a alcunha de "homem de ferro",
por causa do minério depositado no subsolo de
sua terra natal, Itabira. Ele narrou, por exemplo, como
se deu o desligamento do romancista baiano Jorge Amado
do Partido Comunista Brasileiro, que exigia fidelidade
ao realismo socialista sob a égide de Stalin
na ficção. "Cumprir minhas tarefas
qualquer um pode. Mas escrever os meus livros só
eu posso", justificou o autor de Grabriela, cravo
e canela.
É
o caso do livro aqui comentado: só Murilo Melo
Filho poderia escrevê-lo. Mas, felizmente para
todos nós, a qualquer mortal se permite a graça
de lê-lo.
Caderno
Cultura
O Estado de S. Paulo
22/01/2006
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