| Publicado
na Folha de S. Paulo, sábado, 4 de novembro de
2006
Agudezas e engenhos de um bardo
Em "Praia Provisória", Adriano
Espínola demonstra virtuosismo de quem domina
engrenagens da tradição lírica
Manuel
da Costa Pinto
EM
"PRAIA PROVISÓRIA", de Adriano Espínola,
o sol é presença tão intensa quanto
fugaz: domina a primeira parte de um livro composto
de cinco seções, dando a impressão
de um hedonismo descompromissado, praiano. Ainda nessa
seqüência inicial, porém, aflora aquilo
que é característico do autor: um virtuosismo
de quem domina as engrenagens da tradição
lírica, temperado por uma batida seca e ritmada,
que parece extraída do cantador popular. Da fusão
desses elementos – lirismo solar, erudição,
oralidade persuasiva – surge uma poesia cheia
de "agudeza e engenho", expressão associada
ao barroco e que não seria inadequado aplicar
a esse poeta e ensaísta que, em "As Artes
de Enganar" (Topbooks), analisou a obra de Gregório
de Matos.
Em
duas partes do livro, algumas destas características
aparecem isoladas das demais – e por isso correspondem
a momentos menos intensos, pois limitados a um único
aspecto desse conjunto em geral orgânico. Isso
ocorre sobretudo em "Os Hóspedes",
onde Espínola escreve "à maneira"
de diferentes filósofos ou poetas (de Heráclito
até Borges) e se apropria da fala de figuras
mitológicas (Édipo, Ulisses).
São
versos notáveis pela capacidade de glosar, com
leveza e humor, tanto o serpentário retórico
de Camões ou do padre Vieira quanto o estilo
epigramático de Sousândrade – evocado
num soneto quase monossilábico em que as palavras
desmembradas celebram "O Guesa Errante", épico
vertiginoso do poeta maranhense: "yea!/ na / lín/
gua// por/ tu/ guesa/ a// por/ tou/ er// rante/ um/
guesa".
Em
outra seção, "Armadilha para Orfeu",
os poemas obedecem a uma toada que remete tanto aos
gêneros satírico-picarescos quanto às
pelejas nordestinas: "Do fim ao início,/
eis meu ofício:// sou bucaneiro/ (bardo ligeiro).//
Trafico sons,/ pilho sentidos,// finjo de bons/ os teus
ouvidos" – escreve ele no maior poema do
livro, vestindo a máscara do burlador que faz
pilhéria de si e pilhagem da obra alheia.
Em
ambos os casos, temos a dicção cerebral
de quem brinca com diferentes modulações.
Esses exercícios trazem embutido, todavia, um
programa estético que consiste em cifrar o sério
no jocoso, o dramático no paródico; de
captar, pela multiplicação das formas
poéticas, o pluralismo da experiência moderna.
Isso
se realiza, por exemplo, nos poemas reunidos na seção
inicial, intitulada "Maramar". Aqui, os quatro
versos de "Verão" ("O sol é
grande e breve./ A praia e as aves, livres./ A tua carne,
alegre.// Sim, sobre ela eu lerei todos os livros.")
invertem o célebre "Brisa Marinha",
de Mallarmé ("a carne é triste, ai!,
e já li todos os livros"), mas o motivo
luminoso logo desliza para os drummondianos "Negra"
e "Prego" (paráfrase de "Confidência
do Itabirano"), e daí para a imagem de um
"Meio-Dia" que tudo calcina e torna provisório:
"estaca fincada/ (...) solidão a pino".
PRAIA PROVISÓRIA    
Autor: Adriano Espínola
Editora: Topbooks
Quanto: R$ 28 (120 págs.)
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