| Publicado
na revista EDUCAÇÃO – edição
121 (Maio de 2007)
Educar
não é domesticar
Falecido
em 27 de junho de 2007, o poeta e professor Bruno Tolentino
concedeu à revista Educação aquela
que, provavelmente, foi sua última entrevista.
Com a veia de polemista ainda bem viva, desancou a tradição
francófila da USP e criticou a educação
que visa a domesticar.
Bruno
Lúcio de Carvalho Tolentino
Poeta
e professor, o carioca Bruno Lúcio de Carvalho
Tolentino voltou ao Brasil em 1993 após uma temporada
de quase 30 anos na Europa. Na bagagem, trouxe, além
do reconhecimento de autores como W. H. Auden e Saint-John
Perse, a experiência de lecionar por mais de dez
anos em universidades britânicas (Oxford, Bristol
e Essex) e a vivência de alfabetizar detentos
e organizar oficinas literárias na penitenciária
de Dartmoor, onde ficou preso 22 meses por tráfico
de drogas. Dirigiu, ainda, a Oxford Poetry Now, a editora
de poesia da Universidade de Oxford.
Aqui, com A Balada do Cárcere (Topbooks) ganhou
o Prêmio Cruz e Sousa 1996 e o Abgar Renault 1997,
depois o Senador José Ermírio de Moraes
2003, concedido pela Academia Brasileira de Letras,
e dois Jabutis: em 1995, com As Horas de Katharina,
e em 2002, com O Mundo como Idéia. Ganhou, ainda,
o reconhecimento público de vários intelectuais,
entre eles Miguel Reale, Antônio Houaiss, João
Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Olavo de Carvalho
e José Guilherme Merquior. Só não
ganhou na universidade brasileira o espaço que
tinha fora do país.
Com 66 anos, vive em São Paulo, onde ministrará,
ao longo de 2007, um curso no Centro de Extensão
Universitária (CEU), um dos raros lugares em
que é convidado a ensinar. Para Tolentino, a
educação deve buscar desenvolver potencialidades
e fugir da imposição de pontos de vista
aos educandos. Leia, a seguir, a entrevista concedida
a Cassiano José.
O senhor lecionou em três universidades britânicas.
Qual o ambiente educacional que encontrou por onde passou?
Lá há uma constante passagem de gente
interessantíssima. Eu gostava muito. Fui lá
lecionar o teatro de Lope de Vega, Calderón de
la Barca, o "siglo de oro" espanhol. Era para
ser provisório, mas, como só o provisório
dura, fiquei.
Era um cenário muito diferente do que tínhamos
no Brasil?
Um país deste tamanho não é constituído
de imbecis. Eu conheci muito poucos, aliás. Quando
cheguei à Europa, não me sentia muito
diferente do europeu. Falava como eles, às vezes
melhor do que eles.
Então, a educação brasileira
perdeu o passo nas últimas décadas?
Existe um medo – assim como uma imperdoável
ilusão (ela parece ser irmã gêmea
da burrice) – que faz com que você queira
que as coisas sejam outras, e não aquilo que
são. O prejuízo disso é enorme.
É a impostura intelectual. Foram os franceses
que trouxeram isso para o Brasil. O mundo inteiro fala
inglês, menos os franceses. Querem ser outra coisa.
Querem ser uma alternativa à Inglaterra, e não
são. [Jacques] Derrida ou desce, [Gilles] Deleuze
e cia., isso só lá tem. Ninguém
leva a Sorbonne a sério, a não ser a Guiana
e o Brasil. Não fizeram isso na América
Espanhola, em lugar nenhum. O Brasil apostou alto nisso.
O preço que a gente pagou é o de uma débâcle
moral que nunca houve no país. Há um calculismo
contagioso, que tem muito que ver com aquela turma que
paparicava Stalin. Essa gente se apequenou. É
um apequenamento moral mesmo, particularmente repulsivo
nos intelectuais. É uma coisa muito grave, porque
isso certamente não é coisa de intelectual,
isso não é coisa de homem. Essa turma
toda que cala e consente me choca mais do que os que
puxam o gatilho ou os que arrastam criança por
aí.
É preciso abandonar esse modelo universitário
francês?
A América Espanhola diz assim pra França,
desde o princípio dos tempos: "A gente também
cozinha, a gente tem tudo que vocês têm,
menos a empáfia; então, vocês fiquem
do lado de lá!". O Brasil não vai
fazer isso. A USP é um tumor e é preciso
aceitar que isso morra. O último desconstrucionista
vai morrer aqui. A nossa esperança é que
ninguém mais no mundo sabe francês, ninguém
quer saber. Estão se lixando. O francês
vai perder a comunicabilidade, que já é
mínima.
O que significa perder a comunicabilidade?
Nunca fui objetivo. O resultado do meu trabalho vem
da comunicabilidade e do interesse que tenho naquilo
que estou fazendo. Na Inglaterra, os alunos acabavam
dando mais no couro comigo do que com outros professores.
O contato com o outro é essencial. É impossível
não se relacionar, não levar em conta
a realidade do outro. O outro é o real. Não
sou eu nem o que eu quero. Se o seu esforço é
todo por não se afastar da realidade, por servi-la,
por ceder a ela cada vez mais, fatalmente você
vai descobrir que essa realidade é o outro, a
pessoa que está na sua frente. Ele existe. O
resto é abstração. Você faz
o que quiser com a sua imaginação. Mas
o outro você não pode imaginar. Ele está
sempre a mais ou a menos. Atrapalha. É uma droga.
