Publicado
na revista Entrelivros, março / 2007
PRAIA
PROVISÓRIA
Adriano Espínola, Topbooks, 116 págs.,
R$ 28
Regresso à pátria
provisória da poesia
Após
passar uma década sem publicar novos poemas,
Espínola retoma lírica amorosa de sutilíssimo
toque
André
Seffrin
Desde Beira-sol (1997), ou seja, há
dez anos, Adriano Espínola não publicava
nova reunião de poemas. Nesse tempo, ou melhor,
a partir de 1996, andou republicando livros antigos,
revistos e/ou reformulados, e lançou As
artes de enganar: um estudo das máscaras poéticas
e biográficas de Gregório de Mattos
(2000). Beira-sol é, sem nenhum
favor, dos livros mais belos de nossa lírica
moderna em língua portuguesa, e acabou por conduzir
o autor ao extremo de suas indagações
poético-existenciais. Pergunta que me fiz desde
aquela época: que caminhos o poeta vai percorrer
depois desse livro?
Adriano Espínola aí amargou longas esperas,
dissimuladas em reedições de livros antigos,
a exemplo de O lote clandestino (2002).
E agora, ei-lo de novo, a compor suas dúvidas
de animal humano e de poeta, com a força que
se espera dele, em mais uma de suas viagens de regresso
à praia (ou pátria) provisória
da poesia.
Formalmente,
ele costuma trabalhar com a mesma naturalidade o poema
curto, à maneira de Drummond, e o poema longo,
de extração whitmaniana. Mas optou, nos
dois últimos livros, pelos poemas mais sintéticos,
com intensidade lírica e por vezes alimentados
por um ludismo epigramático. Parece estar em
seu grande momento, uma vez que, no ir e vir dos poemas
longos – vide "Táxi" e "Metrô",
reunidos no volume Em trânsito
(1996) –, não consegue evitar certos artifícios
verbais ao valorizar visualmente, de passagem, palavras
que não exprimem o esperado sentimento poético
nem alcançam o efeito desejado no interior do
poema. Ao contrário, nas pequenas cápsulas
verbais de Beira-sol e Praia
provisória não andará
distante dos melhores poetas do seu tempo, dentro dessa
família inquieta e febril que é a sua,
ou seja, a dos líricos de hoje e de sempre. É
verdade que parte da crítica discorda deste meu
ponto de vista.
Ora,
nos primeiros livros – principalmente em Fala,
favela (1998) e O lote clandestino
– Adriano Espínola ainda se deixava encantar
pelo poema figurativo, dando peso e valor excessivo
a determinados versos ou palavras, à sombra dos
ventos uivantes da poesia de ânimo social e/ou
concretista. Praia provisória o redime desta
e de outras incursões pouco felizes – não
apenas no aspecto formal, mas de fidelidade à
sua pegada mais genuína, isto é, a lírica
amorosa de sutilíssimo toque, de pequenas iluminações
verbais no branco da página. Assim, os poemas
curtos e parte dos poemas longos que escreveu antes
de Beira-sol poderão, no futuro,
ser encarados como experimentos circunstanciais frente
ao que se configurou em sua obra posterior.
De
fato, ao tomar precavida distância das "marés
montantes dos minutos" que o impulsionaram em "Táxi"
e "Metrô", Adriano Espínola passou
a catalisar o que possui de melhor. E o que seria esse
melhor? Ora, a plasticidade orgânica que imprime
à matéria de cada poema, o cuidado que
demonstra ter com a concavidade do silêncio entre
uma palavra e outra e com a modulação
de voz que cada poema exige de modo diferente, tudo
isso aliado ao domínio extraordinário
das formas fixas, entre as quais o soneto, para o qual
se preparou como poucos de sua geração.
Também
como poucos de sua geração, em Praia
provisória ele se revela ainda um autor
mentalmente afinado com as referências à
poesia universal. Como quem estivesse a passar a limpo
seus cadernos, e não apenas os seus - também
os cadernos dos poetas que devemos homenagear, assim
como os daqueles que devemos apenas lembrar para não
repetir. Com a necessária visão retrospectiva,
procurando reduzir (se é que cabe o raciocínio)
de maneira amplificada esse passado que o acompanha
na realização de cada poema, Adriano Espínola
encarou frontalmente o seu drama. Drama que é,
afinal, o de todo grande poeta: exorcismar obsessivamente
velhos fantasmas – que o digam os poemas da seção
''Os hóspedes" –, seus e de outrem,
para compor, enfim, os poemas que a todo instante podem
reinaugurar o mundo e a poesia.
Com
essa alta consciência do oficio, ele escreve poemas
como "Verão", que, na abertura do livro,
converte-se em uma iluminura que tangencia a criação
de mestres do nível de Joaquim Cardozo e Mário
Quintana: "O sol é grande e breve./ A praia
e as aves, livres./ A tua carne, alegre. / Sim, sobre
ela eu lerei todos os livros".
Destacaria
muitos outros poemas que se fixam na memória
com suas gemas irrepetíveis – "Culinária",
“A cebola", "Quíron", "Dante",
"Os mortos", "Pacto" – sem
abdicar, é claro, de nenhum outro ao longo do
livro. Parodiando Vieira, podemos dizer que Adriano
Espínola prefere ver as palavras não como
palavras, mas como estrelas. E é com elas que
ele prepara silenciosamente, todos os dias, a sua lição
de coisas: "Sou todo ali:/ a outra coisa e a coisa-em-si,/
neste agora múltiplo e uno,/ luz concentrada/
entre o mito e o minuto,/ o cálculo e a loucura,/
a flor e o fruto,/ juntos:/ amorosamente. / Aqui./ no
presente./ Mais nada". Sem dúvida, uma iniludível
profissão de fé.
Nota: Todos os livros do poeta acima citados foram editados
pela Topbooks.
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