|
Caderno +Mais, Folha de S. Paulo, domingo, 06.01.2008
O historiador inquieto
Coletânea
introduz obra do britânico Trevor-Roper, que analisou
transformações da Europa entre os séculos
XVI e XVIII
JEAN
MARCEL CARVALHO FRANÇA / ESPECIAL PARA A
FOLHA
Poucos
historiadores contemporâneos devotaram tanto gosto
pela polêmica quanto o inglês Hugh Trevor-Roper
(1914-2003). Inúmeros são os livros e
ensaios que deixou – a maioria sobre o nascimento
da Europa moderna (séculos XVI e XVII) e a Segunda
Guerra – construídos a partir da problematização
de teses alheias, teses que o catedrático de
Oxford "testa", desmonta e critica com uma
acuidade pouco usual no meio – que o digam Max
Weber, Eric Hobsbawm, M. Dobb, A. J. P. Taylor, E. Carr,
Cristopher Hill e tantos outros.
A
comentada obra de Trevor-Roper, no entanto, ainda que
conhecida dos historiadores locais, é pouquíssimo
divulgada e acessível no Brasil. Para se ter
uma idéia da sua "impopularidade",
basta mencionar que nenhum de seus livros, nem mesmo
o mais popular deles, Os Últimos Dias de Hitler
(1947), conheceu uma tradução brasileira.
Graças,
porém, à editora Topbooks, que
tem se notabilizado pela publicação entre
nós de importantes estudos historiográficos
estrangeiros, o leitor brasileiro já pode ter
acesso, em português do Brasil – havia já
uma tradução portuguesa da obra –,
a um dos pontos altos da carreira deste inquieto historiador:
A Crise do Século XVII – Religião,
a Reforma e Mudança Social, uma coletânea
de ensaios publicada originalmente em 1967. Formado
por dez extensos e densos estudos, o livro, segundo
as palavras do próprio Hugh Trevor-Roper, é
todo voltado para o mapeamento da "crise geral
no período "moderno inicial" da história;
crise que não foi apenas política ou econômica,
mas também social e intelectual, e que não
se limitou a um país, mas foi sentida por toda
a Europa".
Dos
ensaios interessados em analisar tal crise, seis deles
dedicados direta ou indiretamente à Guerra Civil
inglesa – das suas influências intelectuais
às relações de Oliver Cromwell
com o Parlamento –, quatro são especialmente
recomendados para aqueles que querem conhecer melhor
algumas das teses centrais, dos temas recorrentes e
mesmo dos deslocamentos conceituais presentes nos estudos
de Trevor-Roper sobre os séculos XVI, XVII e
XVIII.
O
primeiro deles, por certo o mais célebre, intitula-se
"Religião, a Reforma e Mudança Social"
e dedica-se a "testar" a famosa tese de Weber
segundo a qual a ética calvinista teria sido
o motor moral e intelectual do capitalismo nascente
dos séculos XVI e XVII. O inglês não
refuta propriamente a tese de Weber, como o leitor verá,
mas complementa-a, precisa-a, dá-lhe, enfim,
sustância histórica – "Weber
baseou-se em exemplos históricos limitados e
limitadores", como explica –, a sustância
que supostamente faltara ao sociólogo alemão.
Intimamente
articulado a esse primeiro estudo, o segundo ensaio
da coletânea, "A Crise Geral do Século
XVII", também tem um alvo preciso, o dito
marxismo inglês e sua leitura do conturbado período
que viveu a Europa seiscentista. O que está em
causa aqui é o tamanho da crise – várias
crises locais ou uma grande crise com diversas "atualizações"?
– e sobretudo a sua natureza: o historiador está
diante de uma crise econômica, com desdobramentos
políticos, ou de uma "crise ampla nas relações
entre Estado e sociedade"?
Os
dois ensaios subseqüentes, "A Mania Européia
de Bruxas" e "As Origens Religiosas do Iluminismo",
trazem um Trevor-Roper sensível aos apelos de
uma "história intelectual". O primeiro
busca determinar as condições sociais
para a emergência e proliferação,
entre os séculos XVI e XVII, em diversas regiões
da Europa, de uma persistente "ideologia persecutória"
em relação às bruxas. O outro trata
das origens do Iluminismo, não propriamente das
origens protestantes do movimento, mas, como o historiador
procura demonstrar com sólida argumentação,
da sua origem "erasmiana".
A
Crise do Século XVII, em resumo, é
uma excelente amostra da história legada por
Trevor-Roper. Trata-se de um livro erudito, articulado
e dotado de uma linguagem tão clara e atraente
que o leitor acaba por não perceber, por exemplo,
o uso que faz o autor de algumas analogias um tanto
anacrônicas, a certeza subjacente à sua
exposição de que o acúmulo de exemplos
empíricos garante a verdade da tese a ser demonstrada,
a sua crença em "fatos históricos"
extensivos à Europa como um todo e, sobretudo,
o seu modo pouco sutil de abordar os temas culturais,
tomados quase como um reflexo dos processos políticos
e econômicos.
Trevor-Roper, afinal, é daqueles historiadores
cujo talento argumentativo tem o poder de dissolver
os pressupostos de seu discurso numa narrativa que soa
aos ouvidos do leitor como algo muito próximo
de uma suposta "verdade os fatos".
JEAN MARCEL CARVALHO FRANÇA é professor
de história na Universidade Estadual Paulista,
em Franca (SP), e autor de "Literatura e Sociedade
no Rio de Janeiro Oitocentista" (Imprensa Nacional/Casa
da Moeda).
Leia
também: Humanismo
muito além da religião
|