Realmente, seria melhor que não houvesse. Sem
o outro, a vida seria muito mais fácil, mais
simples, mais narcisística. Só que o outro
não pode deixar de ser verdade. Não há
alternativa. É por aqui ou nada. Mas tem gente
apaixonada pelo nada, porque o nada te dispensa até
mesmo de ser você. Aqui no nosso país nós
nos acostumamos a atropelar o próximo como se
ele nada fosse, em nome desse ou daquele ponto de vista,
que na verdade não é outra coisa que não
um ponto de vista. Não aceito de modo algum que
a verdade seja tida como um ponto de vista pura e simplesmente,
mas ela não pode prescindir do ponto de vista.
Há um risco educativo em atropelar o próximo,
impor uma seletividade. E é gravíssimo
isso.
Como se manifesta essa seletividade na cultura brasileira?
Por que eu fui a favor da eleição do Paulo
Coelho pra Academia Brasileira de Letras? Porque eu
não via nenhuma razão – não
via e continuo não vendo – para que ele
fosse excluído da seleta audiência que
têm José Sarney e Nélida Piñon.
Ele é lido pelas empregadinhas? Ele é
lido pela turma que lê Caras? E daí? Ela
é lida pela turma que não lê coisa
nenhuma. O que precisa acabar no Brasil é esse
"nós contra eles". Esse é o
espírito do rei na barriga que a francesada mandou
pra cá.
Qual o papel da escola para o desenvolvimento da
comunicabilidade do indivíduo?
Os critérios de uma universidade, de uma casa
de saber, por pior que seja, por uspiana que seja, são
melhores do que a torre de marfim do sujeito que acha
que sabe tudo. Eu constatei quão grave é
você ser um autodidata. Você não
tem a contestação do outro. O outro será
sempre uma criação sua, e não uma
barreira ao seu ego. O ego precisa ser conquistado e
perdido todo santo dia. Senão, quando você
vai ver, está no crime organizado. O crime organizado
intelectual é o pior de todos. Eu sinto muita
falta tanto do professor [Antônio] Houaiss quanto
do professor [Miguel] Reale. Ambos, um praticamente
de extrema esquerda, o outro de extrema direita, eram
suficientemente humanos para carregar as suas dificuldades
e as suas limitações, sem maquiagem.
Os intelectuais brasileiros parecem estar sempre
à procura de uma identidade nacional. Nossa educação
é prejudicada pelo fato de não havermos
chegado ainda a uma idéia precisa sobre quem
somos?
Há um excesso de preocupação com
isso, até uma certa obsessão. Nossa identidade
é feita de dejetos e fragmentos de outras culturas.
Por enquanto é isso que nós temos e somos.
Algo mais nós ainda não temos, se é
que algum dia teremos, se é que importa ter.
Há quem diga que o Brasil é um país
muito velho. O que é velha no Brasil é
essa mania de ter uma idéia muito precisa, muito
exata do que nós somos, do que não somos
e daquilo que deveríamos ser. Isso pra mim é
o auge da velhice, é a velhice total. A ausência
dessa identidade clara é uma chance de vivermos
o espírito educativo de maneira mais criativa.
Só mesmo nós poderíamos produzir
um escritor como o Machado [de Assis], por exemplo.
Um escritor como o Machado só poderia existir
na medida em que fosse afetadamente fragmentário.
Nós não temos compromisso com uma única
matriz: francesa, inglesa, alemã ou italiana.
É a vantagem brasileira. O brasileiro, quando
culto, sabe um monte de coisa, conhece literatura francesa,
alemã, italiana e tudo mais. Seria preciso que
isso fosse mais organizado? Eu não sinto lá
muita falta disso. A questão da educação
no Brasil parece ser simplesmente, antes de qualquer
coisa, aquela que o Cristovam Buarque, em quem eu votei,
coloca muito bem: nós não educamos, nós
não investimos no elemento humano. Sem educação
não vai haver coisa nenhuma.
Nós
precisamos repensar as nossas prioridades nesse sentido.
Há muita coisa aqui para melhorar. Há
defeitos de caráter, de individualismo, que não
se justificam. Nós precisaríamos ficar
de olho na inconseqüência nacional. A impressão
que se tem é que aqui as coisas "ficam por
isso mesmo".
Dá para ser um pouco otimista, então?
Eu sou um otimista de mau humor, um otimista ranzinza.
O nosso problema educacional, velhíssimo, que
nós temos, que sempre tivemos, é este:
quando educamos alguém, nós simplesmente
tratamos de domesticar essa pessoa, e domesticação
não é educação. Para educar,
você traz. Na medida do possível, da sua
capacidade, você executa um trabalho de demiurgo,
de trazer o que está ali. Você não
põe nada ali dentro. Não tem por que se
meter a enfiar nada na cuca de ninguém. Eu sou
contra o formalismo em todos os sentidos. E o formalismo
em educação me parece ainda mais grave.
Eu não tenho nada a propor, mas acho que, como
tudo está mais ou menos por fazer aqui, nada
está perdido. Ou pelo menos não está
de todo perdido. |